Juliana Prates descobriu contas abertas em várias plataformas de apostas online ao abrir o celular do seu irmão, Otacílio, depois de encontrar uma carta deixada por ele. Naquele dia, ele havia apostado R$ 109 mil — valor que representava apenas uma fração da dívida contraída em segredo desde 2023.
Juliana, auditora e advogada do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, revelou que Otacílio, também auditor fiscal do órgão, acumulou aproximadamente R$ 1,5 milhão em débitos antes de tirar a própria vida em dezembro de 2025. Ele deixou esposa e uma filha de seis anos.
Durante quase dois anos, Otacílio escondeu o vício e atribuiu as dificuldades financeiras a investimentos fracassados em bolsa de valores e criptomoedas. Mesmo depois de ser internado por problemas psicológicos, não revelou o verdadeiro motivo de seu sofrimento. Na carta, confessou ter perdido o sentido da vida e todo o dinheiro acumulado.
A doença invisível e seus sinais
A ludopatia é um transtorno mental caracterizado pelo desejo irreprimível de apostar. A Organização Mundial de Saúde a reconhece como uma dependência comportamental equiparável ao vício em drogas. Ao contrário das drogas, porém, as apostas ganham aceitação social por causa da legalização, o que mascara a gravidade do problema para quem sofre e para as pessoas próximas.
Segundo o psicólogo Erich Rapold, especialista em Terapia Comportamental Clínica, quem desenvolve vício em apostas pode observar outras pessoas apostando e aparentemente bem. Isso pode levá-lo a concluir que o problema está em si mesmo, não na atividade.
A invisibilidade agrava o quadro: ao contrário do consumidor de drogas, o dependente de apostas age discretamente, apostando no sofá enquanto assiste televisão com a família. Apesar dessa discrição, alguns comportamentos denunciam o problema: uso obsessivo do celular inclusive durante madrugadas, isolamento crescente e pedidos de dinheiro com justificativas vagas.
A chamada “perseguição do prejuízo” — continuar apostando após grandes perdas na esperança de recuperar o dinheiro — funciona como armadilha psicológica que intensifica o ciclo destrutivo.
Dimensão do problema no Brasil
Em 2025, aproximadamente 19% dos usuários de internet no Brasil realizavam apostas online, segundo levantamento do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Dados mais recentes apontam que o Brasil teve 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses, dos quais aproximadamente 12,8 milhões estavam em situação de risco.
As perdas econômicas e sociais causadas pelas apostas online e jogos de azar são estimadas em R$ 38,8 bilhões anualmente no país. O governo federal proibiu as bets em todo o país em setembro de 2026, estabelecendo um cronograma para bloqueio de plataformas e devolução de saldos aos apostadores. A medida representa resposta à epidemia silenciosa que ceifou Otacílio e tantos outros brasileiros.
Da dor pessoal ao ativismo
Juliana transformou o trauma em uma campanha pública contra as apostas online. Um vídeo em que relata a história do irmão alcançou mais de 15 milhões de visualizações nas redes sociais e foi compartilhado pela atriz Luana Piovanni, ampliando o alcance da mensagem.
Depois que o vídeo viralizou, desconhecidos começaram a procurá-la para contar as próprias experiências — algumas de recuperação, outras tão trágicas quanto a dela. A auditora diz que transformou o luto em luta porque não quer que ninguém passe por isso. Para quem convive com o vício, existem ferramentas de proteção e suporte, como a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite aos dependentes solicitar o bloqueio do acesso aos sites de apostas.
O Teleatendimento do SUS orienta sobre saúde mental, enquanto o Grupo Salvador Jogadores Anônimos oferece uma rede de apoio a dependentes. A Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, regula o setor. Críticos apontam que as políticas existentes permitiam marketing agressivo dessas plataformas para o público jovem, aprofundando a epidemia que custou a vida de milhares de brasileiros.










