A empresa norte-americana Colossal Biosciences anunciou a criação de três animais com características semelhantes às do lobo-terrível (Aenocyon dirus), espécie que habitou as Américas durante a última Era do Gelo e desapareceu há mais de 10 mil anos. O anúncio, divulgado em abril, ganhou repercussão internacional e levantou um debate científico sobre os limites da chamada desextinção.
Os animais, batizados de Rômulo, Remo e Khaleesi, apresentam pelagem branca, porte avantajado e outras características físicas associadas ao predador pré-histórico. A espécie também ficou conhecida pelo público por sua representação na série Game of Thrones
Apesar da divulgação da empresa, pesquisadores independentes contestam a classificação dos animais como lobos-terríveis. Segundo esses especialistas, os exemplares são, na realidade, lobos-cinzentos (Canis lupus) geneticamente modificados para apresentar determinadas características do animal extinto.
Como os cientistas desenvolveram os animais
De acordo com a Colossal Biosciences, o projeto começou com a análise de material genético extraído de restos fossilizados de lobos-terríveis. As amostras utilizadas vieram de um dente de aproximadamente 13 mil anos, encontrado em Ohio, e de um fragmento de crânio de cerca de 72 mil anos, localizado em Idaho, nos Estados Unidos.
A partir do sequenciamento desse DNA, os pesquisadores compararam as informações genéticas do animal extinto com as de espécies vivas. O lobo-cinzento foi escolhido como base para o trabalho por sua proximidade genética com o lobo-terrível. A equipe utilizou técnicas de edição genética, incluindo o sistema CRISPR, para realizar 20 alterações em 14 genes do lobo-cinzento. Segundo a empresa, as modificações foram planejadas para reproduzir características físicas e comportamentais associadas à espécie pré-histórica, como o tamanho corporal, o formato da cabeça e a coloração da pelagem.
Depois das alterações genéticas, os núcleos celulares modificados foram transferidos para óvulos sem núcleo, que deram origem a embriões. Esses embriões foram implantados em cadelas domésticas, responsáveis pela gestação dos animais. Rômulo e Remo nasceram em outubro de 2024, enquanto Khaleesi nasceu em janeiro de 2025. Os três são mantidos em uma reserva privada nos Estados Unidos, cuja localização não foi divulgada pela empresa.
A companhia afirma que o resultado representa um avanço na biotecnologia e na possibilidade de recuperar características de espécies desaparecidas. No entanto, não há previsão de soltura dos animais na natureza ou de reprodução para estabelecer uma nova população.
Por que especialistas contestam a desextinção
A principal controvérsia está na diferença entre recriar uma espécie extinta e modificar geneticamente uma espécie existente para que ela apresente características semelhantes. O zoólogo Philip Seddon, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, considera que os animais desenvolvidos pela empresa são lobos-cinzentos geneticamente modificados, e não exemplares autênticos de lobos-terríveis.
O paleogeneticista Nic Rawlence, da mesma universidade, também questiona a definição de desextinção. Segundo ele, o DNA recuperado de fósseis antigos sofre degradação ao longo do tempo, o que impede sua utilização direta para produzir uma cópia biológica completa do animal original.
Na avaliação do pesquisador, a estratégia adotada pela Colossal consistiu em identificar diferenças genéticas entre as espécies e alterar determinados segmentos do DNA de um animal vivo. Dessa forma, embora os exemplares apresentem características semelhantes às do lobo-terrível, eles não reproduzem necessariamente toda a composição genética da espécie extinta.
A cientista Beth Shapiro, ligada à Colossal Biosciences, defende a abordagem utilizada pela empresa. Em entrevista à revista New Scientist, ela argumentou que o lobo-cinzento é o parente vivo mais próximo do lobo-terrível e que as duas espécies compartilham grande parte de seu material genético.
Shapiro também sustenta que a definição de uma espécie pode variar conforme os critérios científicos empregados. Sob uma perspectiva baseada em características físicas, segundo a pesquisadora, os animais desenvolvidos poderiam ser considerados uma recriação do lobo-terrível. O debate, portanto, envolve não apenas a tecnologia disponível, mas também a própria definição científica de desextinção.
Edição genética pode ajudar a preservar espécies ameaçadas?
Além da repercussão científica, o projeto reacendeu a discussão sobre o uso da engenharia genética para combater a perda de biodiversidade. A Colossal Biosciences desenvolve iniciativas semelhantes voltadas a outros animais extintos, como o mamute-lanoso (Mammuthus primigenius), o dodô (Raphus cucullatus) e o lobo-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus).
A empresa argumenta que tecnologias de edição genética podem contribuir para a conservação de espécies ameaçadas, permitindo, por exemplo, o desenvolvimento de características que aumentem a resistência a doenças e a mudanças ambientais. A iniciativa também se apoia na importância ecológica de grandes predadores. Animais desse tipo podem regular populações de outras espécies e contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas.
Entretanto, pesquisadores alertam que a recuperação de características de animais extintos não garante que eles possam ser reinseridos em seus antigos habitats. A sobrevivência de espécies com grandes necessidades territoriais depende da disponibilidade de alimento, das condições ambientais e das interações com outros animais.
Ainda existem dúvidas sobre os impactos ecológicos da eventual reintrodução de animais recriados por engenharia genética, especialmente em ambientes que passaram por profundas transformações desde a extinção das espécies originais.
Um avanço tecnológico com limites científicos
O caso dos três animais desenvolvidos pela Colossal Biosciences evidencia tanto o potencial quanto as limitações da biotecnologia moderna. A edição genética permite modificar características específicas de organismos vivos, mas não significa, necessariamente, que seja possível recuperar integralmente uma espécie extinta.
Enquanto a empresa considera o projeto um marco na desextinção e na conservação da biodiversidade, parte da comunidade científica defende cautela na utilização desse termo. A discussão também levanta questões sobre as prioridades ambientais: embora a engenharia genética possa oferecer novas ferramentas para a conservação, a proteção dos habitats naturais e das espécies que ainda existem continua sendo fundamental para evitar novas extinções.










