Aos 95 anos, Seu Paulino ainda dirige táxi e não pensa em parar: "Trabalhar é a minha vida"
Há 68 anos dirigindo pelas ruas do Recife, Seu Paulino nunca levou uma multa, criou os quatro filhos com o dinheiro do táxi e afirma que só deixará a profissão quando o Detran não renovar mais sua carteira de motorista
Todos os dias, sem despertador e sem a obrigação de cumprir horário, Otis Paulino da Silva deixa a casa onde mora, na Vila Popular, no bairro do Ibura, e segue para o ponto de táxi no Shopping Recife, em Boa Viagem, na Zona Sul da capital.
Aos 95 anos, ele poderia estar aposentado, descansando ao lado dos filhos ou apenas relembrando as histórias acumuladas ao longo de quase um século de vida. Mas prefere continuar fazendo o que aprendeu a amar há quase sete décadas: dirigir.
"Se eu ficar em casa, fico doente. Eu tenho que vir trabalhar. Eu viciei no meu trabalho", resume, sem hesitar.
A rotina é tranquila. Chega entre 8h e 9h da manhã, conversa com os colegas, aguarda os passageiros e encerra o expediente por volta das 17h. Não trabalha aos domingos nem durante a noite. Depois de sofrer um assalto, o único em toda a carreira, decidiu abandonar as corridas noturnas. Hoje aceita apenas viagens que considera seguras e compatíveis com os próprios limites. Adaptou a profissão à idade, mas jamais cogitou abandoná-la.
"Eu não pretendo deixar a carreira de taxista. Só depende do Detran. No dia em que disser que não renova mais minha carteira, aí eu paro."
É com essa simplicidade que Seu Paulino, como é conhecido por todos, se tornou muito mais do que um motorista. Aos 95 anos, carrega parte da história do Recife e da própria profissão de taxista em Pernambuco. Quando perguntam o segredo para chegar a essa idade ainda trabalhando, responde sem pensar: "Não beber, não fumar e ter uma alimentação equilibrada, sem exageros."
Uma profissão que começou em 1958
Muito antes de dirigir pelas ruas da capital, Seu Paulino trabalhava como serralheiro. Foi desse ofício que saiu para realizar um antigo sonho. "Minha vontade mesmo era dirigir, comprar um carro para rodar. Sempre tive essa vontade."
Em 7 de maio de 1958, tirou a carteira profissional de taxista e nunca mais deixou o volante. "O primeiro carro que eu tive era de contrato. A gente comprava o carro e fazia as viagens. Depois veio o táxi, o taxímetro e, mais tarde, o mecânico."
Ao longo dos últimos 68 anos, acompanhou praticamente todas as transformações da profissão e da cidade. Viu ruas mudar, avenidas crescer e os carros se modernizar. Presenciouu a retirada dos rádios comunicadores, assistiu à evolução dos taxímetros, à chegada dos cartões de crédito, ao Pix e, mais recentemente, ao crescimento dos aplicativos de transporte.
"É muita mudança. Antigamente era mais prático para a gente. Hoje mudou muita coisa." Mesmo reconhecendo que a tecnologia facilitou parte do trabalho, admite que sente saudade dos tempos mais simples.
"A gente vai lidando. Tem passageiro que coloca o aplicativo dizendo por onde quer ir. Às vezes conheço um caminho melhor, mas não digo nada para não criar problema."
A adaptação às novas tecnologias veio naturalmente. "Hoje eu já aceito Pix. No começo achava ruim, mas depois entendi que o dinheiro cai direto na conta. Ficou melhor."
O motorista que nunca recebeu uma multa
Entre tantas histórias acumuladas ao longo da carreira, uma impressiona até os colegas. Em quase sete décadas dirigindo diariamente, Seu Paulino nunca recebeu uma multa de trânsito. Também afirma nunca ter se envolvido em acidentes graves. Para ele, o segredo está na prudência.
"Eu procuro sempre fazer o certo. Hoje você dirige mais pelos outros do que por você. O trânsito ficou muito violento."
Sobre a chegada dos aplicativos de transporte, reconhece que a rotina mudou. "Hoje pegamos menos passageiros, mas os pontos exclusivos de táxi continuam sendo importantes para manter a profissão."
Exemplo para a família e os colegas
Durante os 68 anos de profissão, Seu Paulino não construiu apenas uma carreira. Foi atrás do volante que sustentou a família e acompanhou o crescimento dos quatro filhos, todos formados e empregados.
Com um deles, divide outra paixão: a produção de mangas para exportação. "A gente tem oito mil pés de manga. Agora, em novembro, exportamos 60 toneladas."
Há cinco anos, perdeu a esposa, companheira de uma vida inteira. Desde então, encontrou no trabalho uma forma de amenizar a saudade. "Sinto muita falta dela. Por isso não fico nem em casa."
Quem divide o ponto de táxi com Seu Paulino sabe que ele é muito mais do que o motorista mais experiente. É uma referência. "Ele inspira em tudo. Se você perguntar sobre a história do Recife, da época dos bondes, da Ponte Giratória ou das ruas antigas, ele explica tudo", afirma o taxista Sinecly Severino dos Santos, que trabalha na profissão há 10 anos.
Aos 95 anos, Seu Paulino continua chegando ao ponto quase todos os dias. Não porque precise. Mas porque, para ele, dirigir nunca foi apenas um trabalho. Tornou-se um modo de viver.