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Exibido em Cannes, 'The Man I Love' amplia sequência de filmes frágeis de Rami Malek

Protagonizado por Rami Malek, drama de época exibido na competição pela Palma de Ouro do 79º Festival de Cannes acompanha um artista gay que contrai o vírus da HIV

Por André Guerra - Enviado Especial

Rami Malek, vencedor do Oscar por 'Bohemian Rhapsody', interpreta homem gay na Nova York do final dos anos 1980

CANNES — Desde que venceu o Oscar por "Bohemian Rhapsody", em 2019, Rami Malek se tornou um dos nomes mais conhecidos da indústria. O ator, no entanto, não conseguiu emplacar nenhum projeto de destaque em quase uma década. O drama de época "The Man I Love", exibido na competição pela Palma de Ouro no 79º Festival de Cannes, parecia justamente um marco de retorno para o astro famoso por interpretar Freddie Mercury. Infelizmente, o resultado decepciona em praticamente todos os aspectos.

O longa se passa na Nova York da década de 1980, durante o auge da crise da AIDS nos Estados Unidos. O protagonista, Jimmy George (Rami Malek), é um artista performático que contrai o vírus do HIV e tenta sustentar suas relações, especialmente com seu parceiro cuidadoso, Dennis (Tom Sturridge).

A entrada em cena de um vizinho, Vincent (Luther Ford), adiciona turbulência à relação principal, o que acaba contaminando a rotina dos protagonistas, que começa a sair dos eixos já frágeis. E, nesse processo, o próprio filme também sai junto.

Quem dirige "The Man I Love" é o cineasta Ira Sachs, cineasta norte-americano gay e dedicado a filmes que retratam a comunidade, como "Love Is Strange" (2014) e "Passages" (2023). Não lhe falta, evidentemente, propriedade para falar do sofrimento contido no período em que o filme é ambientado. Requinte de produção também não falta aqui, já que a direção de arte e a cinematografia criam, desde o começo, uma atmosfera evocativa da época, mesmo que o filme se baseie principalmente em cenas internas na maior parte do tempo.

O que falta a "The Man I Love" é um propósito dramático verdadeiro que guie a narrativa. Após o primeiro ato, o filme parece rodar em círculos em torno desses três personagens principais, sem jamais mergulhar nos sentimentos deles. As cenas parecem todas muito mais extensas do que o texto ou o clima pedem e, no lugar de informar sobre os personagens, a produção soa contemplativa de forma excessivamente vaidosa.

No centro de todo esse problema está o protagonista. Com seus gestos histriônicos e exagerados, que chamam mais atenção para a interpretação em si do que para o personagem, Rami Malek transforma 90 minutos em uma experiência bem mais longa do que ela de fato é. Teria sido inequivocamente melhor acompanhar o personagem do marido, que Tom Sturridge interpreta com uma humanidade que, milagrosamente, sobrevive no mar de maneirismos de "The Man I Love".

Existe, na teoria, uma bonita reflexão sobre a arte como resistência em tempos de crise sanitária, em que tanto a doença provocada pelo vírus quanto a própria homossexualidade são motivos de tabu. Mas, na prática, o que domina o filme de Ira Sachs são os olhares tremulantes e as falas excessivamente marcadas de um ator que sufoca qualquer tentativa possível de sutileza.