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Coluna Além da Bola: "Dia de reescrever a escrita"

Não será fácil remar contra os noruegueses, mas é dia do Brasil quebrar o tabu contra europeus

Por Carlos Lopes

Gabriel Martinelli saiu do banco para virar o herói do Brasil contra o Japão.

Os atacante Endrick e Ryan nem sonhavam em nascer. Vinícius Júnior não havia completado dois anos de vida e Matheus Cunha tinha acabado de soprar a terceira velinha de aniversário. 

Faz 24 anos que a Seleção Brasileira venceu uma equipe europeia em jogo eliminatório de copa do mundo. E não estamos falando de uma partida qualquer, muito menos de qualquer adversário. Era uma final, contra a Alemanha, em 2002. O jogo do penta, com dois gols de Ronaldo, em mais uma atuação brilhante de Rivaldo.

Parou aí, infelizmente.

Amargamos eliminações: em 2006, com um show do francês Zinedine Zidane; nos atrapalhos de Felipe Melo diante dos holandeses, em 2010; em um certo atropelo vingativo dos alemães, em 2014, em solo da pátria amada; no apagão do primeiro tempo antes os belgas, em 2018, e nos equívocos táticos e individuais na reta final de uma prorrogação bem aproveitados pelos croatas, em 2022.

Uma escrita a ser reescrita, um tabu a ser quebrado, neste domingo. Não será fácil, remar contra os noruegueses. A bordo do barco viking tem nomes de peso, força e qualidade técnica que atendem por Erling Haalang, Sorloth, Odegaard, Nusa.

Os tabus nascem da repetição de um determinado fato. Muitas vezes, são dados jogados ao céu, uma mera coincidência. Em outras, apontam uma tendência, resultado da conjunção de fatores objetivos que justificam um determinado desfecho.

Parece ser o caso em questão. Com exceção de 2006, quando ainda desfrutávamos dos Ronaldos, Rivaldos, Ronaldinhos e Cafus, nos outros mundiais pagamos o preço de uma entressafra de talentos, ativo nacional responsável pelas cinco estrelas que adornam a camisa da Seleção.

Sofremos contra Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia porque não tínhamos time, nem técnico, para evitar a dor da eliminação, que poderia vir diante de um sul-americano também, se assim o chaveamento da competição indicasse.

A pergunta que batuca no juízo dos brasileiros é se teremos time, neste domingo, para afundar o barco viking, com aquela cara de dragão exibida na proa. Ou se a escrita será reforçada por uma nova camada de tinta e decepção.

Se não temos o punhado de craques de alto quilate, até comum em um passado recente, podemos contar com algumas peças diferenciadas e um comandante capaz de compensar as deficiências, aproveitando o que de melhor cada um pode oferecer.

Ah, mas o Brasil também nunca venceu a Noruega… Alguém pode lembrar de uma outra escrita que envolve o histórico dos confrontos entre as duas seleções. De tão curto, apenas quatro, acredito que ela penda mais para uma repetição aleatória, uma coincidência.

Sem querer vender esperança para ninguém, até porque já tomei várias doses da vacina contra o pachequismo ufanista, a Seleção Brasileira tem condições de quebrar a sequência de eliminações contra os europeus e avançar às quartas-de-final (daí em diante, só Deus sabe o que pode acontecer).

A nós, que não entramos em campo, e estamos bem longe dele, resta torcer para que os goleiros Alisson e Weverton, e os defensores Alex Sandro e Danilo, testemunhas infantis de 2002, possam reviver a alegria de uma vitória do Brasil sobre uma equipe europeia em jogo eliminatório de copa.

E reescrever a escrita.