Um conjunto de fósseis encontrado na região da Sibéria, na Rússia, indica que a presença de penas era a regra entre os dinossauros, não uma exceção restrita a poucos grupos. O estudo, publicado na revista Science por pesquisadores de diferentes países, sustenta que o primeiro dinossauro do qual todos os demais descendem já carregava penas pelo corpo.
Pascal Godefroit, pesquisador do Instituto Real Belga de Ciências Naturais em Bruxelas e principal autor do estudo, afirmou que ter penas deixou de ser um traço restrito às aves para se tornar uma característica comum a todo o grupo dos dinossauros.
Antes desse achado, praticamente todos os registros de dinossauros emplumados haviam sido feitos em território chinês, e se limitavam aos terópodes, o grupo que deu origem às aves atuais. Esse novo fóssil siberiano prova que a característica estava presente em famílias bem mais antigas e diversas, reescrevendo a compreensão científica sobre esses répteis extintos.
A descoberta do Kulindadromeus
A nova espécie encontrada, Kulindadromeus zabaikalicus, viveu há cerca de 160 milhões de anos perto do rio Kulinda. Com apenas 1,5 metro de comprimento, era um dinossauro ornitísquio, um herbívoro de bico que pertencia a um ramo evolutivo distinto dos terópodes. Isso torna o achado particularmente significativo para compreender a distribuição das penas entre os dinossauros.
O sítio fóssil incluía seis crânios e centenas de ossos, revelando que a maioria dos dinossauros estavam na era juvenil. Esse padrão indica que os animais morreram em eventos isolados, não em uma catástrofe em massa.
O depósito se formou em uma região com lagos e vulcões abundantes; os dinossauros provavelmente caíram no fundo do lago e foram cobertos por cinzas vulcânicas finas que se depositaram logo depois.
O nome Kulindadromeus significa essencialmente “dinossauro corredor no Rio Kulinda”, rio próximo ao qual a espécie viveu. O nome da espécie, zabaikalicus, refere-se a Zabaikalsky Krai, a região da Sibéria onde foi descoberto.
Os diferentes tipos de penas encontradas
O Kulindadromeus combinava penas macias, em tiras finas espalhadas pelo corpo, com escamas especialmente arqueadas que formavam linhas na cauda. Suas canelas apresentavam penas em formato de fita, um tipo nunca documentado em dinossauros até então. O conjunto revelava uma variedade de estruturas diferentes das observadas em outros dinossauros emplumados e em pássaros modernos.
Jakob Vinther, paleontólogo da Universidade de Bristol no Reino Unido, destacou a relevância do achado: a qualidade e quantidade dos espécimes siberianos eram raramente esperadas fora da China.
A hipótese de que as penas evoluíram a partir de escamas de répteis antigos e funcionaram inicialmente como isolamento térmico ganha força com esses exemplares. Eles sugerem um mecanismo evolutivo muito anterior ao que se conhecia.
Significado evolutivo das penas
A função exata de tantos tipos diferentes de penas permanece em aberto. Godefroit indicou que não sabe ao certo o que todas essas penas diferentes fazem, mas que esses animais não podiam voar. Nos dinossauros de maior porte, a quantidade de penas tende a ser menor, uma vez que o isolamento térmico se tornava menos necessário — fenômeno comparável ao dos elefantes africanos, que dispensam uma cobertura densa de pelos.
Stephen Brusatte, da Universidade de Edimburgo, também reconhece que penas não foram apenas uma característica de aves e seus parentes mais próximos, mas evoluíram muito mais cedo na história dos dinossauros.
O Kulindadromeus prova que as penas não eram exclusivas de um grupo específico de dinossauros. Se um ornitísquio herbívoro e de pequeno porte apresentava plumagem, é razoável concluir que o ancestral comum de todos os dinossauros também era coberto de penas. A descoberta muda a imagem que temos desses répteis.
Para Brusatte, tudo indica que o ancestral mais remoto dos dinossauros já possuía penas, de forma que cada espécie do grupo teria exibido alguma variação desse revestimento, à semelhança do que ocorre com os pelos entre os mamíferos. O material fossilífero ainda oferece possibilidades de novas descobertas: ainda não se sabe a extensão completa do leito fóssil, e há expectativa de encontrar mais espécimes em futuras escavações.
Modelos de dinossauros em museus, geralmente representados com pele de couro ou escamosa, podem precisar ser atualizados à luz dessa descoberta. O primeiro dinossauro emplumado foi descoberto na China em 1996, marcando o início de uma série de achados que culmina agora na constatação de que a plumagem era praticamente universal entre esses animais, não uma peculiaridade de certos grupos.
Se penas raramente se fossilizam, como temos certeza de que praticamente todos os dinossauros tinham penas?
Essa é uma pergunta legítima que até os próprios cientistas enfrentam. As penas raramente se fossilizam, o que torna a descoberta de indícios delas extremamente rara e valiosa. O que permite aos pesquisadores estar confiantes é a distribuição geográfica e evolutiva das descobertas.
Elementos como penas foram encontradas em dois grupos de dinossauros completamente diferentes (terópodes e ornitísquios) que se dividiram há cerca de 220 milhões de anos. Se dois ramos tão distantes da árvore evolutiva tinham penas, o ancestral comum que viveu antes dessa divisão muito provavelmente também tinha.
E se o ancestral comum tinha penas, todos os seus descendentes (praticamente todos os dinossauros) teriam herdado essa característica. O desafio dos pesquisadores agora é encontrar mais exemplares fossilizados com impressões de penas para confirmar essa teoria em outras famílias de dinossauros, especialmente as gigantescas.










