Funase passa a oferecer aula de música para jovens em medida socioeducativa no Recife
Aulas de música começaram este ano em unidades da Funase no Recife
Começam com Xand Avião, emendam com Marília Mendonça e, depois, Alceu Valença e Toquinho. Rafaela*, de 17 anos, se reveza entre a flauta e a zabumba. As aulas de música na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) começaram há poucos meses, mas Rafaela já é considerada uma das mais habilidosas. “Eu aprendo muito rápido”, diz ela, usando uma touca de crochê rosa que também aprendeu a fazer ali.
Apesar de experiências anteriores de ensino de música na Funase, o projeto desta vez é mais ambicioso. As aulas estão sendo aplicadas no Complexo da Abdias da Funase, como é informalmente chamado o espaço que reúne quantro unidades no bairro do Bongi, Zona Oeste do Recife. A expectativa é ampliar para Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana, no próximo mês.
Rafaela considera as aulas um momento de esquecer dos problemas. Esquecer, por exemplo, dos momentos em que ela, que é uma pessoa transgênero, teve medo de ser encaminhada para uma unidade masculina.
“Tinha medo de acontecer alguma coisa comigo”, diz. A jovem só relatou nos últimos dias de internação provisória que se identificava como mulher, o que exigiu uma mobilização da equipe para garantir a transferência a uma unidade feminina, o que deu certo.
A jovem conhece bem a música que as ondas emitem quando quebram. Cresceu na comunidade Ilha do Maruim, em Olinda, no Grande Recife, localizada ao lado da Praia de Del Chifre. A comunidade é historicamente carente de urbanização, saneamento básico e serviços de lazer, o que contribui para que jovens ocupem seus dias na praia, entrando no mar e surfando, apesar das placas de alerta de ataque de tubarão.
A adolescente estava privada de liberdade na Funase quando um parente morreu após ser atacado por tubarão na praia. “A gente era próximo. Fiquei bem triste”, conta. É o tipo de lembrança que Rafaela tenta esquecer enquanto se reveza entre a flauta e zabumba.
As aulas
"Rafaela demonstra uma capacidade cognitiva diferente das demais. Ela pega tudo muito rápido, tem sensibilidade musical”, diz o professor de música Artur Silva.
Artur começou a trabalhar na Funase em 2015. No ano seguinte, iniciou o projeto de música no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Abreu e Lima, no Grande Recife.
"O início era concentrado em uma unidade só. Na época, tive a ideia de formar uma banda chamada Liberdade, que chegou a se apresentar e gravar um CD demo", diz Artur. "Agora, a gente atende toda a instituição. Meninos vêm de outras casas para as aulas aqui".
O projeto atualmente atende cerca de 40 socioeducandos. As aulas, com média de 2 horas cada, ensinam fundamentos básicos de ritmo, melodia e harmonia, percepção musical, técnica inicial de instrumento e de voz e execução de músicas simples.
"A música transcende espaços, né? Entra na classe média, alta, baixa, na comunidade, na favela", reflete o professor. "A gente propõe que eles possam ser vistos de maneira positiva e levar isso para vida externa, porque chegam aqui em um contexto negativo", comenta.
"Já vi muito adolescente na Funase que tinha condição de tocar em uma banda, de se apresentar em um barzinho, de ter aquilo como uma fonte de recurso financeiro para tocar a vida", comenta Artur.
Ele, inclusive, diz já ter ouvido comentários maldosos por se dedicar a jovens do sistema socioeducativo. "Eu, enquanto educador, fiz um juramento. A minha formação me diz que a educação pode transformar uma pessoa. E eu preciso entender que aquele adolescente é uma pessoa em construção e precisa ter um apoio", explica.
A sala é simples e os instrumentos são escassos. O professor sonha com um saxofone e pede a todos doações de mais instrumentos.
A coordenadora do Eixo de Cultura, Esporte e Lazer da Funase, Heveliny Sousa, diz que já foi feito o pedido para aquisição de instrumentos musicais e que os processos “estão bem encaminhados”.
Ela acrescenta que há planos para transformar a sala de aula em um espaço de ensaios e ampliar a participação dos socioeducandos e apresentações externas. "A música é uma ferramenta potente e pode ser um caminho de transformação", avalia Heveliny, que é natural de Belo Jardim, no Agreste, cidade famosa pela alcunha de Terra dos Músicos.
Na parede da sala de aula há uma frase com letras nas cores amarela, verde, vermalha e rosa: “A música te levará a lugares que você não conhecia”. Rafaela, que deve deixar a Funase ainda este mês, não parou ainda para pensar se pretende seguir envolvida com música. O único plano, a princípio, é ir a um lugar que conhece bem. “Assim que eu sair daqui quero ir à praia, quero tirar minhas mazelas”, diz.
*Nome fictício