Tubarão cabeça-chata pode atacar em profundidade de apenas 50 centímetros, diz especialista
Espécie identificada como cabeça-chata, responsável pelo ataque em Piedade, consegue se aproximar da faixa de areia mesmo em áreas rasas; maré alta e água turva aumentaram o risco no local, aponta especialista
Um tubarão pode se aproximar da praia e atacar mesmo em áreas com apenas 50 centímetros de profundidade. O alerta foi feito pelo engenheiro de pesca e pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Paulo Oliveira após o incidente envolvendo um menino de 11 anos na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife.
Segundo o especialista, a pouca profundidade da água não impede a presença do animal e pode transmitir uma falsa sensação de segurança aos banhistas.
A declaração ganha relevância porque, segundo as informações, a vítima estaria em uma área considerada rasa quando foi atacada, com a água na região da cintura. A partir da análise das marcas deixadas no garoto, pesquisadores confirmaram que o incidente envolveu um tubarão-cabeça-chata, espécie conhecida por circular próximo à costa e que, segundo estimativas, tinha cerca de 2,5 metros de comprimento.
“Se o tubarão tem cerca de 50 centímetros de altura e existe essa profundidade disponível, ele consegue se deslocar. Não existe uma profundidade mínima para a ocorrência de incidentes”, explicou o pesquisador, em entrevista à TV Guararapes.
A identificação da espécie também ajudou a esclarecer as circunstâncias do ataque. De acordo com Paulo Oliveira, a combinação de maré alta, água turva provocada pelas chuvas e a proximidade do estuário do Rio Jaboatão criou condições favoráveis para a aproximação do animal.
De acordo com ele, o tubarão-cabeça-chata vive naturalmente em áreas estuarinas e costuma ser encontrado nas proximidades de rios que desembocam no mar.
A Praia de Piedade está localizada próxima ao estuário do Rio Jaboatão, ambiente considerado adequado para a presença da espécie.
“O tubarão-cabeça-chata ocorre comumente em regiões estuarinas e nas suas proximidades. Esses animais vivem nessa região e costumam nadar para além do estuário”, afirmou.
Paulo explica que a espécie possui uma característica rara entre os grandes tubarões: consegue viver tanto em água salgada quanto em água doce, o que amplia sua área de circulação.
Animal tem comportamento investigativo
Outro aspecto destacado pelo pesquisador é o comportamento investigativo da espécie. Segundo ele, o cabeça-chata costuma se aproximar para identificar movimentações na água, principalmente em ambientes onde a visibilidade está comprometida.
“Eles são muito investigativos. Em condições de água turva, conseguem perceber aquilo que está na água mesmo sem serem vistos”, explicou.
Essa característica faz com que períodos de chuva e águas barrentas exijam atenção redobrada dos frequentadores das praias.
De acordo com Paulo, o momento do incidente reunia diversos fatores considerados de risco. Além da água turva, a maré estava cheia, aumentando a quantidade de água disponível próximo à faixa de areia.
“Na condição em que ocorreu o incidente, nós tivemos um horário de maré muito alta. Isso favorece a aproximação do animal da costa”, destacou.
O pesquisador afirma que esses fatores devem ser observados pelos banhistas antes de entrar no mar.
As fases da lua também influenciam diretamente as condições do mar.
Conforme o especialista, períodos de lua cheia e lua nova provocam marés mais intensas, fazendo com que a água avance ainda mais sobre a praia.
“Quando a maré cheia ocorre durante a lua cheia ou a lua nova, a quantidade de água é maior e a possibilidade de aproximação dos tubarões também aumenta”, afirmou.
Exemplar adulto era potencialmente mais perigoso
A análise das mordidas indica que o animal envolvido no incidente tinha aproximadamente 2,5 metros de comprimento. Se tratando de um exemplar adulto.
“No tubarão, de maneira geral, quanto maior o animal, mais agressivo ele tende a ser, principalmente em espécies como o cabeça-chata e o tigre”, explicou.
O que significa a placa de alerta
O especialista também chamou atenção para a necessidade de interpretar corretamente as placas instaladas ao longo da orla.
Segundo ele, quando a sinalização indica área de mar aberto, os riscos devem ser considerados seriamente.
“Não basta apenas ler a placa. É preciso entender o que ela significa. Em condições de maré cheia e água turva, o ideal é não entrar na água”, afirmou.
Apesar do novo incidente, Paulo Oliveira não defende a proibição do banho de mar.
Para ele, o caminho mais eficaz passa pelo fortalecimento do monitoramento científico e pela ampliação das ações de educação ambiental.
Segundo o pesquisador, um novo programa de monitoramento dos tubarões deve ser iniciado ainda neste mês por meio de uma parceria entre órgãos estaduais ligados ao meio ambiente, ciência e tecnologia.
“O mais importante é que as pessoas entendam os riscos e saibam utilizar a praia de forma segura”, concluiu.