Amaraji, na Mata Sul, recebe festival de cinema gratuito a partir desta segunda (24)
Festival Cinema na Mata - Curta a Palavra, em Amaraji, começa com atividades de formação nesta segunda-feira (24). Da quarta-feira (26) ao sábado (29), o evento recebe sessões de filmes no centro da cidade
Tendo como tema "Histórias de Resistência", a quinta edição do festival Cinema na Mata – Curta a Palavra começa nesta segunda-feira (24) e vai até o sábado (29), na cidade de Amaraji, situada na Zona da Mata Sul, a 96 km da capital pernambucana. Projeto criado e desenvolvido pela cineasta Clara Angélica e pela produtora Jô Conceição, reúne oficinas formativas e a exibição de curtas e longas como "Corisco e Dadá", que está completando 30 anos, e o premiadíssimo "O Agente Secreto", que serão mostrados sob uma lona de circo instalada no Pátio de Eventos Valmir Soares. A mostra também irá para dois assentamentos, em setembro.
Duas oficinas marcam o início do festival. Ministrada por Rodrigo Philippini e Lujan Farias, “Do Papelão ao Livro: Costurando Memórias sobre Amaraji” vai acontecer da segunda (24) até a sexta (28) na Biblioteca Municipal Dom Carlos Coêlho, das 8h30 às 12h30, com o objetivo de produzir e difundir livros cartoneros - feitos de forma artesanal -, resultando na criação de obras que resgatem memórias, narrativas e aspectos culturais do município. Já “Do Livro ao Filme”, que terá o cineasta, professor e crítico de cinema Alexandre Figueirôa como condutor, será realizada nos mesmos dias, das 13h30 às 17h30, na Escola Municipal São José da Boa Esperança, possibilitando que os participantes conheçam os processos de adaptação de modo a entender a relação entre cinema e literatura. A ideia é capacitá-los para transformar uma obra ficcional em roteiro cinematográfico.
Em setembro, o Assentamento do Engenho Estivas recebe a oficina “Para Se Acercar das Próprias Histórias”, com Verônica Pragana, cuja proposta é reconectar os participantes com suas próprias histórias, estimulando a memória, a escuta e a ressignificação de experiências muitas vezes esquecidas. Haverá também exibição de filmes, entre os quais "O Auto da Compadecida 2". “Essa mostra é importante por levar cultura para territórios onde as políticas públicas dificilmente chegam. Nos assentamentos por onde o Cinema na Mata passa, a grande maioria das pessoas nunca foi ao cinema. Por isso, o cinema vai até eles para proporcionar vivências inéditas”, frisa Jô Conceição.
Já a programação de longas no centro de Amaraji começa na quarta (26), às 16h, no EREM Antônio Alves de Araújo, com "Corisco e Dadá". Festejando 30 anos, o filme escrito e dirigido por Rosemberg Cariry marcou presença em importantes festivais mundo afora, incluindo os de Toronto, no Canadá, e Ankara, na Turquia. Na história, o capitão Corisco é um condenado de Deus, cuja missão é lavar com sangue os pecados do mundo. Um dia, ele rapta Dadá, e suas vidas mudam completamente. Diante da morte de um filho, tomado de fúria, Corisco rompe com Deus, e Dadá tenta salvá-lo do abismo do ódio. No elenco, estão Chico Diaz, Dira Paes, Regina Dourado, Denise Milfont e Virgínia Cavendish.
Na quinta (27), além dos curtas “Quem Semeia Lixo Colhe Inundação”, de Anninna Dias e Céu, e “Cidade Apagada: Declínio da História”, de Ana Paula, Gerlany Barros, Lóren Stayner e Márcio Meira, o Pátio de Eventos Valmir Soares recebe ainda “A Luneta do Tempo”, dirigido por Alceu Valença e estrelado por Irandhir Santos e Hermila Guedes, nos papéis de Lampião e Maria Bonita. “Fiquei muito feliz de saber que esse trabalho, tão especial na minha trajetória, seria exibido em Amaraji. Foi num engenho na Zona Rural da cidade que eu fiz o meu primeiro trabalho em cinema, o curta ‘O Pedido’, de Adelina Pontual, com a maravilhosa Geninha da Rosa Borges”, vibra Hermila.
A tarde da sexta (28) será dedicada à criançada. A programação, que começa às 16h, conta com “Salu e o Cavalo Marinho”, de Cecília da Fonte, “As Aventuras de Pety”, de Anahí Borges, “O Menino que Sabia Voar”, de Douglas Alves Ferreira, e “Quintal”, de Mariana Netto. A partir das 19h, serão mostrados os curtas “De Criança a Idoso: Todo Mundo Acorda Povo”, de Lóren Stayner, que conta a história do Acorda Povo, manifestação cultural que atravessa gerações e transforma as ruas de Amaraji em um grande cortejo de memória, identidade e celebração, e “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, sobre a inesperada falência de um McDonald's. Logo depois, passa “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira, sobre a cidade pernambucana que tem o mesmo nome da capital da Argentina.
E no sábado, encerrando o festival, o Cinema na Mata recebe, a partir das 19h, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que foi indicado em quatro categorias ao Oscar 2026. No elenco, encabeçado por Wagner Moura, destacam-se a própria Hermila Guedes, Robério Diógenes, Maria Fernanda Cândido e Fabiana Pirro, que também será a mestre de cerimônias da mostra. “A primeira vez que estive em Amaraji foi atuando como atriz, dentro da programação do Fliamar, com #MedusaMusaMulher. Agora, volto como apresentadora. Será uma honra ser porta-voz deste projeto tão importante, que leva grandes filmes de forma gratuita para a população desta cidade que tanto valoriza a cultura e que sabe da importância do cinema para despertar o olhar crítico sobre a nossa própria história”, festeja Fabiana. A Mata Sul agradece.
Antes do Cinema na Mata, Clara e Jô haviam realizado duas edições do Livros Andantes, projeto de leitura que levava aos assentamentos do MST, nos caçuás dos jumentos, livros de autores nacionais, formando bibliotecas comunitárias. “A partir daí, pensamos em como apresentar a literatura utilizando outro suporte, mostrando que filmes podem ser adaptados dos livros. A primeira edição gerou uma expectativa muito grande na equipe porque, além das exibições, estávamos trazendo oficinas com formações totalmente desconhecidas: stop motion e cineclubismo. Ao mesmo tempo, havia uma tranquilidade porque Amaraji tem essa característica de acolhimento, de hospitalidade. E foi uma experiência extremamente exitosa e proveitosa. O envolvimento das pessoas, tanto na Zona Rural como na cidade, foi impressionante. Procuramos criar uma ambiência lúdica, montando a sala de cinema sob a lona do circo”, recorda Clara.