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Beto Lago: 'O futebol brasileiro e seu modelo do estamento burocrático'

A CBF é sustentada por um sistema político formado, em grande parte, pelos presidentes das federações estaduais

Por Beto Lago

Samir Xaud foi eleito para comandar a CBF até 2029

Renovação ampla
Uma mudança no futebol brasileiro não se dará apenas com a renovação de atletas na Seleção Brasileira. Precisa começar na estrutura de poder. A CBF e as federações estaduais reproduzem, em muitos aspectos, o modelo do estamento burocrático descrito por Raymundo Faoro, no livro Os Donos do Poder e bem lembrado pelo amigo Emanuel Fragoso: uma elite dirigente que se perpetua no comando, distribui poder entre os seus e se mantém distante dos interesses da maioria.

Quando Samir Xaud assumiu a presidência da CBF, se enxergou um sopro de renovação. O discurso era de modernização e de ruptura com práticas que há décadas desgastam a entidade. No entanto, as recentes denúncias envolvendo o presidente reforçam a percepção de que o problema pode ser muito mais profundo do que o ocupante da cadeira principal. O maior perigo é acreditar que basta substituir o presidente para que tudo mude.

A CBF é sustentada por um sistema político formado, em grande parte, pelos presidentes das federações estaduais. Muitos há décadas no poder, comandam feudos eleitorais e carregam aa responsabilidade pelo atraso administrativo, pela falta de transparência e pelo modelo que privilegia interesses políticos em detrimento do desenvolvimento do futebol. Se Samir deixar a presidência, a oportunidade deveria representar o início de uma renovação ampla, capaz de alcançar as federações.

O problema é que os nomes que surgem só reforçam a tese. Afinal, são essas federações que sustentam o modelo de poder da CBF e impedem que o futebol brasileiro rompa com uma estrutura envelhecida e resistente a mudanças. Enquanto apenas os personagens forem substituídos, o roteiro será exatamente o mesmo.

Um fracasso construído em quatro anos
E tem mais erros da CBF. A derrota para a Noruega, causando a eliminação na Copa do Mundo, expôs que os problemas da Seleção Brasileira estavam longe de se limitar aos 90 minutos de jogo. O fracasso foi construído ao longo de um ciclo marcado por indefinições, planejamento insuficiente, decisões contestáveis e pouca capacidade da entidade de criar um ambiente esportivo sólido para uma equipe que segue em busca do protagonismo mundial.

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O desastre oficializado
Dos treinadores improvisados, de uma festa no anúncio dos 26 nomes (um evento midiático e marketeiro), passando pela convocação de um Neymar sem condições e chegando nos erros de Ancelotti na Copa. Tudo foi um desastre nestes quatro anos. A expectativa criada contrastou com o desempenho dentro de campo e aumentou o impacto da eliminação. A CBF tem outros quatro anos para corrigir o rumo ou teremos uma Copa de 2030 ainda mais fracassada.

A liga da insegurança
A promessa de modernizar o futebol brasileiro e fortalecer os clubes deu lugar a um cenário de crescente insegurança jurídica. A Liga Forte União acumula problemas que vão de investigações do Cade por possível prática anticoncorrencial a disputas com investidores, ações judiciais movidas por clubes e uma onda de insatisfação entre integrantes da Série B, que denunciam desvalorização e falhas na gestão das receitas. Em vez de transmitir confiança ao mercado, a Liga vive um momento de instabilidade que coloca em dúvida a governança do projeto: antes de vender um novo modelo, é preciso garantir segurança, transparência e credibilidade.