Tudo começou com o bisavô: confira a genealogia automobilística de Rafa Câmara
Empresário de transporte rodoviário na década de 1960, o piloto Nelson Rossiter foi um dos precursores do automobilismo em Pernambuco e quem mais incentivou a filha Niege, avó de Rafa Câmara, a ganhar as pistas de corrida; o Diario acompanhou toda a trajetória
O início da árvore genealógica e automobilística de Rafael Câmara teve início com o seu bisavô, Nelson Rossiter, empresário do setor de transporte rodoviário e proprietário da Autoviária Senhor do Bonfim, conhecida por Viação Bonfim, empresa que fazia a linha Recife-Maceió.
Nelson foi um dos precursores do automobilismo pernambucano e seu entusiasmo contagiou a sua filha, Niege, a primeira mulher a pilotar no estado e uma das poucos que nos anos 1960 competia no país.
O Diario de Pernambuco acompanhou a trajetória da avó de Rafa Câmara nas pistas e registrou a sua primeira vitória, nas “20 Voltas Femininas”, no Circuito da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
“Representando o Automóvel Clube de Pernambuco, a Jovem Niége Rossiter, tripulando o Interlagos n. 8, deu um Passeio na pista da Barra da Tijuca, vencendo "20 Voltas Femininas", de ponta a ponta, permitindo apenas que Maria Angélica e Elza Texeira disputassem o segundo lugar”, trouxe a matéria da edição do dia 28 de julho de 1964.
Dois dias antes, ela havia participado de sua primeira competição fora do estado.
“Nos treinos realizados durante a semana, a corredora de Pernambuco tinha dado "praticamente o serviço”, assombrando as concorrentes, com uma segurança impressionante, o que confirmou na corrida, fazendo a media
horária de 97, km/h e a melhor volta em 2m34s”, continuava o texto.
“Como vencedora, Niége, nos braços do seu pai, sr. Nelson Roasiter, deu vazio a sua tensão nervosa chorando copiosamente.”
A matéria da Agência Meridional, enviada por telex à redação do Diario, trazia um perfil da avó de Rafa Câmara:
“Niége Rossiter, às feminino do automobilismo nordestino, é uma garota de 19 anos, 1,88 de altura e 84 quilos, que estuda Psicologia. Não nega que não entende nada de mecânica e que apenas sabe dirigir, o que é importante para quem participa de competições automobilísticas. Não teme falhas dos carro que dirige, uma vez que é o próprio pai, que prepara seus motores, o que lhe dá tranqüilidade absoluta”.
Mas a largada de Niege no automobilismo aconteceu dois anos antes, no Caxangá Golf Club. No dia 6 de maio de 1962 aconteceu a I Maratona Rústica de Jeeps, que também contou com presença do seu maior incentivador.
Nelson ficou na terceira colocação e comeu poeira, talvez a mais saborosa da sua vida, deixada pela filha, que terminou na primeira colocação. Niege foi a única mulher entre os 16 inscritos para a maratona.
Dali em diante, Nelson não mais disputaria posições com ela. Preferiu dividir o volante. Foi o que aconteceu nos “500km. de Recife”, competição disputada na Cidade Universitária.
A primeira prova aconteceu no domingo 6 de outubro de 1963. A edição da terça-feira (os jornais não eram publicados às segundas), do Diario trouxe matéria com mais de uma página sobre o evento, que homenageou os 40 anos da Rádio Clube de Pernambuco.
O nível da prova foi alto. O primeiro lugar ficou com o ex-piloto de F1 Wilson Fittipaldi, irmão do bicampeão mundial da categoria Emerson Fittipaldi, que formou a dupla paulista com Eduardo Scuccacchio.
Nelson e Niege pilotaram um DKW Vemag e ficaram na sexta colocação na prova com os seus 525 quilômetros percorridos, ou as 175 voltas, no circuito de 3km de extensão, como detalhou a reportagem do Diario.
A dupla Rossiter seria repetida nas duas edições seguintes dos “500km. de Recife”, em ambas dirigindo um Willys Interlagos, e terminou na quarta (1964) e terceira (1965) colocações.
Também em 1965, e na pista da Cidade Universitária, Niege disputou a prova Força Máxima, que trouxe ao Recife nomes de peso do automobilismo nacional, como Luís Pereira Bueno, o vencedor, e os potentes carros da equipe paulista Gordini.
Pilotando um DKW Vemag, ela foi a quinta colocada.
A avó de Rafa Câmara ainda disputou a Prova Feminina de Turismo, no Circuito de Interlagos, em São Paulo, e ficou na quinta posição, entre outras competições pelo Nordeste.
Apesar do sucesso precoce no esporte, Niege não fazia grandes planos para as pistas de corrida, tinha o automobilismo como uma diversão. Questionada pela revista 4 Rodas se pensava sobre o seu futuro no esporte, a jovem pilota disse:
“Confesso que sim, a menos que apareça um moço bonito, de quem eu goste, porque ai então eu acabo mesmo indo para a cozinha, que é meu outro hobby.”
Niege se formou em Psicologia e se casou com Paulo Fernando Morato Chaves. Da união, nasceram três filhos: os Paulos Fernando e Gustavo e Paula Roberta Rossiter, mãe de Rafael Câmara.