Versão moderna de 'Auto da Compadecida', com crítica social e política, volta aos palcos do Recife
Espetáculo 'Auto da Compadecida — Uma Farsa Modernesca' chega ao Teatro Apolo com três sessões e propõe uma adaptação que dialoga com desigualdades sociais, fé, sobrevivência e tensões de poder
Com elenco de veteranos do teatro pernambucano, o clássico de Ariano Suassuna ganha nova leitura em “Auto da Compadecida — Uma Farsa Modernesca”, que fará três sessões entre a próxima sexta-feira (24) e o domingo (26), no Teatro Apolo. Os ingressos estão à venda na Sympla, com valores de R$ 50 (meia) e R$ 100 (inteira), na plataforma Sympla neste link
A montagem, dirigida por Célio Pontes e Eron Villar, aposta na agilidade da cena, no humor afiado, no jogo cênico e na comunicação direta com o público, a partir de um texto adaptado para dialogar com questões contemporâneas, como desigualdades sociais persistentes, fé e sobrevivência, a astúcia como estratégia de resistência e as tensões entre poder e justiça, resultando em um espetáculo popular e de forte caráter político na atualidade.
“Nossa criação nasce de uma inquietação artística coletiva. Da reunião de artistas que compartilham a vontade de fazer um teatro que não apenas diverte, mas que faz pensar e emociona”, afirma Pontes, que realiza esta montagem junto à Cooperativa Pernambucana de Teatro. “Optamos por uma sensível colcha de retalhos que ressignifica a tradição e nos atravessa no que há de mais humano em todos nós”, completa o diretor, que, neste projeto, também atua e assina a direção de arte, o figurino e a identidade visual.
Célio Pontes tem uma história longeva com “Auto da Compadecida”: ele esteve no elenco da montagem anterior da peça em Pernambuco, que é até hoje lembrada pelo êxito de ter permanecido em cartaz por 20 anos, entre 1992 e 2012, realizada pela Dramart Produções, da atriz e produtora Socorro Rapôso (1931-2021), artista que, aliás, viveu a primeira Compadecida no Santa Isabel, em 1956, ano seguinte à publicação da peça. Do elenco da montagem de 20 anos também voltam à cena os atores Sóstenes Vidal e Williams Sant’anna, intérpretes de João Grilo e Chicó, além de Cleusson Vieira.
A peça traz mais nomes veteranos do teatro pernambucano - as atrizes Clenira Melo, que integrou o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), e Simone Figueiredo, com mais de 40 anos de cena, e também os atores Alexandre Sampaio, Carlos Lira e Mário Miranda. Ainda promove o encontro destes com novos artistas da cena local: os jovens atores Douglas Duan, Gil Paz, Paula Tássia e Thiago Gondim, estimulando um diálogo entre memória, continuidade e renovação do fazer teatral nas coxias e nos palcos de Pernambuco.
Um clássico reelaborado - Ao fazer o texto tocar na atualidade, “Auto da Compadecida — Uma Farsa Modernesca” reelaborou seus personagens centrais, João Grilo (Vidal) e Chicó (Sant’anna). Longe de estereótipos simplificadores, os dois surgem como símbolos da resistência popular, da inteligência que nasce da escassez e da capacidade de reinvenção diante das adversidades. “A nova montagem reafirma o caráter universal dos personagens arquetípicos propostos por Ariano Suassuna, o que os torna cada vez mais atuais”, comenta Pontes. João Grilo e Chicó formam uma dupla que revela um Nordeste plural, criativo e capaz de rir de si próprio.
Assumidamente uma farsa ‘modernesca’, como entrega o título, o espetáculo aposta no riso, no exagero e no humor como ferramentas de crítica social. O figurino e o visagismo, criados especialmente para a montagem, dialogam com a estética da cultura popular nordestina a partir de uma leitura contemporânea. A nova encenação endossa “Auto da Compadecida” como uma obra viva — embora lançada há 70 anos, atravessa gerações, provoca reflexão e dialoga com o Brasil de hoje. Trata-se de uma homenagem a Ariano Suassuna que não se limita à memória, mas se afirma como gesto de permanência, reinvenção e imaginação.
SERVIÇO
“Auto da Compadecida — Uma Farsa Modernesca”
Dias 24 e 25 de abril, às 19h
Dia 26 de abril, às 17h
Teatro Apolo: Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife