Um coordenador de TI viu sua vida financeira desabar entre 2021 e 2025, acumulando uma dívida de R$ 400 mil em apostas online enquanto sua esposa cuidava do filho recém-nascido sem desconfiar de nada.
Apenas dois meses após o parto de Benício, em dezembro de 2022, o goiano Wederson Marcos dos Santos, 35 anos, encontrou coragem para confessar o segredo que pesava na consciência. A revelação aconteceu num momento que ele nunca esquecerá: enquanto a esposa amamentava o bebê.
Desde então, afastado do que trata como doença. Ele construiu uma presença digital de quase 30 mil seguidores no TikTok com um propósito bem definido — usar sua trajetória de perdas financeiras para desinfluenciar pessoas atraídas pelas promessas de ganho rápido das plataformas de apostas.
Do trabalho estável ao ciclo vicioso
Santos cursou Sistemas de Informação pela Universidade Federal de Goiás e tinha segurança profissional como coordenador de TI em Aparecida de Goiânia quando a pandemia trouxe a ilusão de uma renda extra. Sua primeira aposta, em 2021, marcaria o início de uma trajetória que consumiria todas as economias familiares em apenas seis meses. Ao todo, R$ 40 mil simplesmente desapareceram.
Apesar de compreender tecnicamente como funcionam os algoritmos das plataformas, o conhecimento acadêmico não foi suficiente para interromper o padrão. O salário de coordenador de TI deixou de bastar; entregas de moto nos fins de semana. E corridas por aplicativo se tornaram necessárias apenas para tentar cobrir os buraco financeiros que se aprofundavam.
Pequenas apostas, grandes perdas
Ganhos inesperados alimentavam a ilusão de controle — R$ 17 mil vindos de uma aposta de 75 centavos, ou R$ 22 mil na roleta ao vivo com apenas R$ 800 investidos inicialmente.
Cada vitória funcionava como combustível para arriscar quantias maiores, num ciclo onde a perda da rodada seguinte levava a apostas ainda maiores para recuperar o que havia sumido.
Com o tempo, valores que pareciam altos perderam o poder de gerar emoção. Apostar R$ 50 não bastava mais; mil reais se tornaram rotineiros, chegando ao extremo de uma única rodada com R$ 40 mil em jogo. A sensação de controle que as pequenas vitórias inicial criaram se dissipou completamente.
A vida mentida para a família
Santos passou a construir uma narrativa paralela para justificar ausências e comportamentos suspeitos. Comprometimentos familiares viravam pretexto para monitorar partidas de futebol enquanto desviava o dinheiro do orçamento doméstico direto para as apostas. Horas extras fictícias explicavam noites inteiras em sessões de jogo, inclusive durante a maternidade da esposa.
Promessas feitas antes do nascimento do filho — que ela não precisaria retornar ao trabalho — conviviam com endividamentos crescentes que ele guardava para si. O silêncio carregava um peso crescente, até o momento em que manter o segredo se tornou fisicamente insuportável.
A confissão e o caminho para a recuperação
A abertura aconteceu durante a amamentação, dois meses pós-parto, quando ele finalmente revelou toda a verdade. Sua esposa reagiu com choque inicial, mas rapidamente o incentivou a buscar ajuda profissional, o que o levou ao grupo Jogadores Anônimos e ao aplicativo I Am Sober para monitorar a sobriedade.
Nem a confissão inicial foi suficiente para interromper completamente o ciclo — houve recaída motivada pela obsessão de recuperar R$ 100 mil que havia perdido. Novos empréstimos foram contraídos, novas mentiras foram contadas, até que uma crise severa o levou a sair de casa, ficar três semanas desaparecido e confrontar pensamentos sobre tirar a própria vida.
Apenas com acompanhamento psiquiátrico conseguiu reconhecer o vício como doença e aceitar ajuda para valer.
De vítima a alertador nas redes sociais
Hoje, a experiência pessoal de Santos serve como ferramenta educativa para conscientizar seguidores sobre os mecanismos que aprisionam apostadores em ciclos cada vez mais profundos de dívida. Seus vídeos no TikTok expõem não apenas sua própria história, mas também os relatos de pessoas que acompanham o perfil e comentam sobre perdas similares.
A iniciativa ganha força com o apoio de projetos como o Educação Financeira Transforma, que conta com respaldo do Instituto Brasil Solidário. No contexto nacional, a assinatura de medida presidencial em setembro de 2025 proibiu as apostas de quota fixa no Brasil a partir de outubro daquele ano — regulação que torna ainda mais relevante o trabalho de desinfluenciação que Santos executa nas redes.
Para jovens que começam a lidar com dependência de apostas já aos 14 anos, relatos como o dele funcionam como referência de recuperação possível.










