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Última entrevista de Raimundo Carrero marcou volta do escritor ao Diario: "Retorno triunfal"

Em abril deste ano, Raimundo Carrero retornou ao Diario de Pernambuco, onde começou sua carreira como estagiário, em 1969, desta vez com uma coluna semanal

Por André Guerra

Escritor Raimundo Carrero

Reconhecido como um dos autores mais importantes de sua geração, o escritor Raimundo Carrero, responsável pela criação da Perna Cabeluda, faleceu na madrugada desta terça-feira (16), aos 78 anos, em decorrência de um câncer.

Poucos meses antes, em abril deste ano, ele retornou ao Diario de Pernambuco, onde começou sua carreira como estagiário, em 1969, desta vez com uma coluna semanal, veiculada na edição de final de semana do caderno Viver.

Em sua última entrevista, concedida ao Diario quando a coluna foi lançada, Carrero comentou com empolgação sobre o novo projeto. “Será uma excelente oportunidade para colocar em debate as ideias culturais que movimentam o país, que são muitas e jamais se esgotam. Pelo contrário: alguns assuntos internacionais sacodem ainda mais as nossas conversas, e é inevitável, eventualmente, debatê-los também”, afirmou, explicando ainda que os temas seriam maleáveis, abertos a mudanças e reflexões.

Em 1975, ao ouvir uma pitoresca história contada por um morador de São Lourenço da Mata, que afirmou categoricamente que sua esposa havia sido atacada por uma perna cabeluda, Carrero teve a inspiração para escrever o que se tornaria uma das lendas urbanas mais conhecidas do Recife — e, após o fenômeno internacional de 'O Agente Secreto', que concorreu em quatro categorias no Oscar, também do Brasil e do mundo.

“Mesmo antes de todo esse acontecimento envolvendo o filme de Kleber [Mendonça Filho], eu já ouvia muitas coisas sobre essa época, inclusive reclamações. As pessoas vinham falar comigo irritadas: ‘como você escreve uma coisa dessas? Está todo mundo assustado aqui em casa’. Essa foi uma frase recorrente”, relembrou o escritor. “Os professores da época tinham o péssimo hábito de inventar histórias para assustar ou castigar os alunos, então soube de muitas situações em que a perna era usada também para ameaçar as crianças: ‘se você não se comportar, eu te mando para o banheiro para encontrar com a perna’”.

A veiculação da criatura fantástica, que assombrou o imaginário recifense por tantas décadas, fez parte de um contexto específico de censura aos órgãos de imprensa por parte da ditadura militar, e Raimundo Carrero salientou que existiriam mais pernas cabeludas narradas em sua coluna: “Aquilo foi uma época diferente; os jornalistas trabalhavam sob a pressão do censor, que perguntava o que a gente estava escrevendo. Agora, alguns podem pensar: o que esse homem pode inventar? Não quero tirar o sono de ninguém mais”, brincou.

“Estou muito feliz com essa coluna, bastante entusiasmado para compartilhar várias ideias com o leitor. Minha história no Diario é gigantesca, tanto de presença quanto de ausência. Posso dizer, sem vaidade nenhuma, que será um retorno triunfal”, disse.