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Relembre o caso Esther, menina encontrada morta em cacimba há um ano no Grande Recife

Um ano depois, família ainda busca respostas sobre a motivação do assassinato; três pessoas respondem pelo caso na Justiça

Por Nicolle Gomes

Esther morreu em decorrência de um traumatismo cranioencefálico provocado por instrumento contundente, segundo laudo do IML

Um protesto mobilizou a comunidade do Pixete, na noite do dia 20 de outubro de 2025. Nas ruas da localidade, uma concentração de materiais inflamáveis alimentava uma chama física, mas também de esperança. O objetivo era chamar a atenção para o desaparecimento da menina Esther Isabelly, de 4 anos, que mais tarde foi encontrada morta em uma cacimba. O caso completa um ano nesta quarta-feira (21).

O Diario de Pernambuco teve acesso ao processo do caso. No Boletim de Ocorrência registrado às 23h57 daquela segunda-feira, havia poucas informações sobre o sumiço da criança.

No decorrer dos dias, três pessoas foram acusadas: Fernando Santos de Brito, de 32 anos, que morava na casa onde o corpo foi achado; Fabiano Rodrigues de Lima, de 28, vizinho de Fernando; e Uilma Ferreira dos Santos, de 34, ex-companheira de Fernando.

Para o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Fernando matou Esther e contou com a ajuda de Fabiano e Uilma para alterar a cena do crime.

As investigações, realizadas pela Polícia Civil de Pernambuco (PCPE), apontam que Esther sumiu por volta das 16h do dia 20 de outubro, feriado de Dia do Comerciário no Grande Recife.

Em depoimento, a mãe de Esther, Fernanda Pereira Ramos, afirmou que a menina estava com ela antes de ir atrás dos irmãos, de 7 e 8 anos, no Campo do Botafogo. Fernanda disse que estava em casa bebendo com um casal de amigos, quando chegou Fernando Santos de Brito e se juntou a eles.

“Indagada sobre conhecer o Fernando, disse: ‘Eu só o conhecia de vista, mas nunca havia conversado com ele antes’. Ainda, afirmou que Fernando chegou, cumprimentou o Rodrigo e juntou-se para beber”, consta o depoimento de Fernanda.

Ainda segundo ela, Fernando foi embora sozinho em determinado momento. “Foi nesse instante que notei a ausência da Ester e saí para procurá-la. Já estava escurecendo, por volta das 17h”, afirmou. Fernanda alegou que foi ao Campo e perguntou aos irmãos de Esther sobre o paradeiro dela, e foi quando um deles apontou a casa de Fernando.

Em escuta especializada, as crianças relataram que um homem encapuzado levou a garota. Um dos irmãos afirmou que o homem disse: “Esther é minha, vou levar ela e botar na cacimba”.

No relato, o mesmo menino comentou que viu Esther sendo levada em direção à casa de Fernando e quando ela foi colocada na cacimba.

A mãe foi à casa de Fernando procurar pela garota, segundo os autos. “O homem permitiu a entrada da declarante, que procurou por Esther e não a encontrou, e ainda negou que tal criança tenha entrado na casa”, narra o depoimento de Fernanda.

Fernando morava em uma casa conjugada com Fabiano Rodrigues de Lima. Os documentos afirmam que a mãe de Esther pediu para também olhar o espaço e teve permissão. Ela chegou, inclusive, a procurar na cacimba onde o corpo da criança foi achado horas depois, mas não encontrou nada.

A procura por Esther continuou noite adentro. A população chegou a realizar um protesto. Imagens da mobilização, é possível ver Fernando participando, montado em um cavalo.

No dia seguinte, 21 de outubro, o corpo da menina foi localizado, sem roupas, dentro da cacimba, no mesmo imóvel.

A área onde o corpo foi encontrado também chamou a atenção dos investigadores pela presença de objetos carbonizados. Os materiais foram submetidos a exames periciais durante a investigação.

Crime

Esther morreu em decorrência de um traumatismo cranioencefálico provocado por instrumento contundente, segundo o laudo do Instituto Médico Legal (IML). O exame identificou fraturas extensas no crânio e na face. Para a perícia, a menina já estava morta quando foi colocada na cacimba.

