Revoredo se equilibra entre amor e paixão em seu novo EP "Fino Fio"
"Fino Fio", novo EP do artista pernambucano Revoredo, investiga os paradoxos do amor e da paixão através de uma dramaturgia sonora que une música e poesia declamada
No cenário imediatista das redes sociais, o artista pernambucano Revoredo propõe um respiro de contemplação com seu novo EP, “Fino Fio”, já disponível em todas as plataformas digitais. Após um período dedicado à produção de talentos do Agreste, o músico retoma o protagonismo autoral com a poética intrínseca aos seus trabalhos, criando uma dramaturgia sonora em que as canções não existem de forma isolada, mas se entrelaçam em uma linha narrativa contínua que investiga os equilíbrios e paradoxos das relações amorosas.
A gênese do disco está na parceria entre Revoredo e Zeh Lucas na faixa-título. Enquanto Zeh compôs a melodia, Revoredo escreveu a letra que compara o amor e a paixão a um fino fio, sugerindo que viver esses sentimentos é como se equilibrar em uma corda bamba sem poder olhar para o chão.
Apesar de “Fino Fio” investigar um universo temático particular, o autor faz questão de destacar que o projeto faz parte de um contexto iniciado no disco “Revoredo”, lançado em 2020. "Eu busco pensar como uma obra em sentido amplo, estabelecendo uma conexão que vai desde o meu primeiro álbum até o que venho lançando agora”, explica o artista, oriundo de Garanhuns, em entrevista ao Diario.
O amadurecimento da sua “dramaturgia sonora” passou pelo exercício criativo do projeto “Trilogia Trancada”. Ao lançar esse conjunto de três faixas durante a pandemia, o músico começou a desenhar o conceito de ciclos narrativos. O projeto não apenas preparou o terreno para o novo EP, mas reafirmou sua identidade como um artista que utiliza a poesia declamada para dar liga às melodias. “Ali eu comecei a entender como a poesia e a música poderiam se costurar de uma forma mais orgânica”, relembra.
Para dar vida aos poemas que precedem as canções, Revoredo contou com a colaboração de Babi Jackson, Fernanda Limão, Lili Novaes e Gabi da Pele Preta. A presença dessas mulheres transforma o disco em uma experiência coletiva, agregando diferentes camadas de sensibilidade e força à construção desse “fino fio” sentimental. “Trazer essas vozes femininas foi uma forma de tirar o protagonismo apenas da minha voz e criar um diálogo no disco”, comenta.
Ciente do ritmo acelerado do mercado fonográfico, o artista direciona seu trabalho a uma audiência específica, majoritariamente entre 34 e 54 anos, que ainda valoriza o ritual de uma experiência mais profunda e tátil com a música. “Meu público é formado por pessoas que ainda param para ouvir um disco”, argumenta.
Mesmo com apenas quatro faixas, o álbum entrega uma experiência imersiva que muitos projetos mais longos não alcançam, fugindo da lógica de mercado que empilha canções para cumprir metas de streaming. “É um convite para desacelerar e mergulhar na obra como um todo”, afirma.
Mesmo com a instabilidade das relações humanas, o artista vê o afeto como o elemento que as humaniza e sustenta a arte em cenários muitas vezes hostis, refletindo esse olhar tanto em sua conexão com o Agreste quanto nas experiências pessoais que permeiam sua obra.
“Eu vejo meu trabalho e minha carreira como um exercício constante de afeto pelas pessoas, pelo meu território e pela arte que eu acredito. Em 'Fino Fio', eu quis traduzir essa vulnerabilidade. O afeto é esse equilíbrio frágil, mas é também o que nos salva”, destaca Revoredo.