Do manguebeat à literatura: DJ Dolores vira finalista do Prêmio Jabuti com livro de crônicas
Pioneiro do manguebeat, DJ Dolores é finalista do 68º Prêmio Jabuti com seu primeiro livro, "Lugares para chorar no Recife e outros", que traz suas experiências e andanças entre o interior de Sergipe, o Recife e outros lugares do mundo
Músico, produtor, roteirista, compositor e designer, DJ Dolores recentemente passou a assinar também como escritor. Após sua estreia no mundo dos livros em “Lugares para chorar no Recife e outros”, lançado no ano passado pela Editora Seja Breve, ele conquistou uma vaga entre os finalistas do 68º Prêmio Jabuti na categoria “Crônicas”.
O artista sergipano, radicado no Recife desde 1984, representa Pernambuco no principal prêmio literário do país ao lado de Jefferson Willian Moraes de Sousa, que concorre na categoria “Incentivo à Leitura (Projeto)” com “Pajeú Encantado”.
Chegar à final foi algo totalmente surpreendente para Dolores, que sequer sabia que seu livro havia sido inscrito no Jabuti até o anúncio dos semifinalistas. “Recebi uma mensagem do editor e fiquei surpreso. Nem sabia que isso estava acontecendo”, relata o autor em entrevista ao Diario.
Sem firulas ou ansiedade, ele prefere manter os pés no chão: “Vamos deixar as coisas acontecerem”. O anúncio oficial dos vencedores do Prêmio Jabuti 2026 acontecerá no dia 27 de outubro, em uma cerimônia realizada na cidade de São Paulo, com transmissão ao vivo pelo canal da Câmara Brasileira do Livro (CBL) no YouTube.
Tudo começou com postagens despretensiosas no Facebook, onde ele teve a ideia de indicar os pontos da cidade mais propícios para derramar lágrimas. À princípio era só uma piada, mas as pessoas começaram a levar os textos a sério. “Algumas histórias partem de acontecimentos reais, enquanto outras ganham novos contornos a partir da maneira como me lembro delas e as transformo em texto”, explica Dolores.
Um olhar mais itinerante, fruto das suas andanças como migrante, DJ e produtor, também se faz presente tanto ao narrar passagens no exterior quanto ao resgatar as memórias de menino em Propriá, no interior sergipano. “Minha ambição maior é fazer com que o leitor pare, esqueça as telas e possa ficar algumas horas desfrutando dessas vidas”, destaca.
Mas a verdade é que o imprevisto acompanha não apenas a incipiente carreira literária de Dolores, como também a sua própria relação com o Recife. “Foi onde amadureci como homem e como profissional. Mesmo assim, ainda consigo olhar para a cidade como se fosse um lugar novo. De vez em quando, ela ainda me surpreende”, revel
a. A capital pernambucana é a grande musa que conduz a maioria das 160 páginas da publicação, cuja perspectiva do autor é íntima e, também, distante. “Eu me sinto muito protegido e abraçado pelo Recife, mas, ao mesmo tempo, ainda tenho um olhar de estrangeiro, de quem observa a cidade de fora. Acho que nunca perdi esse olhar”, conta.
Em meio aos relatos, sobram páginas dedicadas a homenagear, com muito afeto, figuras como Luiz Gonzaga, Naná Vasconcelos e Chico Science. Este último é envolto em uma atmosfera ainda mais especial.
Afinal, remete aos anos em que Dolores, operando na linha de frente visual do manguebeat, ajudou a desenhar a estética pop e cibernética que apresentou o Recife e sua lama tecnológica para o mundo.
"Quando vi que a galera estava fazendo grafites a partir daquele desenho em ‘Da Lama ao Caos’, tive a impressão de que havia mandado uma mensagem e a cidade estava me dando uma resposta”, recorda o artista.
Embora a literatura pareça um desvio inesperado em sua trajetória, transitar pela palavra escrita está longe de ser uma novidade. Paralelamente à música, Dolores acumula anos de experiência como roteirista, a exemplo da websérie “Enigmas do Frevo”. Ainda assim, ela diz que a diferença entre as duas frentes é notável.
“Escrever um livro é uma experiência própria”, reconhece. Para o futuro, ele não descarta transformar a obra em uma minissérie, mas deixa no ar a possibilidade de explorar outros lados como escritor. “Fico pensando se não me atreveria a escrever um romance”, pondera.