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De avós a netos: o amor por Sport, Náutico e Santa Cruz que atravessa gerações

A paixão pelo futebol passa a se tornar uma herança construída dentro de casa, nas arquibancadas e nas lembranças que permanecem vivas ao longo dos anos

Por Ivan Mota

Gerações de torcedores de Náutico, Santa Cruz e Sport

O futebol tem a capacidade de criar histórias que ultrapassam as quatro linhas. Em Pernambuco, onde Sport, Náutico e Santa Cruz mobilizam multidões, a paixão por um clube muitas vezes começa antes mesmo de uma criança entender o que acontece dentro de campo.

Ela nasce em casa, nas conversas de família, nas transmissões pelo rádio, nas camisas presenteadas e, principalmente, nas primeiras idas ao estádio.

Para algumas famílias, torcer não é apenas uma escolha individual. É uma herança afetiva, transmitida de pais para filhos e de avós para netos. Um sentimento que atravessa décadas, acompanha diferentes fases dos clubes e permanece vivo mesmo diante das mudanças na vida de cada geração.

Nas páginas de seus 201 anos de história, o Diario de Pernambuco também acompanhou muitos desses capítulos do futebol pernambucano.

Agora, ao completar mais um aniversário, o jornal conta três histórias que mostram como Sport, Náutico e Santa Cruz continuam presentes na vida de famílias que compartilham muito mais do que a preferência por uma camisa.

Náutico: uma paixão que vem de berço

Na família Neuenschwander, a relação com o Náutico atravessa gerações. Para Otto, de 28 anos, o vínculo com o Timbu começou praticamente junto com suas primeiras lembranças da infância. Filho de Frederico, de 59, e neto de Maria Lusinete, de 83, ele cresceu em um ambiente no qual o amor pelo clube fazia parte do cotidiano.

A primeira lembrança de Otto relacionada ao Náutico remonta a aproximadamente 2002, quando acompanhou uma competição de remo, modalidade diretamente ligada à história alvirrubra. No futebol, entretanto, uma partida ficou especialmente marcada: a vitória sobre o Ituano, em 2006, que garantiu o acesso do Timbu à Série A do Campeonato Brasileiro.

“Vem de berço essa relação com o Náutico. Desde que eu me entendo por gente, eu me entendo como torcedor do Náutico”, disse.

O pai, Frederico, também recebeu a paixão alvirrubra dentro de casa. Sua primeira lembrança como torcedor remonta à infância, quando acompanhava o pai e um tio aos jogos do Náutico, no começo dos anos 1970.

Entre os momentos mais marcantes de sua trajetória, destaca o Campeonato Pernambucano de 2001. Naquele ano do centenário alvirrubro, o Timbu conquistou o título estadual diante do Santa Cruz e impediu que o rival Sport alcançasse o hexacampeonato, feito que ficou marcado na rivalidade entre os clubes.

A comemoração, inclusive, ganhou proporções familiares. Maria Lusinete recorda que a família alugou um trio elétrico e percorreu toda a Avenida Boa Viagem para celebrar o centenário do clube.

A relação dela com o Náutico, curiosamente, começou por influência do pai de seus filhos, quando ela tinha 17 anos. O entusiasmo dele a cada partida e a importância que dava às conquistas alvirrubras despertaram nela a mesma paixão.

Aos 83 anos, ela também guarda outra lembrança especial: a primeira vez em que foi a um estádio, justamente para acompanhar uma partida do Náutico na inauguração da Arena de Pernambuco, contra o Sporting, de Portugal, em 2013.

"Para mim, é um orgulho transmitir esse amor e ver toda a família continuar torcendo pelo Náutico. O clube representa amor, orgulho e vontade de sempre estar junto", afirmou.

Otto também reconhece a importância desse apoio familiar. Além dos pais, teve o incentivo dos avós maternos e paternos para frequentar os estádios desde pequeno. Hoje, já adulto, procura reproduzir com outras pessoas aquilo que recebeu dentro de casa.

Um dos momentos mais especiais de sua trajetória como torcedor foi o título pernambucano de 2018, conquistado diante do Central. Após 13 anos sem levantar uma taça, o Náutico voltou a ser campeão em uma decisão que reuniu mais de 40 mil alvirrubros na Arena de Pernambuco.

"Foi um dos grandes momentos que pude vivenciar como torcedor. Poder ver aquela torcida toda e o título, depois de tantos anos, foi muito marcante", recordou.

Sport: uma herança que se transforma em DNA rubro-negro

Entre os rubro-negros Luiz Geraldo, Antônio Carlos e Bruno Henrique, a paixão pelo Sport também se manifesta como um patrimônio familiar.

