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Notícia de Ciência e Saúde
Saúde Sessões de leitura em grupo amenizam impactos de quem sofre com dor crônica Para os pesquisadores, a técnica poderia complementar a terapia cognitivo-comportamental

Por: Vilhena Soares - Correio Braziliense

Publicado em: 02/08/2017 08:09 Atualizado em:

Foto: Arte/CB
Foto: Arte/CB


A dor crônica é uma enfermidade que causa sofrimento físico, mas também provoca danos emocionais. Para amenizar os impactos psicológicos, um dos tratamentos utilizados é a terapia cognitivo-comportamental. Cientistas do Reino Unido testaram se a leitura compartilhada também funcionaria como apoio emocional. Testes com pacientes mostraram melhoras após sessões de leitura em grupo. Segundo os investigadores, os resultados obtidos podem ajudar no desenvolvimento de um novo tratamento para uma complicação que atinge 60 milhões de pessoas no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira para Estudos da Dor.
 
Participaram do experimento pessoas com dor crônica e tratadas em um hospital no Reino Unido. Metade dos voluntários participou por cinco semanas de sessões individuais de terapia cognitivo-comportamental. A outra parte foi submetida a um tratamento baseado em leitura compartilhada e com 22 semanas de duração. Nos encontros, havia pausas regulares, em que os participantes eram encorajados a refletir sobre o texto lido, discutindo sobre pensamentos e memórias gerados pela leitura e a relação do texto com o próprio cotidiano.

Na avaliação final, os cientistas observaram que os pacientes do primeiro grupo mostraram-se centrados apenas na dor que enfrentavam. Os participantes do grupo de leitura compartilhada foram além, conseguiram refletir sobre outras experiências de vida, como o trabalho e a infância. Ao terminar a fase de terapia cognitiva, o mesmo grupo foi encaminhado à atividade de leitura e também apresentou resultados mais positivos.

Para os pesquisadores, os efeitos da leitura compartilhada têm maior potencial terapêutico porque permitem uma recuperação “por inteiro”, não apenas pela doença. “As histórias contadas na leitura compartilhada muitas vezes não haviam sido mencionadas anteriormente, eram ‘enterradas’. E quando histórias contadas na terapia comportamental eram repetidas na leitura, elas tendiam a ser compreendidas e contadas a partir de uma nova perspectiva, ajudando o paciente a alcançar um dos objetivos principais: a mudança da percepção em relação à dor”, detalha ao Correio Josie Billington, pesquisadora da Universidade de Liverpool e uma das autoras do estudo.

As diferenças nos resultados, conta Josie Billington, surpreenderam os investigadores. “Quando os pacientes estão na terapia cognitivo-comportamental, eles são pessoas com dor. Quando estão no grupo de leitura, são pessoas com vida”, compara. A equipe acredita que a ficção e a poesia presente nos textos possam servir como ferramenta que estimula o prazer emocional esquecido pelos pacientes. Com essa “alavanca”, eles se sentem mais dispostos a compartilhar os problemas, ligados ou não à dor.

“Uma descoberta inesperada poderosa foi a abertura para mudança, sendo mais visível e demonstrável na leitura compartilhada do que na terapia cognitivo-comportamental. A voluntariedade de contribuição de experiências durante a leitura também significou, crucialmente, que os participantes podiam lidar, à própria maneira, com questões difíceis. Eles não agiam de uma forma que parecesse esperar por um momento mais oportuno para falar”, detalha Josie Billington. “Essa questão de tempo e prontidão para a mudança mostra a oportunidade que essa atividade oferece às pessoas de compartilhar e melhorar com isso.”

Sensibilidade trabalhada

Para Mauro Suzuki, neurocirurgião de cabeça do Hospital Santa Luzia, em Brasília, a pesquisa britânica traz uma opção que parece um auxiliar promissor contra a dor crônica. “A terapia cognitivo-comportamental é um dos pilares para o tratamento dos pacientes, que precisam ser acompanhados por tratamentos não medicamentosos, atividades como fisioterapia, psicanálise, neuropsicologia. O hábito da leitura compartilhada pode ser mais uma dessas atividades que ajudam o paciente a encarar o processo de dor”, ressalta

Para o médico, a prática traz resultados positivos porque interfere em diversos sensores do organismo. “Ela ativa vias como a audição, a visão e até o tato, usado para folhear as folhas do livro. Essa ideia de estimular as vias de sensibilidade também ajuda o corpo a não sentir dor, além da possibilidade de discutir o que você acabou de ler, o que ajuda na comunicação e na expressão das emoções”, explica.

Josie Billington também acredita na complementariedade das práticas. “O encorajamento de maior confrontação e tolerância da dificuldade emocional que a leitura compartilhada fornece a torna um acompanhamento de longo prazo ou um complemento à terapia cognitivo-comportamental extremamente valioso”, defende. Ela e os colegas pretendem dar continuidade ao trabalho, se aprofundando nos efeitos da leitura.  “Queremos considerar até que ponto a leitura compartilhada pode afetar o cérebro de pacientes com dor crônica. Queremos saber como o córtex pré-frontal (associado à identidade, à consciência emocional e ao processamento) se comporta nessas pessoas. Gostaríamos de examinar também (o que acontece) antes e depois de sessões de leitura individuais e a exposição à leitura compartilhada por um período prolongado, de três a seis a seis meses”, adianta autora do estudo.

Para Mauro Suzuki, o estudo inglês traz uma mensagem importante ao ressaltar o quanto a leitura pode trazer benefícios à saúde.  “A mensagem principal é que a leitura tem um efeito analgésico, relacionado à qualidade do sono e à prevenção de doenças. Essa é uma prática que pode ajudar diversos tratamentos, não só a dor crônica, mas também enfermidades como a depressão”, ressalta o médico.

Quando os pacientes estão na terapia cognitivo-comportamental, eles são pessoas com dor. Quando estão no grupo de leitura, são pessoas com vida”

Josie Billington, pesquisadorada Universidade de Liverpool e uma das autoras do estudo


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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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