De Ary Barroso a "O Agente Secreto": Brasil concorre ao Oscar há mais de 80 anos e tem uma vitória
No próximo domingo (15), o Brasil concorre ao Oscar mais uma vez com o filme "O Agente Secreto". Conheça a história do país na premiação desde sua primeira indicação, em 1945, com uma música de Ary Barroso.
Em uma semana, o Brasil descobre se será realmente o vencedor do Oscar por dois anos consecutivos. Com chances reais de levar pelo menos uma estatueta para casa, "O Agente Secreto" pode fazer ainda mais história, tornando-se não apenas o segundo filme nacional a levar o prêmio da Academia, mas também garantindo o primeiro Oscar a um ator brasileiro na respectiva categoria, caso Wagner Moura prevaleça.
A história do Brasil com o Oscar, no entanto, começou há muitos anos. Em 1945, o compositor Ary Barroso foi indicado pela canção “Rio de Janeiro”, feita para a comédia romântica musical “Brasil”, dirigida por Joseph Santley.
O primeiro trabalho nacional — e sul-americano — a ser indicado à categoria de Melhor Filme Estrangeiro (que hoje leva o nome de Internacional) foi o clássico “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte. A adaptação da peça homônima de , protagonizada por Leonardo Villar e Glória Menezes, venceu a Palma de Ouro no 15º Festival de Cannes, em 1962, mas perdeu a estatueta da Academia de Hollywood para o francês “Sempre aos Domingos”.
O país, contudo, passou a aparecer de outras maneiras na premiação. O clássico “O Beijo da Mulher Aranha”, de Hector Babenco, traz Sônia Braga no elenco liderado por William Hurt, que venceu o Oscar 1986 por seu papel. Baseado no livro de Manuel Puig, o longa foi feito em língua inglesa, mas teve coprodução da Embrafilme, Empresa Brasileira de Filmes S.A., fechada em 1990 pelo governo Collor. Na edição de 1982, a cineasta Tetê Vasconcellos dirigiu “El Salvador: Another Vietnam” juntamente com Glenn Silber, que concorreu a Melhor Documentário, perdendo para o filme “Genocídio”.
Na lista de concorrentes da categoria estrangeira, o Brasil voltou em peso em um dos mais importantes momentos do seu cinema: a chamada “Retomada”. Em 1996, “O Quatrilho”, dirigido por Fábio Barreto, virou o segundo brasileiro indicado. O drama de época tratava de imigrantes italianos em uma comunidade do Rio Grande do Sul. Os protagonistas eram vividos por Glória Pires, Patrícia Pillar, Bruno Campos e Alexandre Paternost. O Oscar, porém, ficou com o filme holandês “A Excêntrica Família de Antônia”.
Dois anos depois, em 1998, o thriller político “O Que É Isso, Companheiro?”, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira e dirigido por Bruno Barreto, também figurou na lista de Melhores Filmes Estrangeiros. Estrelado por Fernanda Torres no papel de Maria Augusta Carneiro Ribeiro e Pedro Cardoso no papel de Gabeira, o longa mostra a história real do sequestro do embaixador americano Charles Burke por integrantes do grupo guerrilheiro MR-8, durante a ditadura militar no Brasil. Quem ganhou o Oscar naquele ano, no entanto, foi outro filme holandês, dessa vez o drama “Caráter”.
Em 1999, foi a vez de Walter Salles levar ao mundo um dos maiores sucessos do cinema brasileiro de todos os tempos — e a primeira vez em que as chances de ganhar pareciam reais. “Central do Brasil” conquistou o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e, além da nomeação ao Oscar de Filme Estrangeiro, o longa emplacou a primeira indicação para uma atuação brasileira, com Fernanda Montenegro. Em uma temporada histórica, lembrada até hoje com ressentimento pelos brasileiros, a atriz lendária perdeu para Gwyneth Paltrow, que levou o prêmio por “Shakespeare Apaixonado”, enquanto “Central do Brasil” viu “A Vida É Bela” passar na frente.
Em 2004, aconteceu um dos casos mais famosos do Brasil com o Oscar, quando “Cidade de Deus” — que não havia sido indicado na vaga estrangeira de 2003 — conquistou recordistas quatro nomeações para um filme nacional: Melhor Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem, mas não venceu nenhuma.
Em 2015, houve a surpreendente indicação do documentário “O Sal da Terra”, de Wim Wenders com o brasileiro Juliano Salgado, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, pai do diretor. O vencedor naquela edição foi “Citizenfour”.
No ano seguinte, “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, conquistou um lugar na disputada categoria de Melhor Filme de Animação, mas quem ganhou foi o fenômeno “Divertida Mente”. Novamente da categoria documental, “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, conseguiu grande visibilidade através da Netflix e apareceu na lista de indicados do Oscar 2020, mas quem levou foi o longa “Indústria Americana”.
A espera foi gigantesca, mas, em 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, tornou-se a primeira produção falada em português a ser indicada ao prêmio máximo da noite. Fernanda Torres repetiu o feito da mãe e foi indicada a Melhor Atriz, enquanto o filme garantiu seu espaço em Melhor Filme Internacional, virando o jogo contra o então franco-favorito “Emilia Pérez”, que tinha 13 indicações no total, e trazendo o primeiro Oscar para o Brasil.
Este ano, “O Agente Secreto” chega igualado com “Cidade de Deus” em número de indicações, conseguindo espaço até mesmo na categoria inaugural de Casting. Com forte trabalho de divulgação da distribuidora norte-americana Neon e o pedigree de ser a produção mais premiada pelo mundo inteiro de toda a categoria, o longa de Kleber Mendonça Filho é mais uma chance brasileira — uma de suas maiores.