Candidatos envolvidos em fraude no concurso do TJPE pagariam até R$ 70 mil após aprovação
Os detalhes da Operação Kyma foram repassados na manhã desta quarta-feira (25) pela Polícia Civil. Nove pessoas foram presas. Entre elas estão PMs, guarda municipal e policial penal
Candidatos envolvidos na fraude no concurso do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) poderiam pagar até R$ 70 mil após a aprovação, dependendo do cargo escolhido.
O esquema foi descoberto durante a nvestigação que resultou na Operação Kyma, deflagrada nesta quarta (25), pela Polícia Civil de Pernambuco.
Os detalhes da ação foram repassados na manhã desta quarta-feira (25) pelo delegado Júlio César Pinheiro, adjunto da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção (1ª DECOR).
Ao todo, foram expedidos 11 mandados de prisão e 22 de busca e apreensão domiciliar.
Nove pessoas foram presas, e as diligências ocorreram no Recife, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Vitória de Santo Antão, Itaquitinga, Araçoiaba e Petrolina, além de ações no Rio Grande do Norte.
Como funcionava
De acordo com o delegado Júlio César Pinheiro, responsável pelo caso, a investigação começou no final de novembro de 2025, após denúncias recebidas por diferentes canais institucionais, e avançou com o apoio da Polícia Federal.
“As investigações começaram no final de novembro, começo de dezembro. Existiram algumas fontes de denúncia, inclusive por canais institucionais. Como se tratava de organização criminosa, conseguimos realizar um diálogo muito profícuo com a Polícia Federal, com uma grande troca de informações”, afirmou.
A partir da análise de um grande volume de dados, a polícia conseguiu identificar a origem do vazamento da prova.
“Com uma análise muito complexa de um grande volume de dados, conseguimos chegar inclusive na origem, na fonte do vazamento”, destacou o delegado.
As investigações apontaram que uma pessoa se infiltrava na banca organizadora do concurso para ter acesso antecipado ao conteúdo da prova. Segundo a polícia, essa prática já era utilizada anteriormente pelo grupo.
“Essa pessoa já cometia esse tipo de crime, se infiltrando como coordenadora, colaboradora ou trabalhando dentro dos locais de aplicação da prova para capturar as imagens do conteúdo e repassar ao líder da organização criminosa”, explicou.
O líder concentrava as informações e coordenava o esquema, repassando o material para pessoas responsáveis por resolver as questões. Em seguida, o gabarito era distribuído aos candidatos que pagavam pelo serviço.
“Ele distribuía aquelas questões para serem resolvidas por outras pessoas, que devolviam as respostas. Depois disso, ele repassava o gabarito para os chamados clientes, que são aqueles que compraram”, disse.
O modo de atuação incluía tanto o acesso antecipado às respostas quanto o uso de tecnologia durante a aplicação da prova.
Parte dos candidatos utilizava pontos eletrônicos intra-auriculares, conectados a celulares por meio de dispositivos que simulavam cartões e transmitiam o áudio via Bluetooth. Outros optavam por métodos mais simples, como anotações escondidas nas roupas.
“Existiam duas maneiras. Alguns clientes compravam dispositivos eletrônicos, enquanto outros copiavam o gabarito em papel e escondiam no próprio corpo, consultando ao longo da prova”, detalhou.
A investigação também identificou que integrantes da organização davam suporte direto aos candidatos, inclusive com orientações práticas sobre como fraudar.
“Conseguimos constatar que uma candidata recebeu orientação de um membro da organização sobre como separar os gabaritos por tipo de prova e como consultar durante a aplicação”, afirmou o delegado.
Pagamento
O esquema previa pagamento em duas etapas. Inicialmente, os candidatos pagavam entre R$ 2 mil e R$ 5 mil para custear a logística e os equipamentos. Após a aprovação, o valor podia chegar a até R$ 70 mil.
“Caso conseguisse ingressar no serviço público, pagaria algo em torno de 50 a 70 mil reais, a depender da remuneração do cargo”, disse.
Segundo o delegado, os pagamentos eram feitos, em muitos casos, por meio de contas de terceiros ou chaves Pix para dificultar o rastreamento, além de transações em dinheiro.
Participação de servidores
A operação também identificou a participação de servidores públicos no esquema, tanto como integrantes da organização criminosa quanto como beneficiados.
“Existem servidores públicos, sim. Nós conseguimos separar os membros da organização criminosa e os clientes, que são os beneficiados com a compra ilícita do gabarito”, afirmou.
Entre os presos, estão dois policiais militares, um de Pernambuco e outro do Piauí.
De acordo com a investigação, um deles atuava na logística do grupo, auxiliando na distribuição de equipamentos eletrônicos, enquanto o outro figurava como cliente, tendo adquirido o gabarito fraudado.
Um terceiro policial militar foi alvo de mandado de busca e apreensão, também na condição de beneficiado. Há ainda a identificação de um guarda municipal do Rio Grande do Norte e de um policial penal como participantes do esquema.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, fraude em concurso público e lavagem de dinheiro. No caso de servidores públicos, há agravantes previstos em lei.
O concurso do TJPE, realizado em setembro de 2025, foi anulado após a confirmação da fraude.
As investigações seguem em andamento para identificar outros envolvidos e possíveis ramificações do grupo em outros certames.