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Universidades: os desafios pessoais para conquistar o sonhado diploma

Diario traz histórias de superação que mostram que permanecer na universidade pode ser tão desafiador quanto conquistar uma vaga

Por Cadu Silva

Laura Sento-Sé de Oliveira, estudante de Medicina

Conquistar uma vaga em uma universidade pública costuma representar o fim de uma longa preparação. Mas, para muitos estudantes, a aprovação marca apenas o início de uma nova batalha. Longas horas no transporte público, dificuldades para custear a alimentação, necessidade de conciliar trabalho e estudos, pressão acadêmica e problemas pessoais fazem parte da rotina de milhares de universitários e ajudam a explicar por que tantos acabam desistindo antes da formatura.

Para quem consegue chegar ao fim da graduação, o diploma representa mais do que uma conquista acadêmica. É a confirmação de que foi possível superar uma série de obstáculos ao longo do caminho.

O Diario ouviu as histórias de Marcela Vitória Matias da Silva, Laura Sento-Sé de Oliveira e Maria Conceição que mostram diferentes realidades, mas têm um ponto em comum: concluir a graduação exigiu muito mais do que dedicação aos estudos.

Para elas, a permanência na universidade só foi possível graças à persistência, ao apoio de familiares, professores e colegas e, em muitos momentos, às bolsas oferecidas pela instituição.

Ao chegarem ao fim da graduação, carregam mais do que um diploma. Levam a certeza de que cada obstáculo superado ajudou a construir o caminho até a profissão que escolheram e a esperança de que suas histórias inspirem outros estudantes a permanecerem na universidade, mesmo diante das dificuldades.

Entre a dificuldade financeira e a realização de um sonho

Arquivo Pessoal - Marcela Vitória Matias da Silva, estudante de Educação Física

 

A paixão de Marcela Vitória Matias da Silva, de 24 anos, pela Educação Física começou ainda na infância, quando participou do Projeto Santo Amaro, desenvolvido pela Universidade de Pernambuco (UPE). Foi ali que nasceu o desejo de, um dia, voltar ao campus como professora. Anos depois, ela conquistou o primeiro lugar pelo sistema de cotas no curso de Educação Física da universidade.

A permanência, porém, foi muito mais difícil do que o ingresso. Sem restaurante universitário, houve dias em que passava o período inteiro alimentando-se apenas com um pacote de biscoito ou uma coxinha, por serem as opções mais baratas.

“Teve momentos em que eu passava o dia na universidade comendo um pacote de biscoito ou uma coxinha porque era o que cabia no bolso. Um restaurante universitário faria muita diferença para quem passa o dia inteiro estudando e não tem condições de comprar uma refeição.”

As bolsas acadêmicas e o auxílio permanência ajudaram a custear as despesas e permitiram que ela continuasse estudando. Ao mesmo tempo, precisou enfrentar problemas familiares.

Após perder a mãe ainda na adolescência, passou a sofrer violência doméstica praticada pelo pai e chegou a recorrer à Justiça durante a graduação. Mesmo diante das dificuldades, decidiu seguir em frente.

“Eu tinha um sonho compartilhado com a minha mãe e com os meus irmãos. Não iria deixar que ninguém me impedisse de concluir a graduação, mesmo que esse alguém fosse o meu pai. Eu sabia que terminar o curso era a oportunidade de mudar a minha vida.”

Ao longo da graduação, encontrou apoio dentro da própria universidade. Um professor a orientou sobre bolsas de incentivo e programas de assistência logo nos primeiros períodos.

“Ele enxergou em mim um potencial que eu mesma ainda não via. Foi quem me mostrou as oportunidades dentro da universidade e me incentivou a continuar quando eu ainda estava nos primeiros períodos.”

Hoje recém formada, Marcela pretende ampliar a formação e cursar também o bacharelado em Educação Física.

Projetos de pesquisa também ajudam financeiramente

Filha de professora e de um trabalhador autônomo, Laura Sento-Sé de Oliveira cresceu incentivada pelos pais a investir na educação. Aluna da rede pública, participou de olimpíadas do conhecimento e chegou a fazer intercâmbio durante o ensino médio antes de conquistar uma vaga em Medicina na UPE.

A chegada à graduação coincidiu com a pandemia da Covid-19. Quando as aulas presenciais voltaram, veio outro desafio: adaptar-se à rotina de um curso integral.

Todos os dias ela saía de casa, em Setúbal, por volta das 6h para chegar às aulas às 7h30, em Santo Amaro. Entre ida e volta, passava mais de 1h30 por dia no deslocamento. Para economizar, levava o almoço preparado em casa e utilizava a estrutura da universidade para aquecer a refeição.

“Foi um choque sair da pandemia para uma rotina de curso integral. Eu saía de casa às 6h para chegar às 7h30 na universidade e só voltava no fim do dia. É cansativo, mas a gente vai aprendendo a se adaptar e entende que faz parte do caminho.”

Laura afirma que nunca precisou interromper os estudos para trabalhar, mas buscou maior independência financeira participando de projetos de pesquisa remunerados e atuando como fiscal de concursos. Para ela, outro fator foi decisivo para permanecer na graduação.

“O curso é pesado, mas as amizades deixam tudo mais leve. Ter uma rede de apoio faz muita diferença porque sempre tem alguém para incentivar quando a rotina parece difícil demais.”

Agora, prestes a concluir o curso, ela já se prepara para a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e afirma que toda a caminhada valeu a pena. “O estudo recompensa qualquer esforço. O tempo passa rápido, as dificuldades vêm, mas também passam. O importante é manter o foco no motivo que fez você começar, porque a recompensa chega.”

Dificuldades fizeram a turma "encolher"

Cortesia - Maria Conceição, estudante Matemática

Concluir a Licenciatura em Matemática também exigiu organização e persistência para Maria Conceição, de 25 anos. Moradora de Bom Jardim, no Agreste de Pernambuco, ela precisava percorrer diariamente entre uma hora e uma hora e meia até o campus da UPE em Nazaré da Mata. Antes mesmo de entrar na universidade, já trabalhava como lojista e continuou conciliando emprego e graduação.

A rotina começava pela manhã no trabalho. Ao meio-dia, seguia para a universidade e só voltava para casa no início da noite. “Praticamente eu só chegava em casa para dormir. Trabalhava pela manhã, seguia para a universidade à tarde e voltava no início da noite. O maior desafio era encontrar tempo para estudar e continuar acompanhando as disciplinas.”

Sem restaurante universitário, a alimentação também se tornou um desafio. Segundo ela, as bolsas existentes não conseguem atender todos os estudantes que precisam do auxílio. Ainda assim, participou de monitorias, projetos de pesquisa e extensão para aproveitar todas as oportunidades oferecidas pela universidade.

Durante os quatro anos de curso, viu muitos colegas desistirem. A turma começou com mais de 30 estudantes e apenas cinco chegaram juntos ao fim da graduação.

“A nossa turma começou com mais de 30 alunos e agora só cinco vão concluir juntos. É muito triste ver as pessoas indo embora porque cada uma enfrenta dificuldades diferentes. A gente sempre tentava incentivar quem pensava em desistir.”

Filha de pais que não concluíram a educação básica, Maria diz que a formatura representa uma conquista coletiva. “Meus pais não conseguiram concluir os estudos e chegar até aqui representa muito para a nossa família. É a prova de que todo o esforço valeu a pena e que a educação pode transformar vidas.”