Aos 90 anos, Luiz Geraldo Alves da Silva carrega uma relação com o clube que começou ainda na adolescência. Natural de Vitória de Santo Antão, ele já nutria um amor profundo pelo Leão quando decidiu conhecer pessoalmente a Ilha do Retiro.

Em 15 de maio de 1953, aos 16 anos, pediu à mãe que o levasse até a sede do clube para se associar. Desde então, mantém uma ligação que já ultrapassa sete décadas. Sócio do Sport desde aquele dia, guarda na memória a sensação de pisar pela primeira vez no estádio.

"Ali foi o primeiro namoro. Eu estava pisando no cimento do Sport, sentindo o perfume do gramado e o cheiro da arquibancada", relembrou.

Entre tantas lembranças, uma conquista ocupa lugar especial: o Campeonato Pernambucano de 1955. Na ocasião, o Sport venceu o Náutico por 3 a 2, com três gols de Traçaia, maior artilheiro da história do clube.

Luiz Geraldo ainda consegue recitar a escalação daquela equipe, que considera a melhor que viu jogar pelo Leão. Uma memória que preserva com o mesmo carinho dedicado à própria história familiar.

Para ele, transmitir a paixão pelo Sport aos filhos e netos foi um dos maiores legados que poderia deixar.

"Isso é um DNA. O sangue rubro-negro que corre nas minhas veias, transferi para meus filhos e meus netos. Esse foi o maior patrimônio que deixei para minha família", afirmou Seu Geraldo, que também revelou suas três maiores paixões da vida.

“Eu tenho três amores na minha vida, que vou levar para o túmulo: o estado de Pernambuco, a minha família e o Sport Club do Recife. Quando o Sport ganha, eu durmo feliz e contente. Quando o Sport perde, eu sinto dificuldade para dormir. É impressionante o amor que eu tenho pelo Sport”, disse, emocionado.

A influência chegou à geração de Antônio Carlos Muhlert, de 51 anos. Desde o início da década de 1980, ele frequentava a Ilha do Retiro e chegou a ser mascote do Sport em diversas partidas, entrando em campo com os jogadores.

Entre as lembranças daquela época, uma conquista se destaca: o Campeonato Brasileiro de 1987. Presente em praticamente toda a campanha, Antônio Carlos acompanhou de perto uma das páginas mais importantes da história rubro-negra.

"Certamente, é o título do Brasileiro de 1987. Por todo o contexto e pela luta que foi. Eu estava muito presente naquele ano, participando de todos os jogos", recordou.

A experiência vivida ao lado do pai foi determinante para que Antônio Carlos também quisesse construir as mesmas lembranças com os três filhos. Para ele, frequentar o estádio em família representa algo que vai muito além do resultado.

"Estar no campo de futebol com o filho é emocionante para os dois lados. Para o filho, fica aquela memória afetiva, daqueles jogos na infância. Para o pai, fica a satisfação de transmitir um grande amor, uma grande paixão, que é o futebol e o Sport", destacou.

Bruno Henrique, de 29 anos, é um dos frutos dessa transmissão. Desde os três anos, acompanhava o pai na Ilha do Retiro e também teve a oportunidade de entrar em campo como mascote.

Sua geração viveu um dos momentos mais importantes da história recente do Sport: a conquista da Copa do Brasil de 2008. Entre as lembranças, destaca a goleada por 4 a 1 sobre o Palmeiras, na Ilha do Retiro, e a decisão contra o Corinthians, embora não tenha conseguido acompanhar presencialmente a final.

Para Bruno, a paixão foi construída nas pequenas tradições familiares: a preparação para os jogos de domingo, a expectativa desde o sábado e as idas à Ilha do Retiro.

"Desde criança, meu pai já me levava para o estádio. A paixão do meu avô de ir para a Ilha do Retiro, tudo isso, as pequenas coisas, foram transmitidas diariamente no cotidiano. Aquele sentimento de ir a campo no domingo. No sábado para o domingo já tinha essa expectativa. Já nasceu dentro de mim", contou.

Santa Cruz: uma paixão que mantém a família unida

Na família Cavalcanti, a ligação com o Santa Cruz começou muito antes de as gerações mais novas nascerem. Nilson Cavalcanti, de 67 anos, recebeu a influência do pai, que já era tricolor e acompanhava os jogos pelo rádio.

Naquela época, ainda no início da década de 1960, as transmissões televisivas não faziam parte da rotina dos torcedores como acontece atualmente. Acompanhando o pai, Nilson cresceu ouvindo as partidas do Santa Cruz.

