Após 13 anos de expectativa, moradores revivem drama às margens do Canal do Fragoso: "obra sem fim"
Obras do Canal do Fragoso, iniciadas há quase 13 anos e com investimento de quase meio milhão de reais, pioraram a vida dos moradores, segundo relatos feitos à reportagem do Diario de Pernambuco
“Obra sem fim”, “obra do descaso” e “elefante branco” são alguns dos termos utilizados por moradores de Olinda, no Grande Recife, ao se referir às obras de urbanização do Canal do Fragoso.
Passaram-se quase 13 anos e eles seguem sofrendo com os problemas dos alagamentos em períodos de chuva, mesmo com investimento de R$ 472 milhões.
Apesar das obras visarem a contenção de inundações, moradores que residem no entorno do Canal do Fragoso, principalmente no trecho próximo ao terminal de Casa Caiada, relatam que chegam a perder os móveis das casas por conta dos alagamentos do local
“Os próprios moradores daqui são o alarme para as inundações, pois não conseguimos dormir nesse período de chuva. Estou procurando casa para alugar nas redondezas, em um local que não alague”, destacou a massoterapeuta Andreia Neves, de 38 anos, que está abrigada na casa de uma “comadre”.
Segundo Andreia Neves, que reside na margem do Canal do Fragoso há cerca de 8 anos, os problemas do alagamento que invadiu sua residência são provocados por problemas de escoamento de águas pluviais e casos de transbordamento em trechos mais baixos ao longo do trajeto da bacia.
“Desde quando estreitaram o canal na entrada de Rio Doce, a água vai voltando para dentro da casa. Ela tem que ir para algum canto, então, está vindo para as nossas casas e transbordando em locais que são mais baixos. Essa obra deveria minimizar o transtorno, coisa que não está acontecendo”, destacou.
Os problemas com os alagamentos, que perduram anos, também afeta a vida de moradores de ruas que não estão nas margens do Canal, como é o caso do técnico em saneamento básico, Carlos Chaves, que reside na Rua Pedro Álvares Cabral há 34 anos.
“Toda essa água que faz com que a minha rua fique ilhada é em função da saturação do Canal do Fragoso. Não lembro quando foi que uma equipe da prefeitura [de Olinda] esteve lá para desobstruir de verdade as galerias”, conta.
“Como a água corre no sentido do canal, a proporção que o canal vai saturando, essa água vem dando retorno. Então, a nossa felicidade é que a chuva não foi ainda mais intensa. Ficamos à mercê do volume das chuvas”, explicou.
Apesar dos relatos, a Companhia Estadual de Habitação e Obras de Pernambuco (Cehab-PE) assegura que não houve transbordamento do canal na última terça (7).
O acúmulo de água teria sido registrado em pontos específicos de Jardim Atlântico é um fenômeno decorrente de uma característica topográfica da bacia, que conta com algumas edificações e ruas que estão instaladas em cotas (alturas) mais baixas que o nível do canal.
“Em momentos de chuva intensa combinada com maré alta, a rede de microdrenagem local encontra dificuldade física para escoar para dentro do canal, gerando acúmulo temporário nas ruas”, afirma trecho da nota da Cehab-PE.
Problemas na execução das obras
Outro relato comum entre os moradores entrevistados pela reportagem do Diario de Pernambuco é que as obras do canal foram feitas no sentido contrário ao que deveria, algo que acarretou o agravamento das inundações.
“Antes da obra, o máximo que acontecia era a rua ficar alagada, mas todo o transtorno, sofrimento e desgraça da população daqui da área começou depois da obra desse canal, que começou errada”, adianta Carlos Chaves.
“As primeiras chuvas fortes, em 2016, marcaram os grandes transtornos daqui”, completa.
O relato do morador coincide com a auditoria do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), de 2018, realizada após as fortes chuvas de 2016, na qual identificaram fragilidades na execução da obra, como falhas de projeto e planejamento, além de falta de cooperação entre os diversos órgãos públicos envolvidos no projeto.
A auditoria observou também que os serviços vinham sendo executados no sentido contrário ao que determinam as boas práticas construtivas para obras de macrodrenagem, neste caso, do Canal do Fragoso para a Ponte do Janga.
Isso fez com que, na época, houvesse um estrangulamento no escoamento das águas, acarretando no agravamento das inundações.
Além disso, o governo estadual, que investiu R$ 336 milhões nas obras, afirma que a construção de lagoas de retenção, previstas no projeto original de macrodrenagem, foram “excluídas em gestões passadas”, algo que dificulta a funcionalidade total do sistema.
Problemas com baronesas
Outro problema relatado pelos moradores é o acúmulo de baronesas (plantas bioindicadoras de poluição em ecossistemas aquáticos) nas áreas do canal próximas aos locais de obras.
Segundo o chaveiro Adson Santos, que trabalha há 30 anos no entorno da Bacia do Fragoso, essas baronesas dificultam o escoamento da água durante o percurso do canal, além da questão do aumento no número de mosquitos na localidade.
“Para piorar a situação do escoamento tem a questão das baronesas que se instalaram por aqui. Isso também dá uma freada na água que deveria correr. Isso acaba segurando a água e complica muito para a casa do pessoal e para os carros que trafegam”, explica o chaveiro, reforçando a preocupação com a dengue. “Aqui vira a casa dos mosquitos”, enfatizou.
Andamento das obras
De acordo com a Cehab-PE, as obras estão acontecendo na etapa 2A (Vias marginais e urbanização), localizado no trecho da PE-15 até a Ponte do Janga, e nas etapas 2B e 2C, que acontece em quatro novas pontes e trechos finais da obras.
O prazo é que a etapa 2A seja entregue no próximo mês, enquanto que as etapas 2B e 2C devem ser concluídas em dezembro de 2026.
“A Cehab-PE permanece com equipes em campo e segue à disposição da população de Olinda para garantir transparência e segurança em todas as etapas da intervenção”, finalizou a nota.