FAB Brasileiros começam a ser treinados na montagem de caça sueco

Por: Leonardo Cavalcanti -

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 15/09/2019 08:12 Atualizado em:

A aeronave é uma das mais avançadas no mercado mundial: composta por 17 mil partes delicadas e integrada por 35km de cabos
Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press)
A aeronave é uma das mais avançadas no mercado mundial: composta por 17 mil partes delicadas e integrada por 35km de cabos Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press)

Linköping (Suécia) — Quem um dia tentou montar um brinquedo a partir de peças de plástico e ferro até pode se sentir confortável no galpão de fabricação de um avião de combate. A comparação é inevitável, mas tudo aqui é mais complexo, a partir de escalas inimagináveis para um leigo em engenharia e aviação. A máquina que ganha forma dentro das estruturas da empresa Saab, localizada a 200km de Estocolmo, é uma das mais avançadas no mercado mundial da guerra, uma aeronave que atinge uma velocidade máxima de 2.200km/h (duas vezes a velocidade do som). Para o caça Gripen — encomendado pelo governo brasileiro — se materializar, é necessário encaixar mais de 17 mil partes delicadas e distribuir 35km de cabos na estrutura. Em meio a computadores, quadros, furadeiras e todo tipo de materiais necessários para colocar no ar um veículo de 6,6 toneladas, há brasileiros sendo treinados e trabalhando ao lado de suecos.

Ainda em 2014, nos estertores do primeiro mandato do governo Dilma Rousseff, a Força Aérea Brasileira (FAB) anunciou a vencedora de uma concorrência de US$ 5,4 bilhões (cerca de R$ 17 bilhões) para a renovação da frota de aviões de combate para o Brasil. A novela, que se arrasta desde 2001, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, deu um passo importante na semana passada. A cúpula militar brasileira esteve na cidade de Linköping para acompanhar o início dos testes de voo da aeronave, construída numa parceria para desenvolvimento de tecnologia entre suecos e brasileiros. A via-crúcis aérea do Brasil em busca de um caça moderno, entretanto, enfrenta um dos mais desafiadores momentos, desde a disputa entre a Saab, a Boieng (EUA) e a Dassault (França): a falta de recursos para os repasses de dinheiro para os suecos, que garantem desde já a continuidade do programa.

Luzieide Silva trabalha na montagem dos esqueletos das asas
Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press
Luzieide Silva trabalha na montagem dos esqueletos das asas Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press

Conforme mostrou o Correio na última quarta-feira, os recursos reservados para a compra e o desenvolvimento do Gripen subiram entre 2018 (R$ 1.050.133.500) e 2019 (R$ 1.357.511.151), mas caíram drasticamente na previsão para 2020 (R$ 643.340.000). Isso sem contar o que pode vir a ser contingenciado ainda neste e no próximo ano. De uma forma geral, houve uma queda de 42% nos programas da pasta da Defesa. O ministro Fernando Azevedo e Silva disse, ainda na quarta-feira, que, a pedido do presidente Jair Bolsonaro, a equipe econômica está revendo a previsão orçamentária para 2020. “São projetos que já estão iniciados, assim, tenho uma expectativa positiva para o próximo ano, para que não tenha uma defasagem.”

Treinamento

O engenheiro de produção Henrique Pinto, 33 anos, está há quatro meses em Linköping, uma cidade simpática e que, em parte, se movimenta em razão da fabricação do Gripen. Contratado por uma empresa subsidiária à Saab no Brasil para a montagem das peças da fuselagem do caça, ele é um dos 350 brasileiros que, em algum momento, participarão do treinamento para a transferência de tecnologia, um dos principais pontos para a escolha dos suecos na disputa com norte-americanos e franceses. Selecionado para o treinamento, Henrique chegou à Suécia com a mulher. Em todos os passos, ele é acompanhado por um instrutor. Nos próximos cinco anos, assumirá a função do mentor na montagem, em São Bernardo do Campo (SP), de parte dos 36 modelos encomendados pelo Brasil.
 
Mudança de hábito

Responsável por trabalhar na montagem dos esqueletos das asas do Gripen, Luzieide Silva, 37 anos, está há cinco meses em Linköping e vai continuar o treinamento por mais dois anos. Natural de Jacareí, um município do Vale do Paraíba, em São Paulo, ela trabalhou na Embraer e se especializa na montagem do quebra-cabeças nos galpões da Saab. Nas horas vagas, tanto Luzieide quanto Henrique, bem como todos os brasileiros que hoje trabalham em uma das etapas da construção do avião, se encontram com suecos selecionados antecipadamente pela Saab para servirem de buddy, espécie de amigo com perfis parecidos, como idade, estado civil e hobby. A presença dos brasileiros tem mudado aos poucos alguns costumes na cidade, como o corte das carnes: alguns estabelecimentos começaram a vender picanha.

O engenheiro de produção Henrique Pinto está há quatro meses em Linköping
(Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press)
O engenheiro de produção Henrique Pinto está há quatro meses em Linköping (Foto: Leo Cavalcanti/CB/D.A Press)

Eventuais cortes dos repasses do governo à Saab não preocupam a empresa sueca. “Entendemos, mas não estamos preocupados”, disse, na última quarta-feira, o chefe do setor aeronáutico da empresa sueca. A partir dos cortes, é natural uma renegociação do contrato, incluindo aí a própria reavaliação dos prazos de entrega. O atual cronograma prevê que, no próximo ano, se inicie a produção de 15 aeronaves no Brasil; no ano seguinte, a entrega do primeiro lote da série da Força Aérea Brasileira (FAB). 


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