Arquiteto, pai de dois e poeta: quem era Gustavo Cauás, vítima de incêndio no Recife
Gustavo Cauás, de 46 anos, morreu na noite da última segunda-feira (19), na tentativa de resgatar a sobrinha de uma apartamento em chamas, em Casa Forte, na Zona Norte do Recife
Na noite da última segunda-feira (20), o arquiteto Gustavo Cauás, de 46 anos, morreu tentando resgatar a sobrinha, de 17, de um apartamento em chamas, no bairro de Casa Forte, na Zona Norte do Recife.
Os dois, contudo, não sobreviveram ao incêndio, que devastou o apartamento de número 304 do edifício de número 122 da Rua Samuel de Farias.
Gustavo vivia com a esposa e os dois filhos no primeiro andar do prédio. De acordo com Marcos Nunes, seu amigo e síndico do condomínio, ele não hesitou em encarar dois lances de escadas em direção à escuridão e à fumaça que já dificultavam o acesso ao imóvel em que moravam sua sobrinha, irmã e cunhado.
“A esposa dele pediu para ele não ir”, lamenta Marcos. Gustavo, contudo, seguiu no contrafluxo dos vizinhos, que àquela altura tateavam as paredes do prédio na tentativa de identificar a saída do corredor do terceiro andar.
Alguns deles chegaram a tropeçar e sofrer pequenas lesões durante a retirada do local. “Não dava para ver nada, a gente desceu segurando nas paredes. Teve gente que torceu o pé, se machucou”, comentou outra moradora, que acompanhava a entrevista da reportagem com o síndico.
Determinado a resgatar a sobrinha, Gustavo cruzou a escuridão em um último gesto de grandeza que reflete o cuidado e a sensibilidade com que conduziu sua trajetória de vida. Politizado, interessado em espiritualidade oriental e poeta, ele unia o apreço pelas atividades holísticas a ações beneficentes.
Também era conhecido pelo esmero em seus projetos de arquitetura, que assinava pelo escritório Cauás Engenheiros e Arquitetos Associados, localizado em Casa Forte.
Gustavo queria projetar casas e escritórios conectados com a natureza, influenciando aspectos como saúde, bem-estar e prosperidade através de aspectos como o cuidado com a posição do sol e a presença de elementos naturais.
Era, desta forma, adepto da Vastu Vidya, milenar arte e ciência védica indiana de arquitetura e design, focada em organizar espaços para estímulo do prana, conforme tal cultura denomina o que entende por energia vital.
Em contraposição a um mundo de imóveis excessivamente funcionais, seus projetos tratavam cor, som e vida como prioridade.
Pesar
Na última terça-feira (21), o Sindicato dos Arquitetos no Estado de Pernambuco emitiu uma nota de pesar pela morte de Gustavo.
No comunicado, a entidade lamentou a perda e destacou a trajetória profissional e pessoal do arquiteto, classificando-o como um “profissional de excelência”, professor e sócio de um escritório de referência.
O sindicato também ressaltou a atitude de Gustavo durante o incêndio, afirmando que ele “partiu como um herói” ao tentar salvar a sobrinha.
“Sua atitude final foi o reflexo da generosidade que sempre marcou sua trajetória pessoal e docente. Neste momento de imensa dor, o SAEPE se solidariza com a família Cauás, amigos, alunos e colegas de profissão. Que seu legado técnico e sua bravura sirvam de inspiração para todos nós”, diz a nota.