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Com origem no Agreste, Boi da Macuca se tornou um dos blocos de frevo mais festejados de Olinda há 10 anos

Boi da Macuca se tornou um dos blocos mais queridos do carnaval de Olinda após se tornar uma agremiação de frevo há dez anos. Neste sábado (10), o Baile da Macuca dá continuidade ao seu legado com programação que conta com Paulinho da Viola, Baiana System e Joyce Alane.

Por Camila Estephania

O Boi da Macuca desenvolveu uma forte relação com o bairro de Guadalupe, em Olinda.

Em 2026, o Boi da Macuca completa sua primeira década como agremiação de frevo, mas a multidão que segue fielmente seu cortejo pelas ladeiras de Olinda nas noites da Segunda-Feira Gorda indica que ele já virou uma tradição de carnaval bem consolidada. Para aquecer seus foliões, o bloco promove o Baile da Macuca neste sábado, a partir das 18h, no Recife Antigo, onde conta com os shows de Paulinho da Viola - com participação da Portela -, Baiana System e Joyce Alane. Os ingressos custam a partir de R$ 185.

O prestígio que a Macuca conquistou é tanto que o show de Paulinho será especial para a agremiação. “Ele não está circulando com esse projeto, nós que propomos e ele curtiu bastante a ideia, pois não fazia algo com escola de samba do coração há muito tempo”, explica Rudá Rocha, conselheiro de arte e cultura do Boi.

Assim como nos desfiles de rua, a Orquestra do Maestro Oséas é presença garantida no evento, reafirmando o compromisso do bloco com o frevo, mesmo quando busca estabelecer diálogo com outras culturas musicais. Foi assim que a agremiação injetou vários clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos no repertório do ritmo recifense a partir de 2016, buscando conectar a paixão pelo carnaval à identidade do brinquedo, originalmente criado pelo saudoso Zé da Macuca em 1989, em uma fazenda do distrito de Correntes, próximo a cidade de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco.

DEZ ANOS DE FREVO

“Esse repertório da Macuca causou alguma polêmica em Olinda na época, mas não com os músicos. A orquestra adorou, porque passou a tocar também no São João e em outras épocas fora do carnaval”, comenta Rudá, que é filho de Zé da Macuca. Ele observa que a adesão das orquestras em outras épocas do ano contribuiu para que elas se mantivessem sempre ensaiando, se aperfeiçoando e buscando incorporar novas músicas ao universo do frevo.

O disco de inéditas “Frevo Macuca”, lançado pelo bloco em parceria com o maestro Henrique Albino no mês passado, veio para derrubar de vez o discurso dos carnavalescos mais conservadores de que o bloco estaria desvirtuando a folia de Olinda com forrós. “Apesar da gente trazer essa mistura para dentro do frevo, ele sempre existiu na Macuca também no modelo clássico, sendo esse, inclusive, o que mais toca no cortejo”, lembra Rudá.

Não é à toa que, mesmo tendo origem no interior, o Boi desenvolveu uma relação intensa com os moradores de Olinda, especialmente no bairro de Guadalupe, onde vive uma das comunidades mais tradicionais do frevo. Assim como o Cariri Olindense, O Menino da Tarde, o John Travolta e outras agremiações emblemáticas da cidade, a Macuca sempre passa pela área para saudar os moradores, que também fazem questão de reverenciá-la.

A relação com Guadalupe se fortaleceu quando o Maestro Oséas começou a fazer o cortejo do bloco em 2016. “A orquestra frequentava muito o Bar do Ró, quando ainda era no bairro. Por conta disso, passei a ir muito para lá, depois meu pai e o restante da minha família também passaram a ir. Acabamos construindo uma amizade muito próxima com os músicos e as pessoas do local e isso nos levou a escolher o endereço para fazer a nossa concentração”, explica.

Depois, o Boi passou a se concentrar em frente à sede do Cariri, ainda no Guadalupe, mas com o crescimento acelerado do bloco veio também a necessidade de encontrar uma concentração mais espaçosa. Atualmente, o Largo do Amparo, para onde também foi o Bar do Ró, é o novo ponto de partida da agremiação, mas sem deixar de passar pelo Guadalupe, claro. “É onde a Macuca é mais festejada”, reforça Rudá.

ROMPENDO FRONTEIRAS

O produtor comemora o sucesso da agremiação no carnaval que, apesar de parecer repentino para os desavisados, na verdade é fruto de um longo trabalho. “Sou olindense e meu pai teve boa parte da vida boêmia dele no Sítio Histórico. Quando ele começou o trabalho cultural dele em 1989, chamava-se ‘Movimento Anárquico Cultural da Macuca’ e ainda nem tinha o boi, mas uma de suas principais motivações já era trazê-lo para Olinda”, relembra Rudá.

A ideia do brinquedo nasceu na própria Marim dos Caetés, onde um homem em situação de rua se juntou ao “Movimento” de Zé da Macuca durante o carnaval de 1991 e começou a cantar a música do boi enquanto tocava triângulo. A partir de então, o agitador cultural criou a figura do boi e passou a levá-lo para Olinda todos os anos durante a folia. Até 2016, porém, a agremiação fazia uma passagem discreta pela cidade, promovendo um desfile com banda na formação tradicional de forró.

“A Macuca já era uma entidade cultural conhecida de várias pessoas por conta da história muito lúdica da vida do meu pai e por ter o São João e outros eventos na fazenda. Quando juntou essa aura com a ideia de um desfile de frevo, foi uma novidade que pegou muitas pessoas pelo braço logo no primeiro momento”, avalia Rudá, sobre a popularidade do bloco. Recentemente, a produção do Boi buscou calcular a quantidade de foliões que seguem seu desfile e estima-se que já sejam cerca de 20 mil.

A fama vai além dos limites de Pernambuco. No ano passado, o Boi da Macuca arrastou milhares de pessoas em cortejos realizados em João Pessoa, Maceió e Salvador. Neste ano, o bloco vai ainda mais longe: no dia 24 de janeiro, a agremiação leva o frevo para o Rio de Janeiro, e no dia 25 para São Paulo. O movimento se inspira na turnê que o Vassourinhas do Recife fez em 1951, passando por Salvador. A visita inspirou Dodô e Osmar a criarem o trio elétrico, alavancando o carnaval da Bahia, e sempre encantou Rudá, que agora também busca ver a semente da Macuca germinar pelo Brasil afora.