Treze anos após engorda, erosão volta a ameaçar a orla de Candeias, em Jaboatão
Com muros expostos às ondas e faixa de areia cada vez menor, população teme agravamento da erosão nos próximos anos. Estudos apontam agravamento da erosão ao longo dos anos
O receio de ver o mar avançando sobre calçadas e imóveis ainda faz parte da rotina de quem vive e trabalha na orla de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes. Treze anos após a realização da obra de engorda da praia, moradores e comerciantes convivem com a sensação de que a proteção está em seu prazo de validade. Em diversos pontos da orla, a erosão voltou a preocupar a população, que pede novas intervenções para conter o avanço do oceano.
Um estudo publicado em 2025 pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) ajuda a compreender os efeitos da principal obra de recuperação costeira já realizada no município. A pesquisa "Estudo da erosão marinha com base no projeto de engorda das praias de Barra de Jangada, Candeias e Piedade no município de Jaboatão dos Guararapes em Pernambuco", desenvolvido por Matheus Victor Tavares da Silva, concluiu que houve acúmulo de sedimentos nas praias analisadas após a execução do projeto de engorda.
A erosão marinha é uma preocupação antiga em Jaboatão dos Guararapes e, durante décadas, a perda gradual da faixa de areia reduziu o espaço da praia e aproximou o mar da infraestrutura urbana. Em alguns períodos, ressacas chegaram a ameaçar calçadões e edificações localizadas à beira-mar.
A resposta veio por meio do Projeto de Recuperação da Orla Marítima, que incluiu a engorda das praias de Candeias, Piedade e Barra de Jangada. A intervenção ampliou a faixa de areia e alterou a paisagem do litoral sul da Região Metropolitana do Recife.
Segundo o estudo do IFPE, a análise de imagens de satélite, visitas de campo e dados de geoprocessamento indicou que houve retenção de sedimentos nas áreas contempladas pela obra, sugerindo que a intervenção cumpriu o objetivo inicial de recuperar parte da praia perdida pela erosão.
Embora os resultados apontados pela pesquisa sejam positivos, a situação observada atualmente na orla demonstra que o desafio está longe de ser encerrado.
Treze anos após a engorda, moradores relatam que o mar voltou a avançar em alguns trechos da costa. A percepção de quem acompanha diariamente o comportamento das marés é de que parte dos ganhos obtidos com a obra foi sendo reduzida ao longo do tempo, principalmente em áreas mais vulneráveis.
“Já teve a engorda, já teve a solução da pedra para proteger as propriedades. Mas agora as pessoas estão com medo de que as ondas derrubem os muros, estão com medo de perder valor em suas propriedades. Os banhistas da praia também estão com medo de não ter mais areia num trecho de 2,5 km. Quem mora até o terceiro andar fica impressionado com o avanço do mar e deixa o apartamento. Eu sou um cara otimista, então acho que o setor público ainda fará algo aqui”, conta o arquiteto e urbanista Ângelo Arruda, que frequenta a área há 30 anos.
O próprio estudo ressalta que ambientes costeiros são dinâmicos e sofrem influência das ondas, correntes marítimas, marés e fenômenos climáticos. Por isso, pesquisas costumam destacar que a engorda não representa uma solução definitiva e é necessário monitoramento no local.
Promessa de intervenção ainda não saiu do papel
A preocupação com a erosão permanece tão presente que, em novembro de 2025, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha (Semas) anunciou apoio a um projeto emergencial para contenção do avanço do mar em Jaboatão dos Guararapes.
De acordo com o plano divulgado à época, a execução das obras caberia à Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes e previa intervenções em dois trechos considerados críticos da orla. O primeiro compreendia cerca de 250 metros entre o Residencial Candeias II e a Rua Major Médico Vicente Fonseca de Matos. O segundo abrangia aproximadamente 130 metros nas proximidades da Rua Gilberto Carlos Zazar, na divisa entre Candeias e Barra de Jangada.
Apesar do anúncio, moradores afirmam que nenhuma das intervenções previstas foi executada até o momento. Além disso, a ausência de obras tem preocupado empresários que dependem da orla para trabalhar, como Rosana Cabral, dona de um bar há 20 anos no local. Ela conta que vê a clientela diminuir à medida que o mar avança.
“Quando a engorda foi feita, eu consegui colocar 40 mesas na praia. Com isso, consegui empregar muito mais pessoas, porque eram mais funcionários na praia e, consequentemente, mais funcionários na cozinha. Então, todo mundo ganhava com isso. A partir do momento em que a praia foi diminuindo, eu comecei a reduzir o lucro e, consequentemente, o número de funcionários. Isso porque não consigo colocar tantas mesas na área da praia, que é onde os clientes gostam de ficar”, relata a empreendedora.
Monitoramento revela comportamentos distintos na orla de Jaboatão
Os efeitos da engorda da praia não ocorreram de forma uniforme ao longo da costa de Jaboatão dos Guararapes. É o que aponta a pesquisa "Avaliação da evolução da obra de regeneração das praias do município de Jaboatão dos Guararapes", desenvolvida por Cecília Bastos de Souza na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O estudo analisou o comportamento da faixa de areia em diversos trechos da orla e identificou áreas de avanço e de recuo da linha de costa mesmo após a execução da obra.
A pesquisa mostra que fatores como correntes marítimas, ação das ondas, influência da foz do Rio Jaboatão e a presença de formações recifais interferem diretamente na distribuição dos sedimentos ao longo da praia. Por causa dessa dinâmica, alguns setores conseguem reter mais areia, enquanto outros permanecem mais suscetíveis aos processos erosivos.
O trabalho também destaca que a erosão costeira continua sendo um dos principais desafios ambientais do litoral pernambucano. Ao citar levantamentos realizados no estado, a autora destaca que mais da metade da costa de Pernambuco já apresenta indícios de erosão marinha, um fenômeno que afeta especialmente áreas urbanizadas e densamente ocupadas, como a orla de Jaboatão dos Guararapes.
A pesquisa aponta que a manutenção do equilíbrio da praia depende de monitoramento permanente e da compreensão dos processos naturais que moldam diariamente a faixa litorânea.
O que diz a Secretaria Estadual de Meio Ambiente
A Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha informou que está dando continuidade aos estudos para a finalização do projeto e aguarda previsão orçamentária.
"Está em análise uma ação emergencial nos pontos críticos (3), no Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, no valor de R$ 7 milhões. O município está aguardando a liberação dos recursos", destaca a pasta.
Além disso, o governo do estado frisou que o projeto e o edital de licitação estão prontos. "Ao liberar, o prazo entre a licitação e o início das obras será de 3 meses. Além de uma camada de proteção de pedras, o projeto prevê escadas nas áreas críticas."