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PANDEMIA

Covid-19: ''O que vai acontecer é um massacre'', diz ex-diretor do Ministério da Saúde

Publicado em: 01/06/2020 14:28

 ( Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
O debate sobre a flexibilização do isolamento social em virtude da pandemia do novo coronavírus começa a ganhar corpo no Brasil. Estado mais afetado no país, São Paulo divulgou, na semana passada, um plano para dar início ao desconfinamento. O Amazonas segue caminho semelhante, mas, no interior, os rumos serão decididos individualmente pelos prefeitos. Especialistas, no entanto, alertam: as medidas que tornam a quarentena menos rígida devem ser tomadas coletivamente, considerando as necessidades de cada região.

O sistema de saúde de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, está no limite. Na última quinta-feira, um dia após o governador João Doria (PSDB) anunciar a flexibilização da quarentena no estado, 100% das unidades de terapia intensiva (UTIs) da cidade estavam ocupadas. Ao divulgar o plano, composto por cinco fases, o governo paulista estabeleceu uma série de indicadores para o flexibilização gradual. A capacidade ociosa de leitos é um deles. No dado mais recente sobre a capacidade de leitos em Guarulhos, divulgado no sábado (30), a taxa de ocupação das UTIs diminuiu, chegando a 84,9%.

"O que vai acontecer é um massacre. Quem está morrendo? Pretos e pobres"
Júlio Croda, ex-diretor do Ministério da Saúde.

As cidades que circundam a capital foram divididas em cinco subáreas. Elas devem apresentar, juntas, propostas para retomar as atividades. Enquanto isso não ocorre, apenas os serviços essenciais podem funcionar. Para aderir à retomada gradual, que começa nesta segunda em parte do estado, os municípios terão que seguir, também, outros critérios, como o uso obrigatório de máscaras, a continuidade das medidas de distanciamento em áreas públicas e a redução da curva de infectados.

Entrevista/Júlio Croda
Infectologista da Fiocruz e ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde

João Doria anunciou a flexibilização da quarentena em algumas cidades de São Paulo. Para aderir, é preciso ter capacidade ociosa de leitos. Mesmo assim, a decisão do governador pode trazer consequências às cidades que, como Guarulhos, estão com o sistema de saúde no limite?
É bom sempre regionalizar a questão. Precisamos entender como os leitos são regulados para uma determinada região. Quando um paciente de uma cidade que não tem UTI precisa de um leito, ele é encaminhado a uma das vagas disponíveis naquela macrorregião. A decisão de flexibilizar ou restringir o isolamento tem que ser tomada em conjunto, entre todas as cidades de uma macrorregião. Todas serão impactadas por um aumento no número de casos. As cidades não podem ser olhadas individualmente, pois 80% dos nossos municípios têm menos de 20 mil habitantes e a maioria das cidades não têm leitos de UTI. Por isso, o olhar precisa ser regionalizado.

Como convencer os brasileiros sobre a necessidade das medidas restritivas mesmo em meio às flexibilizações anunciadas em algumas partes do país?
Acho muito difícil. Já estávamos em situação difícil, com o governo federal sem apoiar o isolamento. O Ministério da Saúde não publicou materiais técnicos, com indicadores precisos, que apontem as regiões de saúde que precisam de mais restrições ou que podem iniciar a flexibilização. Alguns estados, como Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo, fizeram isso de modo independente. Sem o apoio da presidência e com estados e municípios pressionados pela iniciativa privada para reabrir mesmo sem leitos, o que vai acontecer é um massacre. Quem está morrendo? Pretos e pobres, que moram em comunidades carentes, onde o vírus circula mais intensamente, já que a população de baixa renda não consegue cumprir o distanciamento social. Nas classes altas, o vírus circula menos e há mais leitos no setor privado. Em compensação, nas classes pobres, há mais circulação e faltam leitos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. A decisão é do gestor local, mas do ponto de vista técnico, o Ministério da Saúde tem que fornecer as ferramentas para as tomadas de decisão.