Os exames identificaram sangue humano em um quarto da casa de Fernando. A análise genética apontou material compatível com Esther e de uma mulher não identificada. Segundo a acusação, o imóvel foi limpo antes da chegada das autoridades, para dificultar as investigações.

“Só tinha dois cômodos, uma sala e um banheiro, e estavam completamente vazios. E que foi o local onde foi encontrado a mancha de sangue na parede. E esse local estava com água no chão, indicando que havia sido jogado propositalmente, já que no dia, não estava chovendo”, disse um dos peritos do caso em depoimento citado pela acusação.

Fernando Brito e Fabiano Rodrigues foram presos, suspeitos de ocultação de cadáver, poucas horas após a localização do corpo. Em audiência de custódia, a Justiça converteu as prisões deles em preventivas, mantendo os dois detidos.

Eles foram levados inicialmente ao Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, no Grande Recife. Depois, foram encaminhados ao Presídio de Itaquitinga, na Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Uilma teve a prisão temporária decretada em 3 de novembro. Ela foi presa em 7 de novembro e levada para a Colônia Penal Feminina do Recife (CPFR), no bairro do Engenho do Meio, na Zona Oeste do Recife.

No dia 16 de dezembro, o MPPE pediu à Justiça a substituição da prisão de Fabiano e Uilma por medidas cautelares, justificando que eles não foram acusados pelo crime doloso contra a vida, não teriam agido com violência e não havia risco suficiente para mantê-los presos.

Em relação a Fernando, o órgão pediu a manutenção da prisão preventiva dele, que segue em Itaquitinga.

Em 17 de dezembro, a Justiça determinou que Fabiano e Uilma passassem a responder em liberdade, usando tornozeleira eletrônica.

A decisão também os proíbe de manter contato ou aproximação a menos de 200 metros dos familiares da vítima e de se ausentar da comarca de São Lourenço da Mata.

Acusações

Quase dois meses após o crime, o MPPE denunciou Fernando Santos de Brito por homicídio qualificado, com as qualificadoras de meio cruel e recurso que teria dificultado a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver.

Fabiano Rodrigues de Lima e Uilma Ferreira dos Santos foram denunciados por ocultação de cadáver e fraude processual. Segundo a acusação, os dois teriam participado de ações para alterar ou limpar o local e dificultar o trabalho da perícia.

Nas alegações finais apresentadas em julho de 2026, o MPPE e a assistência de acusação pediram que os três acusados sejam levados ao Tribunal do Júri. Todos eles são defendidos pela Defensoria Pública de Pernambuco (DPPE).

“É certo que nenhuma testemunha presenciou diretamente o momento em que foram desferidos os golpes que ocasionaram a morte da criança Esther Isabelly Pereira da Silva. Tal circunstância, contudo, não enfraquece a acusação”, afirmou o promotor Raul Lins Bastos Sales nas alegações.

Em outubro deste ano, a defesa de Fernando Brito apresentou as alegações finais e pediu a impronúncia do réu, sustentando a ausência de indícios suficientes de autoria para levá-lo a júri popular.

Motivação do crime segue desconhecida

Para a família, a ausência de uma explicação sobre o que motivou tanta violência torna o luto ainda mais difícil de suportar.

Ao Diario, a mãe da vítima, Fernanda Pereira Ramos, relatou a dor de perder a filha e conviver com a dúvida da motivação.

“Até hoje eu boto minha cabeça no travesseiro toda noite. E pergunto: ‘Meu Deus, qual foi o motivo para ele fazer essa crueldade com a minha menina?’”, desabafa.

Ela ressalta que não havia conflitos prévios com o acusado. “A gente não falava com ele, nem sequer dirigia um oi, um boa tarde, um bom dia”.

Um ano depois, enquanto a Justiça ainda decide se os acusados serão submetidos ao Tribunal do Júri, Fernanda convive com uma pergunta que os depoimentos, os laudos e as investigações ainda não conseguiram responder: por que Esther foi morta?