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Replantio de mangue se fortalece no Recife com trabalho iniciado na Ilha de Deus

Há mais de duas décadas, Josemir Pedro e pescadores recolhem mudas e replantam áreas degradadas para preservar o manguezal que sustenta a Ilha de Deus e outras áreas do Recife

Por Adelmo Lucena

Josemir acorda cedo diariamente para plantar mudas de mangue

Há mais de duas décadas, enquanto a maré seguia trazendo lixos e sinais de degradação para dentro da Ilha de Deus, no Recife, o pescador Josemir Pedro da Silva, de 52 anos, decidiu fazer o caminho contrário e devolver vida ao mangue. Conhecido na comunidade como “Novo”, ele e os pescadores que ali vivem combatem o desaparecimento do mangue vermelho todos os dias na comunidade.

Desde o início dos anos 2000, Josemir passou a recolher mudas, replantar áreas degradadas e mobilizar moradores para proteger um ecossistema que sustenta a paisagem da cidade e a sobrevivência de centenas de famílias que dependem diretamente da pesca.

Essencial para o equilíbrio ambiental, o mangue funciona como berçário natural para diversas espécies marinhas, ajuda na contenção de enchentes, protege o solo contra erosões e atua como filtro natural das águas.

No Recife, cidade cercada por rios e marcada pela relação com os estuários, os mangues também ajudam a frear os impactos das mudanças climáticas e das marés urbanas. Segundo dados de mapeamento do governo federal, atualizados em março deste ano, a capital pernambucana possui cerca de 324 hectares de manguezais.

A Ilha de Deus, localizada na Zona Sul do Recife, entre os bairros do Pina e da Imbiribeira, está inserida no encontro dos rios Pina, Jordão e Tejipió, em conexão com a Bacia Hidrográfica do Pina. O território forma um estuário e abriga um dos maiores mangues em área urbana do mundo, com cerca de 212 hectares de vegetação preservada. Cerca de duas mil pessoas vivem na comunidade, cuja história está diretamente ligada à pesca, à coleta de mariscos e sururu, à criação artesanal de camarão e à vida construída sobre a lama.

Hoje, a Ilha de Deus também abriga um viveiro de produção de mudas do projeto Viva Mangue, iniciativa de recuperação ambiental que ampliou para outras áreas da cidade um trabalho que a comunidade já realizava muito antes de qualquer estrutura institucional.

Foi observando as águas dos rios e o mangue que Josemir percebeu que algo estava mudando. Antes mesmo da urbanização da comunidade, iniciada em 2007, ele observava que o mangue vermelho, também chamado de mangue gaiteiro, estava desaparecendo e que o lixo trazido pela maré impedia a renovação natural da vegetação.

“Por volta dos anos 2000, eu estava no mangue, local onde eu medito, quando eu vi um ‘charuto’ boiando. Fiquei me perguntando porque tudo estava boiando”, relembra. O “charuto”, como ele explica, é a unidade de dispersão e germinação das árvores do mangue, uma espécie de semente alongada que deveria cair e se fixar naturalmente na lama para gerar uma nova árvore.

O que deveria afundar e crescer estava sendo interrompido por sacolas plásticas e resíduos arrastados principalmente pela maré da Zona Sul do Recife. O mangue vermelho, essencial para a reprodução de peixes e crustáceos, começou a desaparecer diante dos olhos de quem depende dele para viver.

“O mangue gaiteiro está sumindo e muitos biólogos não olham isso, apenas quem verdadeiramente vive do mangue, vive da natureza. Quem vive percebe que está havendo uma mudança”, afirma Josemir.

Na Ilha de Deus, a mudança ameaça a economia e a sobrevivência de centenas de famílias. Cerca de 80% dos moradores vivem da pesca, e a degradação do manguezal significa menos peixe, menos caranguejo e menos renda.

“Se o mangue vermelho não crescer, a tendência é que os peixes não se reproduzam. Os peixes procuram os locais para desovar, porque o mangue gaiteiro é onde tem aquelas raízes que formam pequenas cavernas”, alerta Josemir.

Foi a partir dessa constatação que ele começou a mobilizar os próprios alunos da escolinha de futebol e outros moradores da ilha para proteger o futuro da própria comunidade.

Antes mesmo da criação do projeto Viva Mangue, Josemir e outros moradores já faziam o reflorestamento manualmente, sem apoio institucional. “Nós somos uma comunidade basicamente formada por pescadores. Se nós, pescadores, não cuidarmos dos rios, dos mangues, como é que nós iremos sobreviver?”, destaca.

A rotina começa cedo e às 7h30 os pescadores já estão entre as mudas, preparando sacos com lama, separando sementes e organizando o plantio que segue até o fim da tarde. O trabalho é repetitivo, mas, segundo ele, já apresenta resultados. “A maior parte é tentar conscientizar. É um trabalho árduo, longo, mas nós temos esperança. Já estamos vendo muito resultado. Mesmo com a água barrenta, está vindo muito peixe”, afirma Josemir.

Expansão do trabalho

O retorno da fauna é um dos sinais mais importantes para os pescadores. Espécies que haviam desaparecido começam a reaparecer, e o mangue plantado anos atrás já alcança outros pontos da cidade. O trabalho que começou na Ilha de Deus hoje chega a áreas como Graças, Parque da Aurora, Santa Joana Bezerra, Cais do Pina, Ponta do Pina, Jiquiá e outros trechos da capital.

Mesmo assim, Josemir insiste que nenhuma ação será suficiente sem mudança de comportamento fora da ilha. Afinal, a maré devolve diariamente o retrato da cidade. “As pessoas devem ter mais consciência porque a natureza se reconstrói por si só, mas não está conseguindo devido à poluição. Todo o lixo da Zona Sul vem para cá por meio da maré.”

Ao lado de Josemir, acompanham o trabalho de replantio do mangue o filho Júnior Pedro, de 30 anos e o sobrinho Josemar Barros, de 39 anos, também pescador e criado na Ilha de Deus. Assim como o tio, ele sustenta a família por meio da pesca e viu de perto as mudanças que o manguezal sofreu ao longo dos anos.

Na casa dele, quatro pessoas dependem diretamente da maré e da saúde do mangue. Josemar explica que, durante anos, os pescadores acompanharam o desaparecimento de espécies e a redução da produção pesqueira sem necessariamente entender, de imediato, a relação entre isso e a degradação do manguezal. A percepção ocorreu à medida que o mangue vermelho desaparecia.

“A gente viu que estava se acabando devido aos mangues morrendo, principalmente o gaiteiro. E meu tio teve a ideia de pegar o mangue gaiteiro e plantar.”

A possibilidade de deixar a Ilha de Deus, no entanto, não faz parte dos planos. Para ele, a permanência no território está ligada à própria identidade. “Tem que ter projetos voltados para o mangue, porque é muito lixo no mangue. Se você fizer a caminhada, vai ver a quantidade de lixo”, alerta.

Entre os pescadores que hoje ajudam no replantio está também Adilson da Silva, de 47 anos, que integra o projeto Viva Mangue em 2024. Mesmo chegando nessa fase mais recente, ele já acompanhava de perto o trabalho de Josemir e da comunidade muito antes disso.

Ao falar sobre o projeto, Adilson reforça que o reconhecimento institucional veio depois de muitos anos de trabalho iniciado por Josemir de forma independente e com mobilização dentro da própria comunidade.

“Josemir já vinha de muitos anos, sem apoio de ninguém. Ele sempre olhava para esse lado, chamava os meninos que jogavam bola para replantar o mangue. Hoje em dia os meninos estão grandes e agora, graças a Deus, estão dando continuidade”, conta.