° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Moradores relatam seus dramas em audiência pública da dragagem do Rio Beberibe

Moradores relatam mortes, perdas materiais, doenças e falta de infraestrutura durante audiência pública que discutiu projeto de dragagem e urbanização da bacia do Rio Beberibe, entre Olinda e Recife

Por Cadu Silva

Audiência Pública da dragagem do Rio Beberibe aconteceu no Mercado Eufrásio Barbosa

A falta de drenagem, saneamento básico e obras estruturais em áreas cortadas pelo Rio Beberibe voltou a ser alvo de críticas de moradores durante audiência pública realizada nesta quinta-feira (2), no Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda.

O encontro realizado pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) discutiu o Projeto de Urbanização de Peixinhos/Olinda e a Dragagem do Rio Beberibe, dentro do Programa Periferia Viva, que prevê intervenções em comunidades de Olinda e Recife.

Durante a reunião, moradores relataram anos de perdas materiais, alagamentos constantes, dificuldades de acesso a serviços públicos e sensação de abandono por parte do poder público.

Alagamentos recorrentes e sensação de abandono

“Nada mudou. Continua a mesma sujeira, a mesma cheia, o mesmo abandono”, desabafa Ana Maria, 53 anos, moradora da comunidade Jiquiriti, em Peixinhos, que convive diariamente com problemas de infraestrutura, alagamentos e abandono do poder público. Segundo ela, a comunidade sofre com canaletas abertas, ruas inundadas e falta de manutenção.

“É um descaso total. As canaletas ficam abertas e até um vizinho morreu depois de cair e bater a cabeça. Quando dizem que vão fazer alguma coisa, é só paliativo. Quem acaba fazendo os reparos somos nós, moradores, comprando areia e cimento”, relata.

Ela conta que, durante as chuvas, as ruas ficam completamente alagadas, impedindo a circulação dos moradores e causando prejuízos.

“Já perdi móveis e alimentos por causa da água. As crianças não conseguem ir para a escola e aparecem ratos, baratas, escorpiões e muriçocas. Só quem mora aqui sabe o que a gente passa.”

Ana Maria lembra que chegou a enfrentar uma enchente enquanto fazia tratamento contra um câncer de mama.

“Há 13 anos, eu estava em tratamento contra o câncer de mama e precisei sair de casa com água acima dos joelhos para não perder uma consulta. Foi muito difícil, mas eu não podia faltar porque sabia como era complicado conseguir aquele atendimento.”

Criando o neto, de 15 anos, desde os três meses de vida, ela afirma que o medo se repete a cada inverno.

“Quando começa a chover, ninguém dorme. A gente fica esperando a água entrar em casa. O que eu espero é conquistar uma moradia digna e ver obras de drenagem que realmente resolvam o problema da comunidade.”

Moradora da comunidade do Embalo há 15 anos, Angélica Leite, de 39 anos, afirma que convive com alagamentos frequentes e diz que, apesar das promessas, os problemas de drenagem e limpeza dos canais nunca foram solucionados.

“Entra governo, sai governo e a situação continua a mesma. A gente perde tudo quando o rio enche. Já perdi barraco, hoje moro de aluguel e continuo lutando por uma moradia digna. O que fazem é só paliativo, enquanto a população continua vivendo na lama”, desabafa.

Segundo ela, a falta de infraestrutura também traz riscos à saúde.

“Quando chove, o lixo fica boiando e a água invade as casas. Já tivemos vizinhos que adoeceram e até morreram por causa da leptospirose. A população grita por socorro, mas nada muda.”

 

Para ela, a audiência pública precisa resultar em medidas concretas.

“A gente quer solução para a drenagem, para as famílias que vivem às margens do rio e uma moradia digna. Não dá mais para viver sem dormir quando começa a chover, com medo de perder o pouco que a gente tem.”

Moradora da comunidade de Aguazinha há cinco anos, Gina Carla, de 47 anos, afirma que a falta de drenagem, limpeza urbana e infraestrutura faz com que a comunidade enfrente os mesmos problemas a cada período de chuva.

“A minha luta não é só pela moradia, mas também pela drenagem do Rio Lava Tripa. O que fazem é apenas um paliativo. Estão asfaltando um trecho, mas falta limpeza urbana, drenagem de verdade, iluminação e o lixo continua acumulado”, relata.

