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Usuários da Linha Sul do Metrô do Recife sofrem com longa espera: "Todo dia tem atraso"

Com apenas quatro trens em circulação na Linha Sul, passageiros enfrentam esperas de até 30 minutos, viagens mais longas e problemas de infraestrutura; Reportagem do Diario de Pernambuco acompanhou a rotina dos usuários na Estação Joana Bezerra

Por Cadu Silva

Usuários da Linha Sul do Metrô do Recife na estação Joana Bezerra

A rotina de quem depende do Metrô do Recife segue marcada por atrasos, longas esperas e incertezas. Neste terça-feira (30), um dia após a paralisação total da Linha Sul por cerca de sete horas, o sistema voltou a operar, mas com restrições.

Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), apenas quatro composições estavam em circulação no ramal, número mínimo necessário para manter o serviço funcionando.

Com a frota reduzida, o intervalo entre os trens, que normalmente é de cerca de 15 minutos, passou para entre 25 e 30 minutos. A operação limitada provocou novos transtornos para milhares de passageiros que utilizam diariamente o sistema.

A equipe de reportagem esteve na Estação Joana Bezerra, um dos principais pontos de integração do sistema metroviário da Região Metropolitana do Recife, e acompanhou de perto os impactos da operação reduzida.

Do momento em que a reportagem chegou à plataforma até a saída do primeiro trem com destino a Cajueiro Seco transcorreram aproximadamente 25 minutos.

Além da demora, uma das escadas rolantes da estação estava sem funcionar, obrigando passageiros a utilizarem as escadas fixas.

Durante a permanência da reportagem no local, outro fato chamou a atenção: três pessoas, dois homens e uma mulher acessaram a plataforma caminhando pelos trilhos, prática proibida e considerada extremamente perigosa devido ao risco de atropelamento e de choque elétrico.

“Todo dia tem atraso”

Entre os passageiros que aguardavam na plataforma estava o trabalhador Carlos Gonzaga, de 58 anos. Usuário do metrô de segunda a sexta-feira, ele afirma que os atrasos já fazem parte da rotina.

“Todo dia tem atraso. O metrô não oferece uma qualidade de serviço que garanta que a gente chegue ao destino no horário planejado. A gente sai de casa duas horas antes, às vezes duas horas e meia. Tem gente que sai até três horas antes para tentar chegar ao trabalho.”

Morador de Olinda e trabalhador em Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, Carlos conta que o deslocamento diário deveria durar cerca de uma hora, mas frequentemente leva duas horas e meia.

“Eu perco uma hora e meia por dia. O metrô foi feito para diminuir a distância, mas hoje faz justamente o contrário.”

Segundo ele, a lentidão das viagens é outro problema recorrente.

“Tem dia que o metrô anda a 15 quilômetros por hora. De bicicleta você chegaria mais rápido.”

O passageiro afirma que os problemas vão além das composições.

“As estações estão muito precárias. Falta investimento. Nós percebemos isso porque usamos o sistema todos os dias.”

Ao comentar a chegada do primeiro trem adquirido junto ao metrô de Belo Horizonte, Carlos diz que a expectativa é simples.

“Para nós não importa se ele é usado. O importante é que funcione. Se melhorar a operação, já será um grande avanço.”

Problemas antigos permanecem

Outro trabalhador, que preferiu não ser identificado, utiliza a Linha Sul há cerca de dez anos e afirma que as dificuldades atravessam diferentes gestões.

“Sempre foi assim. Nos últimos dez anos é atraso, parada e espera.”

Segundo ele, um dos problemas pouco discutidos é a falta de estrutura dentro das estações.

“Não existe banheiro na plataforma. Se a pessoa descer para usar o sanitário da integração dos ônibus, perde o acesso e precisa pagar outra passagem para voltar.”

Ele afirma que já presenciou situações extremas.

“Você fica aqui um tempo e vai ver gente fazendo necessidades nos cantos da plataforma. Isso acontece porque não existe banheiro para quem já entrou na área de embarque.”

Na avaliação do passageiro, o sistema deixou de oferecer condições mínimas de conforto.

“Quem mais sofre é o idoso, quem está doente, quem passa horas esperando. É o mínimo de dignidade.”

Quem depende do metrô sente mais

A demora também afeta quem utiliza o sistema para realizar tratamentos médicos.

Um passageiro de 40 anos, que também preferiu não se identificar, faz hemodiálise quatro vezes por semana no Hospital Português e utiliza o metrô para retornar para casa, em Boa Viagem.

“Sábado passado esperei mais de quarenta minutos pelo trem. Quando o metrô para, atrapalha tudo. Quem depende dele não tem alternativa.”

Ele afirma que o maior problema atualmente é a demora das viagens.

“O problema é o metrô mesmo. Falta manutenção. A passagem aumenta, mas a qualidade não melhora.”

Falta de planejamento e sucateamento

O estudante de Tecnologia da Informação (TI) Matheus Nunes, de 24 anos, utiliza diariamente a Linha Sul para estudar e trabalhar. Para ele, além da demora, falta organização na operação.

“Você chega e nunca sabe quando o trem vai sair. Não existe sincronização entre as linhas. Parece tudo improvisado.”

Com formação técnica em eletrotécnica, ele afirma perceber sinais claros de falta de manutenção.

“Você olha para as vias, para as subestações, para a estrutura. Está tudo muito sucateado.”

Na avaliação do estudante, a população acaba pagando o preço pela falta de investimentos.

“A pessoa trabalha o dia inteiro e ainda perde mais uma ou duas horas dentro do transporte. Isso não é dignidade.”

Expectativa pelos novos trens

Em meio às dificuldades enfrentadas diariamente pelos usuários, cresce também a expectativa pela entrada em operação dos novos trens adquiridos junto ao metrô de Belo Horizonte.

O primeiro deles chegou ao Recife em maio e passa por adaptações antes de entrar em circulação. As demais composições ainda devem ser transferidas para Pernambuco.

Embora reconheçam que os veículos são usados, muitos passageiros afirmam que o principal desejo é que eles consigam reduzir os atrasos e ampliar a oferta de viagens.