Objetos guardados numa gaveta podem despertar sentimentos contraditórios: o impulso de descartar esbarra na memória afetiva.
A psicologia relaciona esse conflito ao significado que os pertences adquirem, além de sua utilidade material. Pesquisas sobre o tema, incluindo um estudo publicado na revista Avaliação Psicológica, analisam sintomas e aspectos emocionais relacionados ao transtorno da acumulação.
Fotografias, cartas e presentes funcionam como pontes entre quem somos hoje e quem fomos. Uma foto marca uma fase feliz, uma roupa evoca alguém querido e cartas registram momentos importantes da vida.
Objetos antigos e seu peso na memória
Quando um pertence representa algo significativo na trajetória de uma pessoa, surge o apego emocional. Uma mãe que guarda desenhos antigos dos filhos ocupa espaço físico e também preserva um lugar afetivo na memória.
Alguém que conserva presentes de um relacionamento terminado ou uma família que mantém objetos de uma pessoa querida que já não está presente também desenvolve apego emocional a esses pertences.
O pensamento reforça esse processo: a pessoa imagina que colocar determinado objeto no lixo equivale a descartar uma parte da própria história. Desapegar se torna emocionalmente mais difícil do que organizar a casa, porque a decisão envolve identidade, lembranças e sentimentos, não apenas logística.
Quando o acúmulo sai do controle
Guardar objetos afetivos é parte natural da experiência humana e não representa, isoladamente, qualquer problema. O comportamento se torna preocupante quando o acúmulo interfere no bem-estar, nos relacionamentos ou no uso dos espaços da casa.
No transtorno da acumulação, a dificuldade persistente de descartar objetos vem acompanhada de aquisição excessiva e desorganização dos ambientes. Essa condição pode comprometer significativamente a rotina e a qualidade de vida das pessoas afetadas.
Desapegar sem apagar memórias
Investigar o que um objeto realmente representa pode ajudar a compreender sentimentos e tornar o desapego mais consciente. Essa reflexão permite reconhecer se o item é significativo ou se apenas o medo de perder a memória impede o seu descarte.
Desapegar de um objeto não significa apagar uma memória. A lembrança permanece na história pessoal mesmo quando o pertence deixa de ocupar espaço físico.
Fotografias viram histórias contadas, e cartas se transformam em recordações que seguem vivas. Pessoas queridas ficam presentes por meio das lições e dos momentos que deixaram.
O caminho do tratamento
Quando a acumulação interfere na vida diária, torna um espaço intransitável e impede o uso adequado dos cômodos, o acompanhamento profissional é necessário. Segundo o psiquiatra Daniel Costa, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do HC/USP, em entrevista ao Fantástico, não existe solução rápida para a acumulação compulsiva. O transtorno é crônico, tende à recorrência e exige acompanhamento constante de profissionais de saúde.
O objetivo é ajudar a pessoa a compreender a origem do comportamento e desenvolver estratégias para mudança. Preservar memórias significativas enquanto se evita acumular pertences prejudiciais permite um equilíbrio entre passado e presente.
Essa compreensão permite que cada pessoa reconfigure sua relação com os objetos que guarda, reconhecendo quais representam significado real e quais são apenas reflexo do medo de perder memórias.










