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Polícia prende 8 traficantes do 'Bonde de Jesus', que atacava terreiros no Rio

Por: FolhaPress

Publicado em: 14/08/2019 17:05

 Foto: Reprodução/PCERJ
Era por Bonde de Jesus que atendiam traficantes evangélicos que atuavam na comunidade Parque Paulista, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). A ficha corrida deles envolve também ataques a terreiros de candomblé da região, segundo a Polícia Civil. 
 
Agentes da 62ª Delegacia de Polícia realizaram na manhã desta quarta-feira (14) uma operação para desarticular a quadrilha. As autoridades identificaram 21 traficantes que teriam relação com o terrorismo religioso. Seis foram presos e um morto na quarta. Outros dois foram detidos na terça (13).
 
Segundo Túlio Pelosi, delegado titular da 62ª, Álvaro Malaquias Santa Rosa, chefe do tráfico e membro do TCP (Terceiro Comando Puro), é também pastor. Teriam vindo dele as ordens para depredar espaços de culto candomblecistas. 
 
Um dos ataques ocorreu em 11 de julho, contra um terreiro no Parque Paulista. A sacerdotisa da casa, uma octogenária, ficou sob mira de uma arma. O espaço, há mais de 50 anos na área, teve objetos tidos como sagrados pelos frequentadores espatifados no chão.
 
Só em sua circunscrição foram neste ano ao menos dois atentados motivados por intolerância religiosa, diz Pelosi. Conhecido como Peixão, o traficante Santa Rosa estaria escondido em outra comunidade no Rio, a Parada de Lucas/Vigário Geral.
 
"Abrimos outra investigação para analisarmos a atuação de um pastor como o 'porta-voz' do Peixão nestes crimes", afirma o delegado à Folha. 
 
Ainda segundo Pelosi, os traficantes frequentam a Assembleia de Deus Ministério de Portas Abertas do Sarapuí, igreja em Duque de Caxias que em redes sociais anuncia cultos como "Conhecendo o Deus da Provisão". A reportagem tentou entrar em contato com a congregação religiosa e também com advogados dos suspeitos, mas não conseguiu. 
 
"Em todas as comunidades dominadas por essa facção, os traficantes impedem, quebram, ameaçam e expulsam frequentadores e donos de terreiros de religiões afrodescendentes", diz o delegado. "Se autoproclamam 'Bonde de Jesus'."
 
Boa parte dos evangélicos acredita que seguidores de crenças afrobrasileiras cultuam "falsos deuses" e acham que entidades da umbanda ou do candomblé, por exemplo, são manifestações demoníacas.
 
Essa visão é alimentada por vários líderes, entre eles o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, que nos anos 1990 lançou "Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?". O best-seller foi reeditado neste ano.
 
Após o ataque de julho, o babalaô Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, reclamou da "inércia das autoridades" e disse que o governador Wilson Witzel não abria espaço na agenda para discutir os atentados contra religiões de matiz africana.
Nesta quarta, Witzel parabenizou a Polícia Civil "pela extensa investigação que identificou e está prendendo traficantes apontados como os autores de crimes de intolerância religiosa".
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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