Após amputar perna por conta de câncer, atleta pernambucano trilha trajetória no esporte paralímpico
Jhonantan Gabriel teve que amputar sua perna direita com menos de dois anos por conta de um câncer. Apesar disso, ele vem se destacando em competições de ciclismo, futebol e até tênis de mesa
Até hoje no Brasil, o esporte é um dos meios mais rápidos para conseguir uma ascensão social, mas atingir esse patamar de reconhecimento exige uma superação de obstáculos ao longo dessa trajetória. E quando tratamos de esportes paralímpicos, esse caminho fica ainda mais árduo, por conta da falta de investimentos.
Todas essas dificuldades vêm sendo superadas pelo atleta Jhonantan Gabriel, de 11 anos, que segue trilhando um caminho esportivo no ciclismo, no futebol e até no tênis de mesa.
Superar obstáculos já é algo considerado “comum” para o jovem atleta de Jataúba, cidade do Agreste de Pernambuco. Com menos de dois anos, Jhonantan foi diagnosticado com um câncer na perna direita, que fez com que ele tivesse que amputá-la.
“Com um ano e três meses, ele estava chorando em casa e minha mãe sentiu um carocinho na coxa dele. No mesmo dia, levei ele ao hospital. Fizemos exames em que constataram que esse carocinho era de carne e fomos encaminhados para o ICIA [Instituto do Câncer Infantil do Agreste)”, relembrou a mãe do Jhonantan, Josivânia de Sousa.
No ICIA, foi constatado que aquele carocinho era um fibrossarcoma, um tumor maligno que se desenvolve nos tecidos fibrosos, geralmente da perna, do braço ou do tronco. Segundo Josivânia, Jhonantan ainda chegou a fazer um mês de quimioterapia, mas como o tumor estava crescendo com o tempo, os médicos decidiram pela amputação para evitar o processo de metástase.
"No dia que eles disseram que ia amputar a perna dele, eu fiquei desesperada, até passei mal lá no IMIP, pois estava com ele internado há dois meses. Porém, como foi tanto sofrimento que ele passou com esse tumor, chegando até desmaiar no momento em que faziam o curativo, eu passei até contar as horas para o médico fazer a amputação”, detalhou.
Josivânia lembra ainda que, após a amputação, voltar à rotina com Jhonantan foi um pouco complicado no início, principalmente nos momentos em que ele perguntava sobre a diferença dele para os demais amigos. Mas a vivência ativa dele fez com que o seu cotidiano fosse muito divertido, sendo a brincadeira em uma bicicleta com o primo o primeiro contato com o ciclismo.
“Ele sempre andava de bicicleta com o filho da minha prima e teve um dia que ele chegou lá em casa dizendo: ‘Mamãe, eu consegui andar de bicicleta. Depois disso, ele começou a andar na rua, com essas bicicletas de criança. Depois ele ganhou uma bicicleta melhor de um pessoal que faz ciclismo aqui na região. Com o tempo ele foi gostando, chegando a participar de sua primeira competição”, destacou.
Depois da primeira competição, o gosto pelo ciclismo deixou de ser apenas um divertimento e passou a se tornar uma prática esportiva, ao ponto de Jhonantan treinar, em média, três vezes por semana em uma estrada de terra batida que liga a zona rural de Jataúba à área urbana do município.
Esses treinamentos o levaram a competições em cidades de Pernambuco, Rio Grande do Norte e da Paraíba, sendo a última disputada neste fim de semana no Recife, no qual ele ficou em segundo lugar na categoria PCD, mesmo sendo o único da sua idade a disputá-la. “Meu sonho mesmo é ser ciclista e competir nas Paralimpíadas. Graças a Deus, toda vez que eu vou competir, fico no pódio e saio com a vitória. Agora é seguir treinando para ganhar mais”, explicou Jhonantan.
Antes mesmo das sapatilhas de ciclismo e das pedaladas na bicicleta, foi o futebol o primeiro contato de Jhonantan com o mundo dos esportes. Com o auxílio das muletas, ele se destaca no meio das outras crianças que treinam com ele em escolinhas de futebol e futsal em Jataúba.
“No começo foi ruim, porque eu não conseguia muito pegar a bola, ninguém tocava, mas depois eu fui me adaptando e hoje jogo tranquilamente com os meus amigos e sou o que eu sou hoje. Já consegui algumas medalhas em competições aqui na região, como Santa Cruz do Capibaribe e Brejo da Madre de Deus”, detalhou o garoto. Além dos próprios colegas da escolinha, o seu primeiro treinador ficou surpreso quando foi procurado, pois seria a primeira vez que trabalharia com um aluno com deficiência.
“Eu não sabia nem por onde começar, pois foi a primeira vez que tive um aluno com deficiência. E logo no primeiro treino fiquei surpreso com ele, pois ele já mostrava uma boa coordenação motora e uma técnica com a bola. É realmente surpreendente a forma como ele se adapta às dificuldades e consegue se sobressair e jogar praticamente de igual para igual com os outros”, enfatizou Jeferson Felipe, conhecido como Jefinho 7.
Atualmente, Jhonantan participa de treinos em duas escolinhas em Jataúba, sendo uma particular e a outra da prefeitura da cidade, com quatro atividades por semana, que se intercalam com os treinamentos de ciclismo. Além dessas modalidades, Jhonantan também representou Pernambuco nos Jogos Escolares Paralímpicos 2025, chegando até a etapa nacional do tênis de mesa, disputada em novembro do ano passado, em São Paulo.
Seja marcando pontos no tênis de mesa, fazendo gols no futebol ou pedalando quilômetros no ciclismo, Jhonantan mostra sua vontade de vencer dentro do esporte paralímpico, sendo inspiração para todas as pessoas. “Ele é um exemplo para qualquer atleta e qualquer ser humano, pois ele é um vencedor. Superação é a palavra dele, pois ele é um vencedor na vida. É muito satisfatório e gratificante poder trabalhar com o Jonathan”, afirmou Jefinho.
“Fico muito orgulhosa, porque, apesar da deficiência, ele não se limita a nada. Ele sempre quer estar lá e competir. Independente do resultado, vai lá e faz. Ele é meu orgulho”, finalizou a mãe de Jhonantan.