Encontrado em setembro de 1991 nos Alpes de Venoste, na fronteira entre Áustria e Itália, Ötzi permanece como a múmia mais estudada da Europa. Preservados naturalmente pelo gelo durante mais de cinco mil anos, seus restos revelam como era a vida na Idade do Cobre e oferecem pistas para a medicina moderna.
Caminhantes alemães descobriram o corpo a mais de três quilômetros de altitude, deitado de bruços à beira de um lago gelado. Três décadas depois, novas descobertas ainda ampliam o conhecimento sobre como nossos ancestrais viveram, comeram, trabalharam e morreram nos Alpes europeus.
Um acervo arqueológico único preservado no frio
Os restos de Ötzi estão guardados no Museu de Arqueologia de Tirol do Sul, em Bolzano, na Itália, dentro de uma câmara frigorífica mantida a aproximadamente -30°C. A instituição recebe de 12 a 15 pedidos de cientistas por ano para examinar a múmia. Cada solicitação é avaliada com cuidado porque descongelar o corpo pode causar deterioração.
Por isso, a múmia raramente é descongelada, e a última vez foi em 2019. Apesar da restrição, cerca de 300 mil visitantes viajam a Bolzano por ano para observá-la através de uma janela de vidro espesso que protege sua câmara gelada.
A múmia recebe manutenção específica: quatro ou cinco vezes por ano, seus restos são borrifados com água esterilizada para formar um exoesqueleto protetor que a mantém no estado de “múmia úmida”.
Histórico de doenças e marcas no corpo
Ötzi tinha aproximadamente 1,57 metros de altura, era magro e canhoto — características que pesquisadores confirmaram ao analisar seus restos. Foram descobertas 61 tatuagens em seu corpo, concentradas nas articulações e estruturas ósseas dos joelhos, quadris, ombros. E costas, bem como pontos que correspondem a linhas de acupuntura moderna, sugerindo que marcavam regiões de dor crônica.
As tatuagens provavelmente foram feitas por punção, e não por incisões, segundo pesquisa com colaboração de tatuadores profissionais. Os exames revelaram que o homem, com aproximadamente 46 anos quando morreu, sofria de dores persistentes nessas regiões. Também identificaram cáries dentárias, parasitas intestinais e doença de Lyme.
Também foi mostrado ainda que ele tinha sangue tipo O, intolerância à lactose e uma anomalia congênita rara que impedia a formação de seu 12º par de costelas. Ele havia quebrado várias costelas e o nariz durante a vida. A análise dos olhos preservados indicou cor castanha escura e tom de pele típico do Mediterrâneo, oferecendo detalhes únicos sobre a saúde humana há cinco mil anos.
A morte e os pertences preservados
Ötzi sofreu um ferimento defensivo dias antes de morrer: um corte entre o polegar e o indicador da mão direita, provavelmente causado ao tentar agarrar uma lâmina. O golpe fatal veio de uma flecha que atingiu uma artéria em seu ombro esquerdo, causando hemorragia que o levou à morte em minutos.
Quando foi descoberto, ele carregava pertences que iluminam seu cotidiano: uma adaga com lâmina de sílex transportada em bainha de grama. Um machado de cobre notavelmente rico para a época, e roupas feitas de pele animal costuradas com cuidado.
Seu conteúdo estomacal e intestinal também foi preservado, permitindo aos pesquisadores reconstruir sua última refeição: trigo einkorn, cervo-nobre e íbex. A descoberta levou 18 anos, pois o estômago havia se deslocado para sob as costelas durante o processo de mumificação. Essa informação rara revela os alimentos disponíveis e as práticas alimentares do período neolítico.
Patrizia Pernter, radiologista responsável pelos exames corporais, disse ao National Geographic Brasil que estudar a múmia exige respeito excepcional, porque Ötzi era um ser humano como qualquer outro, com seus próprios problemas de saúde e uma história que nunca conheceremos completamente.
Legado científico três décadas depois
Os restos deste homem pré-histórico continuam produzindo dados relevantes para a medicina contemporânea. Sua predisposição genética a doenças cardíacas é o caso mais antigo conhecido de doença cardíaca. As 61 tatuagens marcam pontos de dor crônica e sugerem uma forma primitiva de acupuntura.
Os registros de inflamação ajudam a entender como o corpo humano respondeu a esforços físicos e condições ambientais extremas. Pesquisas recentes também analisam seu microbioma intestinal e estomacal para compreender como a flora bacteriana ancestral difere da população moderna.
A Universidade de Trento e outras instituições europeias continuam aprofundando as análises do DNA e dos tecidos de Ötzi. Cientistas preveem que a múmia, conservada de maneira extraordinária, revelará mais informações nas próximas décadas. Cada estudo, seja com tecnologia de imagem avançada ou análise genética, amplia a compreensão sobre a vida neolítica europeia.
Ötzi não é apenas um acidente arqueológico, e é um registro humano congelado que continua ajudando a compreender o passado.










