Subir de qualquer jeito pode ser o caminho para cair mais fundo
Imediatismo
No futebol pernambucano, convencionou-se aceitar uma premissa perigosa: a de que o resultado tem o poder mágico de absolver atrocidades administrativas. Sob a pressão de uma torcida apaixonada e de uma imprensa muitas vezes imediatista, subir de divisão virou um imperativo moral. Um passaporte tido como indispensável para a salvação econômica e o resgate do orgulho. Defende-se, com veemência pragmática, que Sport, Náutico e Santa Cruz não podem se dar ao luxo de "esperar a casa arrumar" para buscar o acesso. A tese é sedutora: pular de patamar injeta cotas milionárias de televisão, impulsiona número de sócios, enche os estádios e devolve Pernambuco ao protagonismo do Nordeste e do País. Para os defensores dessa corrente, recusar o pragmático "sobe como der" em nome de uma suposta maturidade de gestão é um preciosismo fora da realidade do mercado. Ocorre que a história recente do nosso futebol é um cemitério de "acessos milagrosos" que terminaram em ruína. Existe uma corrente analítica que enxerga outro lado: conquistar um acesso em meio ao caos político, ao endividamento galopante e à desordem institucional não é solução: é amplificação da tragédia. A mudança de série impõe uma escalada brutal de custos. Exige folhas salariais mais altas, logística mais cara e um nível de profissionalismo que direções amadoras, movidas pelo ego e por disputas de bastidor, não entregam. Quando o clube sobe sem governança, a receita extra trazida pela nova divisão não é usada para amortizar passivos ou estruturar a base. Ela é devorada por contratações afobadas de medalhões e salários fora da realidade. O desfecho dessa conta: rebaixamento melancólico, acompanhado de uma pilha de processos trabalhistas e uma dívida maior do que a que existia antes da "festa do acesso".
Cortina de fumaça
A discussão ganha contornos mais dramáticos na era das SAFs e das Recuperações Judiciais. Transformar o acesso para as Séries A ou B em um fim em si mesmo, ignorando a construção de processos sólidos, é perpetuar o ciclo que quase dizimou o Santa Cruz, engessou o Náutico em crises recorrentes e expôs o Sport a sobressaltos financeiros pesados no sobe e desce.
Um analgésico caro
O sucesso esportivo só se converte em ativo permanente quando encontra uma instituição minimamente estruturada. Fora disso, o acesso é cortina de fumaça. Um analgésico caro que mascara a infecção, atende à vaidade passageira dos dirigentes de turno e cobra um preço devastador das gerações futuras do nosso futebol.
Trio de Ferro na Série B?
Mas vale um detalhe: existe uma grande possibilidade de, em 2027, de ter o Trio de Ferro da Capital na Série B, repetindo a Série B de 2005. O acesso do Santa Cruz está muito próximo. A permanência do Náutico na Segundona também parece mais provável do que ver o Timbu em uma briga pelo acesso ou o rebaixamento. O Sport é a grande incógnita. A chegada de Mariano Soso e dos últimos reforços foi suficiente para colocar o time na briga pelo acesso à Série A? Só as próximas rodadas podem responder.