Metroviários questionam trens de Belo Horizonte prometidos para o Metrô do Recife
Sindicato afirma que composições de Belo Horizonte têm mais de 30 anos de uso e cobra transparência sobre aquisição e processo de concessão do sistema
O Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE) denunciou nesta terça-feira (28) a aquisição de seis trens usados para o Metrô do Recife e questionou o valor de cerca de R$ 60 milhões previsto para a compra das composições oriundas de Belo Horizonte. Segundo a entidade, os equipamentos têm mais de 30 anos de uso, utilizam tecnologia considerada obsoleta e podem voltar futuramente para a mesma empresa interessada na concessão do sistema metroviário da capital pernambucana.
A denúncia foi apresentada após audiência pública promovida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Recife, para discutir o modelo de concessão da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU).
De acordo com o Sindmetro, inicialmente foi informado que seis trens do metrô de Belo Horizonte seriam adquiridos por aproximadamente R$ 60 milhões. O sindicato afirma haver indícios de que essas mesmas composições teriam sido negociadas anteriormente por valores próximos de R$ 2 milhões por unidade, o que motivou pedidos de esclarecimento por meio da Lei de Acesso à Informação.
“Segundo: esses trens de Belo Horizonte teriam sido inicialmente negociados com um ferro-velho. Depois do interesse da CBTU Recife na aquisição, a Comporte desfez essa negociação, deixou o acordo com o ferro-velho de lado e celebrou uma nova negociação com a CBTU, elevando esses valores”, afirma o vice-presidente do Sindmetro, Thiago Mendes.
Documentos obtidos junto ao Ministério das Cidades e à própria CBTU confirmam que os trens pertencem à frota da Companhia Brasileira de Material Ferroviário (COBRASMA) série 900, fabricada entre 1980 e 2000.
O parecer técnico da Gerência Operacional de Material Rodante e Oficinas da CBTU Recife informa que a antiga frota do Metrô de Belo Horizonte era composta inicialmente por 25 trens, restando atualmente 20 em operação, dos quais 14 passam por modernização e seis serão retirados gradualmente da operação comercial.
Segundo o relatório, os trens inspecionados apresentam quilometragem entre 1,7 milhão e 3,4 milhões de quilômetros rodados. Apesar de o documento apontar que as composições estão em “bom estado geral de conservação e operacionalidade”, também registra limitações técnicas para operação no Recife.
Entre os principais pontos estão os motores de corrente contínua, classificados como tecnologia obsoleta e mais suscetíveis a falhas por curto-circuito, especialmente em ambientes de alta umidade. O parecer destaca que, como a umidade relativa do ar em Recife é superior à de Belo Horizonte, a expectativa é de maior índice de falhas nesse sistema.
Outro problema apontado envolve os moto conversores (MCVR), responsáveis pelo suprimento elétrico auxiliar. O documento informa que esses equipamentos apresentam baixa confiabilidade operacional, histórico de falhas recorrentes e dificuldade de reposição de peças por estarem tecnologicamente defasados.
As composições também não possuem ar-condicionado no salão de passageiros. Durante a vistoria técnica, a CBTU registrou que a ventilação foi considerada aceitável em Belo Horizonte em horário de menor movimento, mas o relatório ressalta que, nos horários de pico e nas condições climáticas de Recife, o desempenho pode não ser satisfatório.
Além disso, o sistema de Controle Automático de Trens (ATC) não é compatível com o utilizado no Recife. Para que os veículos possam operar comercialmente, será necessária a substituição do equipamento de bordo, com custo estimado em R$ 3 milhões por trem, segundo atualização baseada em proposta anterior apresentada ao metrô mineiro.
O parecer técnico conclui pela viabilidade da utilização dos trens, mas afirma que a solução deve ser considerada transitória, destinada a ampliar a oferta operacional no curto e médio prazo até a chegada de novas composições. O documento também recomenda fornecimento de peças sobressalentes e manutenção assistida com apoio técnico da equipe de Belo Horizonte.
Concessionária
Outro ponto levantado pelo sindicato envolve o Grupo Comporte, responsável pela operação do metrô de Belo Horizonte e apontado como possível interessado na futura concessão da CBTU Recife. O Sindmetro questiona o fato de o sistema mineiro ter sido adquirido pelo grupo por cerca de R$ 26 milhões e, agora, seis composições desse mesmo sistema estarem sendo vendidas ao governo federal por aproximadamente R$ 60 milhões.
A entidade afirma que a eventual participação da empresa no futuro leilão da concessão do metrô do Recife pode fazer com que os mesmos ativos retornem ao controle privado após serem adquiridos com recursos públicos.
Na denúncia, o sindicato cobra mais transparência sobre os critérios da compra, a justificativa técnica da operação e os impactos para os usuários do sistema, que atualmente enfrentam problemas recorrentes como atrasos, redução de frota e superlotação.
O Diario de Pernambuco entrou em contato com a CBTU e aguarda retorno.