Com 63 anos de idade, o cantor Zezé di Camargo mantém com o campo uma relação que vai além de uma simples propriedade rural. Na região de Araguapaz, no interior goiano, ele transformou a Fazenda É o Amor, nome que homenageia seu maior sucesso musical, em espaço dedicado ao descanso familiar e ao acolhimento de animais resgatados.
A propriedade ocupa 1500 hectares, uma extensão comparável a aproximadamente 1.388 campos de futebol. Essa dimensão revela não apenas o tamanho da empreitada, mas também o investimento do artista em repensar completamente o propósito da terra que mantém há décadas em Goiás.
Do modelo pecuário ao acolhimento de resgatados
Por um longo período, o nome da propriedade esteve associado sobretudo à criação intensiva de gado Nelore. Desde os anos 1990, Zezé investiu em técnicas de melhoramento genético, como inseminação artificial, para estruturar um projeto de reprodução e seleção que buscava alto padrão nos rebanhos. Em 2013, a propriedade abrigava centenas de matrizes bovinas dedicadas exclusivamente a essa atividade de qualidade superior.
A inflexão mais significativa veio quando o cantor deixou de permitir o abate de animais dentro da fazenda. Em lugar disso, passou a receber cães abandonados e em situação de vulnerabilidade, redefinindo parte da infraestrutura rural para acolhimento. Conforme contou ao site ABC Mais, o aumento de bichos acolhidos ficou tão evidente que ele brinca que sua fazenda virou “de cachorro”.
Mais de 50 cães já passaram pela propriedade em ações de resgate, segundo informou o artista. O projeto de resgate expandiu para outras espécies, e em 2025, Zezé e Graciele Lacerda acolheram cinco cavalos vítimas de maus-tratos que estavam vinculados a um abatedouro clandestino em Anápolis. Os equinos foram levados para a fazenda, onde passaram a receber cuidados.
Atividade pecuária adaptada para sustentar o acolhimento
A transformação não eliminou completamente a atividade rural. O modelo atual combina operações produtivas com o acolhimento de resgatados: a propriedade agora se concentra no cultivo de soja e na reprodução de bovinos de qualidade, e ajudando a financiar a estrutura exigida pelos animais acolhidos.
Transformar uma grande propriedade em espaço de acolhimento demanda mais que disponibilizar área. Resgates frequentemente chegam com condições graves e demandam alimentação, acompanhamento e cuidados contínuos. Manter as atividades produtivas da fazenda também ajuda a financiar esse modelo de acolhimento.
Refúgio pessoal e fonte de inspiração artística
A Fazenda É o Amor adquiriu novo significado quando a pandemia permitiu períodos mais longos de permanência no campo. Durante esse tempo, o artista reencontrou suas raízes rurais e encontrou inspiração para o projeto musical Rústico, que incorporou sonoridades associadas à música sertaneja e à vida no interior.
A propriedade serviu de cenário para gravações e registros do projeto Rústico – A Origem, lançado posteriormente, conectando a trajetória artística de Zezé ao patrimônio rural que mantém. O espaço transformou-se simultaneamente em refúgio familiar e laboratório criativo, ligando de forma inseparável sua obra musical às origens que a propriedade representa.
Os cavalos resgatados estão bem?
Quando foram encontrados no abatedouro clandestino, os cinco cavalos estavam debilitados, sem água e sem comida, e apresentavam fraturas e ferimentos graves. Chegaram à fazenda em setembro e, segundo Graciele Lacerda, estão bem e convivendo com os outros cavalos do local. O casal já prepara o suporte necessário e pensa em resgatar mais animais no futuro.










