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Luiz Martins traz ao Recife exposição que usa iconografia de orixá para refletir sobre vida e morte

Artista plástico mineiro apresenta a exposição "Ogunhê", que faz referência ao orixá Ogum e se expande para novos significados para a vivência humana a partir de suas memórias pessoais

Por André Guerra

Luiz Martins espera que público se surpreenda com caráter abstrato da exposição, sua primeira individual no Recife

O olhar espiritualizado sobre a arte vem guiando há muitos anos o trabalho de Luiz Martins, ainda que sua obra se desdobre em várias outras possibilidades. Pela primeira vez no Recife, o artista plástico mineiro, natural de Machacalis, traz “Ogunhê”, que evoca Ogum em um sincretismo religioso que reúne leituras filosóficas e visuais da matéria, em especial o ferro, a madeira e a terra. Esse projeto pode ser conferido na abertura da mostra, marcada para esta quarta-feira (23), às 19h, na Galeria Base, em Boa Viagem — e ficará disponível de segunda a sexta, das 9h às 18h, até o dia 13 de novembro.

O artista veio ao Recife anos atrás para conceber visualmente a festa da campanha de uma marca, mas sua relação com Pernambuco vem de muitos anos. “Minha pesquisa artística inteira tem conexão com expositores e galeristas da cidade e, como esse projeto vem sendo pensado há muitos anos, como a maior parte das minhas exposições, decidi que ela tinha de ter uma lógica expográfica específica para esta montagem”, explica Luiz em entrevista ao Diario.

Inédita, “Ogunhê” passou alguns meses exposta em São Paulo e, para a capital pernambucana, portanto, chega em formato reduzido e adaptado ao espaço disponível, mas não sem sua essência preservada. Dezenas de quilos de sal grosso cobrem o piso, enquanto obras brancas compõem as paredes, e uma mesa branca coberta de sal traz uma louça branca na quina e uma taça de cristal com água.

O artista plástico descreve a exposição como uma forma diferente de olhar para a sequência de nascimento, vida e morte. “Meu trabalho é feito para questionar pensamentos e questionar a história. O espaço é pensado como um momento de purificação e reflexão”, afirma, acrescentando que a religiosidade permeia naturalmente sua construção estética, mas sem se tornar o centro gravitacional dela. “Vou inserindo tópicos relacionados a mim como ser humano, e a Umbanda faz parte da minha vida. Desde que fui convidado a desenvolver a ‘Ogunhê’, quis trazer esse assunto sem falar de religião. Meu trabalho tem referências ao meu orixá, nas cores, na terra e no metal, mas não é especificamente sobre isso”.

O roteiro expográfico da versão recifense da mostra recorta elementos da vida e da morte com uma personalidade bastante própria, que desafia o público a compreender além do visível. Luiz Martins torce para que os visitantes se surpreendam, sejam eles familiarizados com a iconografia de Ogum ou não. “As pessoas que tiverem a oportunidade de abrir a mente para a exposição, livres de qualquer tipo de intolerância religiosa, vão perceber que o que eu apresento para elas é um lado mais abstrato disso”, salienta.

O percurso de ‘Ogunhê’ funciona como um portal para o reconhecimento da transitoriedade de aspectos da vida humana em contraste com a temporalidade das matérias propostas pela exposição. Ansioso para compartilhar suas experiências e memórias com o público pernambucano em sua primeira individual no estado, Luiz espera que este projeto seja apenas o começo de uma longa relação com um território que está tão fixado em seu imaginário, e que, a partir desta semana, se tornará parte definitiva dele.

“Não vejo a hora de notar essa surpresa no olhar das pessoas que esperam uma coisa da mostra e verão outra. Em São Paulo, as reações me deixaram muito feliz e sinto que aqui será mais forte ainda”, completa o artista na entrevista.