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Depois de cinebiografia, Michael Jackson vira febre e o Recife ganha eventos dedicados ao artista

Um mês após a estreia do filme, febre em torno do cantor une gerações de fãs, resgata itens raros de acervos pessoais e emplaca faixas clássicas em setlists da noite recifense

Por Allan Lopes

Rodrigo Teaser, considerado maior intérprete brasileiro de Michael Jackson, vê repercussão do filme impactar diretamente na procura dos shows

Com impressionantes R$ 3,5 bilhões arrecadados em apenas um mês, a cinebiografia “Michael” já provou ser muito mais do que um sucesso de bilheteria. O impacto gerado pelo longa despertou a primeira “Michaelmania” da era digital, colocando o Rei do Pop de volta ao topo das paradas mundiais. Michael Jackson não apenas assumiu o primeiro lugar no ranking diário global do Spotify e superou a barreira dos 100 milhões de ouvintes mensais, como também emplacou o clássico “Billie Jean” no posto de música mais ouvida do planeta.

Simultaneamente, todo o universo em torno do cantor foi impulsionado pelo súbito interesse do público em vestir, ouvir e consumir a sua marca. Um reflexo disso é a alta procura pelos shows de Rodrigo Teaser, amplamente reconhecido como o maior intérprete e cover brasileiro de Michael Jackson. Acostumado a lotar apresentações nas capitais, Rodrigo agora registra sessões esgotadas com até quatro meses de antecedência. “Eu achava que já tinha chegado ao topo do que um show como o meu poderia alcançar”, confessa em entrevista ao Diario.

No momento, o público pernambucano está perto de esgotar os ingressos para a apresentação de outubro no Teatro Guararapes, mas já poderá sentir um gostinho do show neste sábado (23), quando o artista participa do Beerchef, no Mirante do Paço, no Bairro do Recife, a partir das 17h.

A história de Rodrigo com Michael Jackson se confunde com suas memórias mais antigas. Ainda na infância, ele costumava ditar o ritmo das viagens de carro em família, implorando que a trilha sonora do passeio fossem as faixas de “Thriller”.

Atenta à obsessão do filho por aquela voz inconfundível, sua mãe, Sônia Regina, o presenteou com o lendário álbum e deu o empurrão definitivo para a sua carreira ao incentivá-lo a reproduzir os passos do ídolo para vencer a timidez. “Minha mãe dizia: ‘Ele é tão tímido, mas fica trancado no quarto dançando o dia inteiro’. Foi assim que ela passou a me incentivar a dançar e a lidar melhor com a timidez”, relembra Rodrigo.

Após se especializar em canto e composição, ele idealizou o tributo ao Rei do Pop ao lado da esposa, Priscilla Freitas. Juntos, os dois estruturaram um espetáculo que ocupou os grandes palcos a partir de 2012. O projeto conquistou tamanho reconhecimento que passou a contar com a participação de lendas da equipe original do astro, como o coreógrafo LaVelle Smith, o co-diretor musical Kevin Dorsey e os músicos Jonathan Moffett (baterista) e Jennifer Batten (guitarrista), além do apoio de Taj Jackson, um dos sobrinhos de Michael. “O nosso espetáculo é o único do mundo a ter essa chancela”, orgulha-se.

Embora seja um desafio replicar as superproduções monumentais criadas pelo astro americano, o público que frequenta as apresentações de Rodrigo Teaser ainda se impressiona com o que encontra. “O propósito do show sempre será homenagear o Michael, mas o nosso grande diferencial é conseguir surpreender o público”, diz.

A produção conta com oito elevadores mapeados para rodar o país e uma réplica da icônica catapulta que projeta o intérprete para o alto, além de um arsenal tecnológico composto por lasers e efeitos especiais.

Aos 46 anos, Rodrigo vivencia o fenômeno atual não apenas como artista, mas com os olhos do fã que cresceu vendo o Rei do Pop reinar absoluto nos anos 1980 e 1990. Para o intérprete, o impacto da cinebiografia representa uma reparação histórica após décadas em que a genialidade do popstar foi ofuscada por polêmicas judiciais e tentativas de cancelamento. “As pessoas estão voltando a entender que ele foi um artista amado e respeitado”, celebra.

Colecionadores

O renascimento da "Michaelmania" após a estreia do filme serviu de combustível até mesmo para quem já achava que tinha cumprido seu papel como fã. É o caso da arquiteta Renata Leça, de 57 anos, que mantinha sua imensa coleção preservada e preferia se manter afastada dos holofotes. ‘Depois do filme, voltei a curtir minha coleção, a expor e a dar entrevistas. O pessoal mais novo é muito caloroso e muito fiel”, afirma ela, que é co-fundadora do MJ Clube Recife.

Para a arquiteta, a renovação do público não é exatamente uma novidade, mas um processo contínuo que o longa-metragem apenas tornou muito mais visível para o mundo. “Agora houve um boom, mas há muito tempo novos fãs aparecem a cada ano”, diz. Na visão de Renata, o impacto cultural de Michael, moldado na era analógica, ainda é capaz de superar os novos fenômenos da música. “Não acredito que surja outro artista com esse potencial”, opina.

Acompanhando o Rei do Pop desde os 14, sua prateleira reúne relíquias acumuladas ao longo do tempo, incluindo mais de 50 vinis, como as edições históricas de “Thriller” e “Bad”. “Eu vivi a expectativa de cada lançamento em tempo real”, afirma. Entre as peças mais raras, destaca-se o ingresso original da trágica e inacabada turnê “This Is It” – que aconteceria em Londres e ela fez questão de quitar o pagamento mesmo após a partida do ídolo – e um livreto oficial distribuído durante o funeral do cantor.

Festas

No circuito das pistas, a "Michaelmania" encontrou um terreno fértil através de curadorias musicais atentas ao comportamento do público. O Baile Charme REC abriu seu calendário de eventos de 2026 em uma noite inteiramente dedicada ao legado do cantor, logo no dia seguinte à estreia da cinebiografia nos cinemas. “O artista da vez foi Michael Jackson, justamente por causa do filme e da repercussão mundial que ele vinha provocando”, comenta Marcio Fellipe, um dos idealizadores da festa. Realizado no espaço cultural Brilho Cultural, no bairro de Santo Antônio, o baile atraiu um grande público e operou com capacidade máxima.

Além do apelo comercial, o produtor ressalta que a proposta do baile baseia-se em trabalhar com recortes musicais históricos e gêneros específicos, e que o repertório do cantor preenche todos os requisitos da pista. “O álbum ‘Dangerous’ tem muito desse viés do New Jack Swing, que é uma vertente que o charme também agrega dentro das culturas de dança”, explica. “Se a gente fosse pensar em um artista com força para segurar um evento sozinho, eu diria, sem sombra de dúvida, Michael Jackson”.

Embora a Michaelmania prometa se manter forte nos próximos meses, a meta do Baile Charme é diversificar o catálogo de artistas em vez de replicar o especial focado em uma única figura. Os planos incluem trazer blocos temáticos dedicados aos anos 1980 e a sonoridades menos comerciais, integrando tudo isso ao universo do charme através da dança, sem deixar o Rei do Pop de fora. “Michael já estava dentro dessa cartela, ligado ao New Jack Swing e ao pop. Então, fico pensando não apenas em repetir o artista, mas em integrar o gênero musical em que ele está inserido”, projeta Márcio.