° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Por que bredo é tradição na Semana Santa em Pernambuco

Consumo do bredo na Semana Santa atravessa gerações em Pernambuco, embora não exista registro histórico preciso da sua origem

Por Cadu Silva

Por que bredo é tradição na Semana Santa em Pernambuco

Presença quase obrigatória nas mesas pernambucanas na Semana Santa, o bredo carrega uma tradição que resiste ao tempo, embora sua origem permaneça sem registro histórico preciso.

Apesar de amplamente consumido nesse período, não há documentação que indique quando ou como a planta passou a integrar o cardápio da Páscoa em Pernambuco. A ausência de registros, inclusive, desafia pesquisadores da área.

Segundo o jornalista e antropólogo Bruno Albertim, a dificuldade em rastrear essa origem é comum quando se trata de hábitos alimentares populares. “Não existe documentação precisa. Há apenas citações dispersas. Já procurei isso em várias fontes e nunca encontrei um ponto de partida claro”, afirma.

Nem mesmo obras clássicas de referência sobre a alimentação no Brasil, como as de Luís da Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, trazem menções diretas ao bredo. Considerados pioneiros na análise da comida como elemento social e cultural, os autores ajudam a compreender o contexto, mas não registram especificamente o alimento.

A explicação, segundo Albertim, está no fato de que os hábitos alimentares só passaram a ser valorizados como patrimônio cultural há relativamente pouco tempo. “Essas práticas do cotidiano não eram vistas como algo digno de registro. Por isso, muitas tradições surgiram e se consolidaram sem documentação formal”, explica.

Entre a fé e o costume

A relação do bredo com a Semana Santa está ligada à tradição cristã de abstinência de carne. Durante o período, fiéis são orientados a abrir mão de alimentos considerados mais “fortes”, como forma de penitência e reflexão.

Esse contexto favorece o consumo de preparações mais simples, leves e acessíveis. É aí que o bredo ganha espaço.

“Ele é um alimento espontâneo, que nasce com facilidade, muitas vezes nos quintais. É simples, nutritivo e acessível a todas as classes sociais”, destaca Bruno Albertim.

Ao contrário do peixe, tradicional substituto da carne, mas que costuma ter preços elevados nesse período, o bredo aparece como uma alternativa viável e democrática. Sua presença nas mesas, portanto, também dialoga com questões econômicas.

Ainda assim, não há qualquer prescrição oficial da Igreja Católica que recomende o consumo da planta. A tradição foi construída, sobretudo, a partir dos costumes populares.

“Não existe uma orientação religiosa específica para o bredo. Ele foi incorporado ao cardápio por prática cotidiana, pela vivência das pessoas”, explica o antropólogo.

Registros indiretos ajudam a indicar a antiguidade do hábito. Segundo Bruno, antigos cadernos de receitas familiares de Gilberto Freyre, utilizados para transmitir saberes culinários entre gerações, já apontavam o uso do bredo durante a Semana Santa, ainda que sem detalhar sua origem.

Valor simbólico e identidade

Com o passar do tempo, o bredo deixou de ser apenas um alimento comum e passou a carregar um significado mais amplo.

Para além do valor nutricional, a planta representa simplicidade, partilha e pertencimento. Elementos que, segundo o especialista, ajudam a explicar sua permanência como tradição.

“Ele se torna um elemento simbólico. É consagrado pela cultura, ganha um valor que ultrapassa o alimento em si”, afirma Bruno Albertim.

Mesmo sem reconhecimento oficial, o bredo pode ser entendido como um patrimônio cultural imaterial no sentido amplo, aquele que é validado e mantido pela própria comunidade.

Essa lógica não é exclusiva do bredo. Outros alimentos típicos da culinária nordestina, como a carne de sol e a charque, também nasceram de necessidades práticas, como a conservação dos alimentos em períodos de seca, e, com o tempo, se transformaram em símbolos culturais valorizados.

“O gosto também é construído socialmente. As pessoas continuam consumindo esses alimentos não apenas por necessidade, mas porque aprenderam a gostar, porque isso faz parte da identidade”, pontua o antropólogo.

Tradição que resiste e se reinventa

A permanência do bredo como símbolo da Semana Santa em Pernambuco também reflete transformações mais amplas na sociedade contemporânea.

Em um cenário de globalização e padronização dos hábitos alimentares, cresce o interesse por elementos locais e tradicionais. Aquilo que antes era visto como simples ou comum passa a ser valorizado como expressão de identidade cultural.

“Hoje existe uma valorização maior das especificidades regionais. Ao mesmo tempo em que o mundo se torna mais uniforme, aumenta o interesse pelo que é único”, explica Bruno Albertim.

Ceasa-PE registra mais de 270 toneladas de bredo na Feira 2026

A força dessa tradição também se reflete nos números. A Feira do Bredo 2026, realizada na madrugada desta Quinta-feira Santa, já contabiliza a comercialização de aproximadamente 272 toneladas da hortaliça no Ceasa-PE.

Ao todo, foram registradas 73 entradas de veículos com o produto, sendo 30 permissionários fixos e 43 comerciantes da Área Livre, evidenciando a dimensão da feira.

A produção segue concentrada na Zona da Mata. Vitória de Santo Antão lidera com 67 cargas, seguida por Chã Grande, com seis.

Segundo o coordenador de mercado do Ceasa-PE, Luiz Otávio, o volume registrado nas primeiras horas já indica crescimento. “Houve aumento no volume transportado, com a entrada de caminhões de maior porte”, afirma. A expectativa é de ampliação ao longo do dia.

Além de refletir o consumo, os números evidenciam a articulação entre produção rural, logística e comércio, intensificada durante a Semana Santa e com impacto direto na economia local.