Mudar é preciso
Goleada sobre o Panamá expõe vulnerabilidades no 4-2-4 de Ancelotti. A história das Copas mostra que a flexibilidade tática é o verdadeiro caminho para o hexa.
Finalmente, o despertador tocou. E demorou. Eram quase 21h de domingo (31), quando boa parte da torcida e da imprensa brasileira, até então adormecida pela "Questão Neymar Jr.", se deu conta. Está faltando alguma coisa na seleção que embarca nesta segunda (1º) para tentar o hexa nos Estados Unidos, México e Canadá.
E o despertador só tocou depois do jogo amistoso contra o Panamá, num Maracanã lotado. Um estádio repleto de um verde e amarelo, colorido por um público "gourmet", que estava mais interessado em fazer festa do que em entender o que tinha acabado de acontecer.
Para esse torcedor que "vai no embalo" do clima do Mundial, o 6 a 2 sobre a precária seleção da América Central foi "reluzente". Muito gol, música, alegria e um otimismo que não cabia no velho Maraca. Basta, no entanto, tentar entender um pouquinho o jogo que a coisa muda de figura.
Talvez, essa palavra "mudança" seja a "bala de prata" ou a chave-mestra dessa equação chamada Seleção Brasileira.
Tirando o furor da convocação de Neymar Jr., o cara da camisa 10 que não pode jogar, o time do italiano Carlo Ancelotti tem mais perguntas do que respostas.
Desde que chegou para encerrar o caótico ciclo, iniciado após a derrota em 2022, no Catar, Carletto disse que usaria um sistema baseado num 4-2-4. Para muitos, são apenas números.
Para quem gosta do tema, isso significa ter quatro defensores, quatro atacantes e dois no meio-campo. Mas só dois? E num campo daquele tamanho? E justamente no espaço em que as coisas costumam acontecer?
Ancelotti disse e fez. Foi colocado o tal do 4-2-4. Independentemente de nomes e da situação real técnica e física de atletas, o esquema seria esse. E pronto.
Brasil x Panamá mostrou que nem sempre é possível formular uma teoria, seguir com ela e obter êxito. Ainda mais em Copa do Mundo.
E o Brasil deveria ter sempre isso na cabeça. Caso seja necessário, mudar é a melhor, ou única, saída.
Um dia, o ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy (não é o jogador do Fluminense) disse que "a mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro".
E até parece que o nosso Carletto andou ouvindo vozes. Depois do jogo, o treinador admitiu, enfim, que pode mudar.
"Sim, passa pela minha cabeça mudar. Mudar a estratégia. Acho que o segundo tempo me põe dúvida. É importante ter dúvida", declarou.
Seria muito importante sair da retórica e ir para a prática. Fazer o que outros times vencedores fizeram. Mudar para melhorar.
Em 1958, na Suécia, "Seu Feola" ouviu vozes. Não do além, mas dos líderes do "escrete". Nilton Santos, a "Enciclopédia", e Didi, o "Príncipe Etíope", exigiram e conseguiram a titularidade de Mané Garrincha, Zito e do garoto Edson Arantes do Nascimento, um tal de Pelé. Deu no que deu: a Taça do Mundo era nossa, pela primeira vez.
Em 1970, no México, a preparação começou com o jornalista e polêmico João Saldanha e suas "feras". Em meio ao governo de Garrastazu Médici e o AI-5, os "90 milhões em ação" realmente foram "para frente, Brasil", mas o "Tri" teve as digitais de Mário Jorge Lobo Zagallo.
Campeão como jogador em 58 e 62, ele virou técnico da "Canarinho" e finalizou a montagem do que ficou conhecido como o "melhor time de todas as Copas". Mexeu na zaga, transformando o volante Piazza em zagueiro, e no meio, com a entrada de Rivellino, que passou a fazer uma função tática, garantindo ao Rei Pelé e ao gênio Tostão o direito de jogar muita bola.
Vinte e quatro anos depois, Carlos Alberto Parreira, integrante da comissão técnica em 70, até que insistiu. Manteve Raí como capitão e titular absoluto. Esse plano durou dois jogos, nos Estados Unidos. Mazinho, que tinha sido lateral-esquerdo no Vasco, virou meia e formou um quarteto de "quartel" com Mauro Silva, Zinho e Dunga, o novo capitão. Resultado: Bebeto e Romário viraram sinônimos do "Tetra".
Na última conquista, em 2002, no Japão e Coreia, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, mexeu na "sua família" e "endireitou" o time titular. Sacou Juninho Paulista e "inventou" o garoto Kléberson para proteger o meio, soltando o supertrio formado por Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.
Quem sabe, Carletto não pega a enciclopédia Barsa e se inspira. O 4-2-4 dele é, de fato, vulnerável. Que o diga o Panamá, no Maracanã. Danilo, que estava no Botafogo, pediu a vaga. Paquetá é uma aposta (sem trocadilhos) para ajustar o setor.
E quem sai? Qualquer um. Desde que o meio seja mais "povoado" e o time não tenha que ficar "caçando" os atacantes adversários.
Carletto ainda tem tempo. Só não pode dar uma de Tite e "morrer" abraçado com conceitos e "panelinhas". Que o diga Gabriel Jesus em duas Copas e zero gol.
Que soprem os ventos da mudança.