Beto Lago: 'A invasão estrangeira na Premier League'
A experiência inglesa mostra que os benefícios econômicos podem ser enormes
Liga menos inglesa
A Premier League, a liga nacional mais rica e globalizada do planeta, vive uma realidade que chama atenção: dos 20 clubes que disputarão a temporada 2026/27, apenas quatro permanecem sob controle totalmente britânico. O restante está nas mãos de investidores estrangeiros, que controlam ou possuem participação majoritária em 11 equipes. O fenômeno não é exatamente novo.
A internacionalização da propriedade dos clubes ingleses atingiu um patamar sem precedentes nas últimas duas décadas. Gigantes como Arsenal, Liverpool, Chelsea e Manchester United possuem forte influência do capital norte-americano. Já Manchester City e Newcastle representam outro movimento que ganhou espaço no futebol mundial: a entrada de fundos soberanos do Oriente Médio.
Os defensores desse modelo argumentam que os investimentos transformaram a Premier League em uma potência econômica e esportiva. Estádios modernos, maior capacidade de gerar receitas, expansão global das marcas e contratação dos principais jogadores do mundo são apontados como benefícios diretos da chegada dos novos proprietários.
Por outro lado, parte dos torcedores ingleses reclama da perda de identidade dos clubes, cada vez mais tratados como ativos financeiros globais. Há ainda questionamentos sobre modelos de multipropriedade ou quando o esporte é utilizado para melhorar a imagem internacional de governos e investidores. A preocupação chegou a tal ponto que o Reino Unido criou regulador independente, buscando ampliar a fiscalização sobre proprietários e garantir maior proteção à história e aos interesses dos torcedores.
A experiência inglesa mostra que os benefícios econômicos podem ser enormes. Mas deixa claro que, quando o futebol se torna um negócio global, preservar a alma dos clubes passa a ser um desafio tão importante quanto vencer dentro de campo.
O debate encontra eco no Brasil. Com a expansão das SAFs, clubes brasileiros passaram a receber investimentos estrangeiros e a conviver com dilemas semelhantes. A questão central permanece a mesma dos dois lados do Atlântico: até que ponto o dinheiro pode impulsionar o futebol sem comprometer a identidade construída por gerações de torcedores?
Siga o canal do Esportes DP no Whatsapp e receba todas notícias do seu time na palma da mão
Dois pesos, duas medidas?
Acreditar no trabalho de Carlo Ancelotti não elimina o fato de que ele errou na estreia da Seleção Brasileira. Algumas escolhas do treinador italiano foram questionáveis, e o desempenho ficou abaixo do esperado. O que chama atenção, porém, é outro debate: se fosse um técnico brasileiro no comando, a repercussão seria a mesma? Respeito demais a trajetória de Ancelotti, mas isso não pode servir como blindagem para decisões equivocadas.
Entre a crítica e a torcida
Esse é o papel do jornalista: analisar fatos, jogos e momentos com equilíbrio. Nem a crítica destrutiva, nem o ufanismo de ocasião. Em tempos de opiniões extremadas e julgamentos apressados, atravessar essa linha tênue entre razão e paixão segue sendo um dos maiores desafios e, também, a principal missão do bom jornalismo.