Uma das lembranças mais marcantes de Nilson aconteceu em 2005, quando o Santa Cruz conquistou o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. Na última rodada do quadrangular decisivo da Série B, o Tricolor venceu a Portuguesa no Arruda, diante de um estádio superlotado, e confirmou o retorno à elite nacional.

A conquista, entretanto, não veio acompanhada do título. O Grêmio venceu o Náutico na histórica Batalha dos Aflitos e terminou a competição na primeira colocação.

O sentimento de acompanhar aquela campanha permanece vivo na memória do bancário aposentado, que reconhece na empolgação transmitida pelo pai o principal motivo para que a paixão continuasse dentro de casa.

A filha Danielly, de 49 anos, também construiu sua relação com o Santa Cruz a partir dessa influência familiar. Embora tenha decidido definitivamente pelo Tricolor em 1995, quando se mudou do interior para estudar no Recife, ela já convivia com o clube por causa do pai e dos tios.

Naquele ano, o Santa Cruz conquistou o Campeonato Pernambucano, reforçando a identificação que ela começava a construir.

Uma das lembranças mais especiais de Danielly, entretanto, envolve a geração seguinte. Foi quando ela e o pai levaram Natália, hoje com 26 anos, pela primeira vez ao Arruda.

O adversário era justamente o Sete de Setembro de Garanhuns, cidade natal de Danielly. A família transformou a ida ao estádio em um passeio, com direito a piquenique.

"Parecia um parque. Acho que foi aí que a história da minha filha começou com o Santa Cruz", recordou.

Para Natália, a paixão pelo Tricolor é praticamente inseparável de sua própria identidade. Advogada, ela afirma que já nasceu torcedora e que todas as suas lembranças estão relacionadas ao clube.

A primeira ida ao Arruda, justamente naquela partida contra o Sete de Setembro, despertou o encantamento que permanece até hoje.

Entre as experiências mais marcantes, ela destaca o acesso conquistado pelo Santa Cruz em 2026. Presente no estádio, vivenciou o mosaico, os fogos e a festa da torcida em um momento importante de reconstrução do clube.

A partida foi marcada pela tensão desde o início, com o adversário abrindo o placar logo no primeiro minuto. Ainda assim, a comemoração pelo acesso transformou a experiência em uma das maiores lembranças de sua trajetória como torcedora.

"Ser tricolor é isso, a gente sofre e passa por esses perrengues. Mas ter vivido essa festa da torcida nesse momento de reconstrução do clube foi o mais marcante para mim até o momento", afirmou.

Mais do que as conquistas e os resultados, Natália enxerga no Santa Cruz um elo que mantém a família próxima, mesmo com a distância física. Atualmente, os parentes estão espalhados pelo Recife, Garanhuns, Salgueiro, Bahia e até nos Estados Unidos.

Ainda assim, quando o Tricolor entra em campo, todos encontram uma maneira de acompanhar a partida e compartilhar as emoções.

"O Santa Cruz ainda é essa ponte. Ainda é o que une a gente. Mesmo a distância, quando o Santa está jogando, a gente está ligado e comemorando os gols juntos. Isso simboliza essa união e resiliência", destacou.

Uma paixão que atravessou gerações e as páginas do Diario de Pernambuco

As histórias mostram que o futebol também é feito de lembranças compartilhadas. São diferentes gerações, épocas e experiências, mas com um ponto em comum: a vontade de manter viva uma paixão que começou dentro de casa e ganhou as arquibancadas.

Ao longo de seus 201 anos de história, o Diario de Pernambuco também esteve presente em muitos desses capítulos. Das conquistas históricas aos acessos, das grandes decisões às festas nas ruas e nos estádios, o jornal registrou momentos que marcaram a trajetória de Sport, Náutico e Santa Cruz e que permanecem vivos na memória de seus torcedores.

As páginas que acompanharam esses acontecimentos também ajudam a contar as histórias dessas famílias. Enquanto o jornal registrava os feitos dos clubes, pais, filhos, avós e netos construíam suas próprias lembranças, compartilhando alegrias, frustrações e a emoção de torcer.

O tempo passou, os clubes viveram conquistas, dificuldades e transformações, mas o sentimento permaneceu. E o Diario de Pernambuco, testemunha dessas histórias ao longo de mais de dois séculos, segue acompanhando uma paixão que se renova a cada geração.

Afinal, em Pernambuco, torcer por Sport, Náutico ou Santa Cruz pode até ser uma escolha individual. Mas, para essas famílias, é também uma história coletiva, escrita dentro de casa, nas arquibancadas e nas páginas de um jornal que há 201 anos conta a história do estado.