° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Para alimentar a alma e a família, ex-detento vira cozinheiro e aposta no próprio negócio

Moisés Barbosa, de 42 anos, abandonou o tráfico de drogas, respondeu por seus crimes e agora tenta recomeçar vendendo lanches e marmitas com a esposa

Por Marília Parente

Moisés Barbosa aposta na paixão pela cozinha para empreender após período na prisão

As boas lembranças com a mãe iluminavam os dias mais sombrios do ex-detento Moisés Barbosa, 42 anos, no Presídio de Igarassu, onde cumpriu pena de 9 anos e seis meses em regime fechado pelos crimes cometidos no período em que esteve envolvido com tráfico de drogas. Foi com ela, no aconchego da cozinha de casa, que ele aprendeu, ainda menino, a cozinhar para alimentar o corpo e a alma. E quando os dois sucumbiam diante do horror vivenciado no sistema prisional não foram pistolas ou facas que o mantiveram seguro, mas panelas e colheres.

“Na cadeia, eu cozinhava para mim e os companheiros e eles gostavam da minha comida. Lá dentro, vendo gente sendo esfaqueada, vi que não queria aquilo para minha vida”, relata Moisés, sentado no sofá de sua pequena casa no bairro de Rio Doce, em Olinda, sob escuta atenta da esposa Lidiane, responsável pela ideia de abrir um negócio voltado para a produção e venda de quentinhas e lanches.

Por enquanto, o empreendimento funciona de maneira bem simples: Lidiane atende as ligações, recebe os pagamentos e repassa os pedidos para Moisés, que prepara as refeições. Em alguns dias, reconhece o casal, os clientes ainda não aparecem. Em outros, os pratos feitos e bem temperados de Moisés e seus lanches já começam a circular pelo bairro.

O casal sonha em conquistar o próprio veículo para poder transitar pela região com as refeições. “O que vem com facilidade também se vai com facilidade. Eu acredito em construção, não em mágica. Quando entrei em um relacionamento com ele, sabia que a sociedade e a família iriam julgar, mas eu apostei, porque acredito que não mudamos com palavras, mas com atitudes”, afirma Lidiane.

Conhecidos desde a época em que Moisés entrou no crime, os dois se reencontraram quando ele voltou ao bairro, após ter cumprido sua pena. Há cerca de dois anos, eles estão juntos e, desde outubro, também são sócios.

“Muita gente quando vê meus antecedentes criminais não quer dar emprego. A gente sai da cadeia e já sente a porta fechada, mas acho que todo mundo merece um voto de confiança. Minha esposa sugeriu abrir o negócio comigo e topei, porque é muito difícil arrumar trabalho”, conta.

Para o especialista em gestão empresarial do Sebrae, Cleto Paixão, o empreendedorismo representa uma possibilidade de reinserção social para egressos do sistema prisional que se deparam com a resistência do mercado de trabalho. “Quando você monta seu próprio negócio, quem te contrata normalmente não pergunta de onde você veio, porque está interessado no serviço ou na compra de um produto”, pontua.

De acordo com Paixão, abrir um negócio pode ser uma alternativa democrática e acessível para pessoas que desejam reconstruir a vida após o cumprimento da pena. Ele ressalta que o Sebrae oferece orientação gratuita para quem pretende empreender e lembra que a abertura de um Microempreendedor Individual (MEI), por exemplo, não exige a apresentação de antecedentes criminais.

“O microempreendedor individual é uma das coisas mais democráticas que existem. Você abre a empresa pela internet e ninguém pergunta quem você foi no passado. O que importa é o que você vai fazer daqui para frente”, afirma.

Para ele, apesar das dificuldades, é possível começar um negócio mesmo com poucos recursos, desde que haja dedicação e busca por conhecimento. “Não importa o teu passado. Olha para o futuro, vá atrás do seu futuro. Com disciplina, capacitação e vontade de crescer, é possível construir uma nova história”, diz.

Mudança que vem “do coração”

Sincero ao refletir sobre o passado, Moisés não nega as ilicitudes que cometeu e lembra com pesar do período em que se envolveu com o tráfico de drogas. “Meu pai foi embora quando eu tinha dois anos e minha mãe vivia de bicos. Eu precisava procurar dinheiro para manter a gente. Não deixava faltar nada em casa”, afirma.

Ele conta que, a despeito das necessidades materiais, sua mãe chegou a recusar receber alimentos comprados com o dinheiro do crime. Apesar disso, era ela a responsável por levar os alimentos que ele cozinhava na cadeia.

“Minha mãe só foi me ver depois de três anos e seis meses porque eu não queria ela naquele lugar. Tinha vergonha da humilhação de ela tirar a roupa, ser revistada, até espelho embaixo da roupa colocavam. Eu fui vendo que tinha errado muito, que aquilo não era a vida que eu queria”, narra.

Agora, ao ser questionado a respeito do motivo de sua mudança, ele atravessa o sofá com o olhar, em direção à esposa. “Acho que veio do coração. Tenho um coração bom, eu não sou ruim não. Fiz coisas ruins. Passei muito tempo pagando pelos meus erros e hoje quero viver diferente”, conclui.