"Quando chove, eu saio daqui": moradores vivem sob risco constante de deslizamentos em Olinda
Moradores da área de risco, em Olinda, onde foi realizado o simulado de desastre da Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, nesta quinta (26), relembram o drama que vivem quando chove forte
“Quando chove muito, eu saio daqui. Eu tenho três filho, não posso ficar aqui.” O relato é de Cássia de Souza, de 33 anos, moradora de uma área de risco no Alto da Bondade, em Olinda, Região Metropolitana do Recife.
O cenário relatado representa o que motivou a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros a realizarem um simulado de desastre nesta quinta-feira (26), na comunidade.
Cássia mora há pouco tempo no local com os três filhos, o companheiro e a sogra de 75 anos, que sofre de alzheimer, em uma casa que pertence à irmã. A mudança, segundo ela, foi por necessidade. “Não tem pra onde ir”, afirmou.
Mesmo sabendo do histórico da área, ela decidiu ficar. “Já caiu barreira aqui, sim. Isso aqui tudo já caiu.”
Sem lembrar o ano exato dos deslizamentos, ela aponta sinais visíveis do risco. “Pode ver que aqui o chão está todo rachado. O chão vai afundando mais.”
A insegurança aumenta com a aproximação do período chuvoso. “A gente já tá no outono. Mesmo com chuva fraca, não dá pra confiar.”
Segundo a moradora, os deslizamentos continuam acontecendo e forçam famílias a saírem temporariamente, mas não em definitivo.
“Esse ano mesmo caiu a barreira daquele outro lado. As pessoas saíram e depois retornaram, porque não têm pra onde ir.”
O motivo para não deixar o local é financeiro. “Se for alugar uma casa, é muito caro. A gente vai fazer o quê?”.
Para ela, a solução passa por obras estruturais que nunca chegaram. “Era pra fazer essa barreira, né? Pra população ficar mais segura. Se fizesse isso, diminuía os casos.”
Simulado testa resposta, mas risco é real
A ação reuniu equipes do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e da Defesa Civil de Pernambuco, com apoio do Exército Brasileiro.
As equipes participaram da operação, que simulou desabamentos, soterramentos e resgate de vítimas.
Segundo o major João Paulo, o exercício representa o momento mais crítico de uma tragédia.
“Essa é a fase de resposta, quando as outras etapas falharam. Aí pode ter vítima, desabamento, deslizamento, inundação.”
Ele explicou que o treinamento considera cenários em que o volume de chuvas ultrapassa a capacidade das equipes.
“Quando as equipes entram em saturação, a gente aciona força-tarefa, inclusive com apoio do governo federal e do Exército, como aconteceu em 2022.”
Durante o simulado, foram montados posto de comando, áreas de triagem e estruturas de atendimento. Vítimas foram simuladas com maquiagem, representando pessoas soterradas após o desabamento de casas.
Houve também a atuação de um cachorro de 6 anos, da raça labrador, identificado como Spot. Ele participou nas buscas de vítimas soterradas, percorrendo todo o perímetro da simulação.
Histórico de destruição
Morador antigo da comunidade, Ricardo Silva da Oliveira, de 43 anos, já viu o cenário sair do controle. “Já caiu essa barreira aqui há muitos anos. A gente viu casa caindo, a barreira vindo por cima.”
Segundo ele, casas foram destruídas, incluindo parte da residência da própria família. “Derrubou parte da casa da minha avó e outras casas aqui, embaixo também.”
Apesar da gravidade, ele afirma que não houve mortes no episódio. “Graças a Deus não morreu ninguém. Mas destruiu casa.”
Perigo aumenta com a chegada das chuvas
De acordo com o secretário executivo de Defesa Civil, Clóvis Ramalho, o período mais crítico começa agora, na chamada “quadra chuvosa”, que começa em abril e vai até agosto.
Segundo ele, a Região Metropolitana do Recife reúne fatores que favorecem desastres.
“Temos relevo de morro, solo que facilita deslizamento e áreas baixas sujeitas a inundação.”
Além dos deslizamentos, outros riscos têm causado mortes recentes. “No ano passado foram nove óbitos, muitos eletrocutados em áreas alagadas e também afogamentos.”, afirmou o Ramalho
Entre o treino e a realidade
Enquanto o poder público testa estratégias de resposta, moradores seguem convivendo com o risco diário.
Para Cássia, a conta é simples: entre o perigo e a falta de alternativa, resta sair de casa quando a chuva aperta, e voltar depois. “A gente sai… mas depois volta porque não tem pra onde ir.”