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Dia dos Avós: convivência com os netos fortalece afeto, memória e inclusão

Especialistas apontam que o convívio intergeracional fortalece a saúde emocional dos idosos e cria memórias afetivas para toda a família

Por Nicolle Gomes

Relação entre avós e netos é repleta de troca de experiências e afeto

O relógio marca 18h. Maria José, de 74 anos, prepara cachorro-quente. Os ingredientes são pão, carne moída e salsicha. O tempero é o amor. A comida é a maior demonstração afetiva dela para com os netos. Como tantas outras “vovós”, ela tem o dom de estreitar laços no ato de cozinhar. Essa é uma das características celebradas neste domingo (26), Dia dos Avós.

Quem não guarda na memória uma receita típica “de vó”? Quem nunca foi acusado de ser “criado com vó” após precisar de um dengo? A experiência acumulada ao longo dos anos, os conselhos e o cuidado cotidiano ajudam a construir o vínculo que muitos netos associam à figura dos avós. “É uma bênção de Deus. É viver mais feliz, é a melhor coisa do mundo”, afirma Maria José.

Ao todo, ela tem seis netos, mas convive diariamente com dois: Nicolle, de 23 anos, e Andrey, de 10. Para Maria, acompanhar de perto o crescimento deles é um privilégio renovado. Ao lado do marido, Aluísio Amorim, de 65, ela assume um papel especial na rotina e na família.

“Eu vivo o direito de ser mãe pela segunda vez, e é delicioso. A gente cuida, corre atrás para participar da criação e aproveita cada segundo. Eu curto meus netos e lembro do tempo dos meus filhos”, conta, com um sorriso no rosto.

Convivência

A sensação de utilidade relatada por Maria José reflete o impacto positivo dessa interação próxima. A terapeuta ocupacional especialista em gerontologia (campo que estuda as dimensões do envelhecimento humano e a velhice), Genaína Couto, explica que o convívio intergeracional atua diretamente na saúde mental, na cognição e no humor da pessoa idosa.

“Quando a pessoa idosa pode participar e ter mais vivência junto aos netos, ela evolui no desenvolvimento cognitivo, na memória e no aspecto emocional. Tem pacientes que, quando o neto chega, mudam completamente o semblante, saindo de um estado mais deprimido para um momento de muita alegria”, ressalta a especialista.

Genaína destaca, no entanto, que essa integração precisa respeitar a história de vida e a autonomia de cada indivíduo. Em vez de impor atividades, a família deve propor momentos significativos.

“Não é ocupar por ocupar. A atividade tem que fazer sentido para a pessoa idosa dentro das habilidades dela. Se ela sempre gostou de culinária, por que não chamar os netos para o preparo de uma comida especial, trabalhar a memória afetiva da família? Também vale rever álbuns de fotos antigos, ouvir música ou usar a tecnologia para interagir”, sugere a terapeuta ocupacional.

Maria José confirma na prática os benefícios desse pertencimento: “Me sinto útil. Essa aproximação me faz saber que sou importante para eles. Minhas melhores lembranças são de levá-los à escola, ir às apresentações e brincar. Poder vê-los crescer é uma alegria”.

 

Uma outra fase da vida

A fama de “mimar os netos” é assumida sem culpa por Maria. “Gosto de cozinhar, ajudar com as coisinhas deles. Fico esperando eles chegarem”, comenta.

Para o avô Aluísio, a chegada da nova geração renovou o sentido dos dias e permitiu viver a paternidade sob uma nova perspectiva. “Quando minha filha nos disse que estava grávida, foi uma felicidade imensa. Dá uma motivação maior para a nossa existência”, relembra.

No dia a dia, o “ser avô” assume inúmeras formas. Parceiro de futebol, cozinheiro, professor e até consultor de figurinhas, conta Aluísio. É aí que mora o encanto. Ele detalha, também, como é estar em uma fase da vida em que a idade vem acompanhada de mais tempo, experiência e novas oportunidades.

“Ser avô é poder ser pai novamente e me dedicar de uma maneira diferente, já que não pude estar tão perto dos meus filhos no passado por conta da rotina de trabalho”, pontua.

É na ternura e no acolhimento do convívio com os avós que surge a expressão do neto de Maria José e Aluísio. Andrey Gomes, de 10 anos, descreve como é ter essa referência de afeto.

“Eles são muito legais e divertidos, e sempre me ajudam. Minha parte favorita de viver com eles é quando eles fazem comida para mim”, afirma.

A terapeuta ocupacional, Genaína Couto, reforça que a sensibilização da família é fundamental para combater o distanciamento provocado pelas telas e pela rotina corrida, como um ganho para todas as gerações e famílias.

“É preciso sensibilizar muito a família, os netos e filhos, da importância dessa interação. Passeios, viagens em família, momentos em casa mesmo, em grupo, realmente criam memórias afetivas significativas”, conclui a especialista.

Por fim, entre o compartilhamento de saberes e receitas, brincadeiras, memórias resgatadas e a simplicidade do afeto diário, celebrar o Dia e a vida dos avós é também reafirmar o valor da presença e do cuidado no tempo.

“É lindo e maravilhoso acompanhar o crescimento dos netos e estar sempre por perto”, finaliza o avô Aluísio.