Por que o senhor resolveu deixar o Ministério da Saúde?
Queria deixar o Ministério da Saúde desde o ano passado, mas fiquei por conta da COVID-19. Iria ficar até o fim da pandemia, pois, como sempre disse o ex-ministro (Luiz Henrique) Mandetta, não podemos abandonar o paciente. Mas, por conta das discussões sobre o (fim) do distanciamento social, não queria ser responsável pelo tanto de óbitos que já tivemos. Nesse ritmo, vamos ter 80 mil óbitos. Com a flexibilização, vamos ter uma aceleração, com recordes atrás de recordes de casos e mortes. Vamos flexibilizar sem ter condições. Saí, em 24 de março, onde houve ruptura entre as recomendações do ministério e os pensamentos do presidente sobre o tema. Tanto que, cerca de 20 dias depois, Mandetta saiu. Enquanto ele defendia o isolamento social, o presidente era contra.

Interiorização do caos
Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), ligado à Fiocruz, aponta que, de 9 a 16 de maio, nos municípios com população entre 20 mil e 50 mil habitantes, a cada dia, seis cidades registraram, pela primeira vez, óbitos em decorrência da doença. Na mesma semana, entre cidades ainda menores – com população entre 10 mil e 20 mil –, a cada 24 horas, cinco municípios passaram a constar na lista de localidades com baixas causadas pelo coronavírus.

A interiorização da doença pode trazer consequências aos hospitais instalados nas grandes metrópoles. “A doença chegou primeiro às capitais. O coronavírus tem uma evolução clínica lenta, com o paciente, muitas vezes, ficando vários dias na UTI. Então, quando chega às cidades menores, a tendência é que as pessoas busquem atendimento nas capitais, onde as UTIs vão estar lotadas”, pontua Diego Xavier, epidemiologista e pesquisador do Icict.

No Amazonas e no Pará, por exemplo, mais de 20% da população mora em áreas com poucos recursos médicos. Se, no início da pandemia em solo amazonense, Manaus concentrava grande parte dos casos, o panorama agora é outro. “Norte e Nordeste têm sofrido mais com a doença pois, historicamente, o sistema de saúde nessas regiões é deficitário. Então, qualquer oscilação para mais ou para menos no serviço faz chegar ao limite extremo. Por isso, lá colapsou primeiro. No Sul e no Sudeste há contingente populacional muito maior. Logo, mesmo tendo mais dinheiro para investimentos, quando a demanda de outros municípios começar a chegar, teremos essa situação (esgotamento do sistema)”, acrescenta o epidemiologista.

Mudanças na contagem
Além de São Paulo, outro estado brasileiro ultrapassou a China, epicentro inicial da pandemia, em números de infectados pela Covid-19: o Rio de Janeiro. A mais recente atualização da doença em terras fluminenses aponta 53.388 doentes e 5.344 mortos.

Mesmo ante o cenário, a última semana foi cercada de polêmicas: na capital, o boletim da última terça-feira contabilizava 1.177 mortes a menos que o levantamento do dia anterior. Isso porque a cidade comandada por Marcelo Crivella (Republicanos) passou a contabilizar, apenas, os sepultamentos cujos atestados de óbito deixam claro que o coronavírus foi a causa da morte.

Retomada no Nordeste
Com 46.506 infectados – além de 2.956 óbitos –, o Ceará também anunciou um plano de retomada. Nesta segunda-feira, indústrias voltam a operar. A expectativa é liberar, gradualmente, o funcionamento do comércio em duas semanas.

Outro estado fortemente afetado pela Covid-19, com 37.296 caos e 2.900 mortes, o Pará pôs fim ao lockdown e começou, na semana passada, uma flexibilização “degrau a degrau”, nas palavras do governador Helder Barbalho (MDB). A partir de amanhã, por exemplo, shoppings, igrejas e salões de beleza – cumprindo critérios sanitários – já podem reabrir em Belém e outras regiões paraenses. 
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