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Carnaval 2026: Há 30 anos, o Rec-Beat conecta cenas musicais do mundo inteiro à folia pernambucana

Desde 1996, o Rec-Beat conta com edições no carnaval de Pernambuco trazendo artistas do mundo inteiro para dialogar com a cena musical pernambucana

Por Allan Lopes

10/02/2002. Publico durante show do Devotos no Rec Beat

Há três décadas, o carnaval no Cais da Alfândega, no Bairro do Recife, não é mais o mesmo. É mais plural, mais diverso. Em suma, mais multicultural graças ao Rec-Beat, um dos principais eventos gratuitos de música do país. Para a sua histórica 30ª edição, o festival expande ainda mais suas fronteiras, agregando sons de Pernambuco, do Brasil, da América do Sul e da África. A programação, divulgada nesta quinta-feira, traz Chico Chico, Johnny Hooker e Djonga, entre outras atrações.

“Parece que começamos ontem, não há 30 anos”, recorda o idealizador, produtor cultural e curador do Rec-Beat Antonio Gutierrez, o Gutie, em entrevista ao Diario. A faísca para criar o festival surgiu depois que ele assistiu a um show do Mundo Livre S/A e do Lamento Negro - cujo alguns integrantes, junto a extinta Loustal, dariam origem a Nação Zumbi - em um casarão de Olinda.

Inspirado pela efervescência do manguebeat, que na época ainda era underground e raramente aparecia nos grandes palcos, Gutie começou a organizar o embrião do Rec-Beat no Adilias’s Place, no centro histórico do Recife. Curiosamente, a primeira edição com cara de festival, ou a “edição zero”, aconteceu em São Paulo, em 1994, quando ele levou 11 bandas pernambucanas para lá.

Na década de 1990, o carnaval ainda era predominantemente diurno e concentrado em Olinda. Foi assim que o Rec-Beat começou a oferecer uma programação à noite, no quintal do Centro Luiz Freire, também em Olinda, em 1996. Após três edições, veio o convite da Secretaria de Cultura do Recife para trazer o festival, já gratuito, para o centro da cidade.

A primeira edição na capital ocorreu na Rua da Moeda, então praticamente deserta, e logo estimulou o surgimento de bares alternativos no local. Cada vez maior, o evento transferiu-se para o Cais da Alfândega em 1999 e com o tempo passou a expandir suas fronteiras musicais, abrindo espaço ao brega funk e outros ritmos periféricos de diversos continentes.

Embora aconteça ao longo dos quatro dias do carnaval, o festival não rivaliza com os polos tradicionais de Olinda ou do Recife, mas os complementa, ampliando a festa pernambucana no território, na sonoridade e na experiência do folião. “O Rec-Beat sempre procurou trazer artistas que as pessoas dificilmente veriam em outro lugar”, comenta Gutie. Dessa forma, sua curadoria foi responsável por trazer novos nomes como Lenine, BaianaSystem, Gaby Amarantos e Liniker, que mais tarde viriam a estourar em todo o país.


Para manter a independência e a gratuidade do festival, o produtor segue enfrentando obstáculos financeiros. Segundo ele, a programação sai uma semana antes porque antes é preciso concluir os contratos com patrocinadores, e só então vêm as contratações dos artistas. “Isso compacta nosso calendário e dificulta as decisões, porque não podemos assumir custos sem ter certeza do orçamento”, explica.Atualmente, cerca de 40% do financiamento do festival é garantido por aportes da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, da Secretaria de Cultura e da Prefeitura do Recife.

Uma das principais novidades desta edição é o lançamento do Moritz, projeto dedicado exclusivamente à música eletrônica, que estreia dentro da programação do Rec-Beat, ocupando o palco no sábado. Para garantir mais iniciativas inovadoras como essa, Gutie batalha por mais recursos. “Gosto muito do caminho que tomamos: um palco internacionalizado, em diálogo com produções musicais de países com os quais o Brasil tem proximidade cultural, mas que muitas vezes são negligenciados, como os países africanos e sul-americanos. Quero aprofundar ainda mais essa relação”, afirma.