Segundo ela, quando o canal Lava Tripa transborda, os alagamentos atingem tanto os prédios quanto as casas da Estrada de Aguazinha.

“Já teve apartamento térreo inundado e muitas famílias ficam ilhadas. A limpeza acontece de vez em quando e não resolve. Sem saneamento e manutenção constante, o problema continua.”

Gina também destaca que a falta de iluminação aumenta a sensação de insegurança e afirma que a situação permanece a mesma há anos.

“Tenho 47 anos, conheço essa região desde criança e, nesses cinco anos morando aqui, não vi mudança nenhuma. Continua a mesma sujeira, os mesmos alagamentos e a mesma dificuldade. Passa eleição, fazem um paliativo e depois tudo volta a ser como era.”

Ela também defende a dragagem do Rio Beberibe, afirmando que os problemas já provocaram tragédias na região.

“Já perdemos pessoas por causa das cheias. Todo inverno a gente vive com medo de acontecer de novo. O que eu espero dessa audiência é que saiam soluções de verdade: drenagem, asfalto, iluminação, limpeza e moradia digna para quem vive aqui.”

Audiência Pública

A audiência pública faz parte do processo de licenciamento ambiental do Projeto de Urbanização de Peixinhos/Olinda e Dragagem do Rio Beberibe, dentro do Programa Periferia Viva.

O projeto cobre uma área de aproximadamente 5,5 km, da foz do rio até a Ponte Monteiro, em Olinda, atingindo também áreas do Recife.

Segundo o Presidente da CPRH, José Anchieta dos Santos, o objetivo é melhorar o escoamento da água e reduzir as enchentes que atingem a região há décadas.

O projeto prevê uma série de intervenções estruturais e urbanas na bacia do Rio Beberibe, incluindo a dragagem do rio, com ampliação da capacidade de escoamento da água e aprofundamento do leito, além da requalificação das margens e recuperação de áreas de preservação permanente.

Também estão previstas ações de recuperação da mata ciliar, considerada essencial para conter erosões e ajudar no controle das enchentes.

Além disso, o plano contempla melhorias em saneamento básico, drenagem urbana e infraestrutura das comunidades que vivem no entorno do rio, muitas delas afetadas historicamente por alagamentos. O projeto também prevê o reordenamento urbano das margens, com possível retirada e reassentamento de famílias que vivem em áreas de risco.

De acordo com a CPRH, a proposta ainda inclui intervenções habitacionais, com foco na urbanização das comunidades, melhoria das condições de moradia e redução da vulnerabilidade social nas áreas atingidas pelas cheias.

O projeto tem investimento total estimado em mais de R$ 500 milhões, dividido em etapas.

A primeira fase conta com cerca de R$ 148 milhões, com recursos do Tesouro Estadual. Essa etapa inclui ações de dragagem inicial, recomposição ambiental e intervenções nas margens do rio. A segunda fase deve contar com recursos do Governo Federal, por meio do Programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades, e inclui ações habitacionais, reassentamentos e urbanização das áreas atingidas.

Após a audiência, a população terá 10 dias úteis para enviar sugestões e contribuições ao projeto por e-mail à CPRH.

Depois disso, o órgão ambiental vai analisar o material e emitir um relatório técnico para concessão da licença prévia. Em seguida, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedu) deve concluir o projeto executivo, etapa necessária para a emissão da licença de instalação e início das obras.

Conforme a CPRH, o processo pode avançar em cerca de um mês após essa análise, com possibilidade de assinatura de contrato e ordem de serviço.

“Novo momento” para o Beberibe

O secretário executivo de Desenvolvimento Urbano, Francisco Senna, afirmou durante a audiência que o projeto representa uma das maiores intervenções já planejadas para a bacia do Rio Beberibe.

Segundo ele, a dragagem vai ampliar a capacidade de escoamento do rio e reduzir os alagamentos.

“O projeto prevê dragagem do rio, recuperação da mata ciliar e requalificação das margens. A população está sendo ouvida nesse processo”, afirmou.

Ele também destacou que intervenções emergenciais já estão em andamento, mas reforçou que a obra principal deve trazer mudanças mais profundas.

“A expectativa é que, após a licença, em cerca de um mês a gente já possa assinar contrato e dar ordem de serviço”, disse.