Violência contra mulheres é impulsionada por ideologia de dominação, alerta socióloga
Para especialista, disseminação de valores de controle masculino agrava cenário de violência de gênero
Apesar do reforço nas ações de enfrentamento por parte das forças de segurança, a violência contra a mulher segue como um problema estrutural. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, Pernambuco registrou 8.103 casos de violência doméstica e familiar, o que representa uma média de 137,3 ocorrências por dia. Diante desse cenário, a socióloga Ana Portella destaca que há novos elementos que agravam o problema, como a ideia de dominação por parte dos homens.
Os dados revelam que até fevereiro foram contabilizados 18 feminicídios. Além dos casos letais, os números incluem 16 tentativas de feminicídio apenas em janeiro, evidenciando a gravidade e a recorrência de situações em que mulheres estiveram sob risco iminente de morte.
“Apesar dos casos reproduzirem o padrão do ciclo da violência doméstica, a visibilidade conferida pelas redes sociais, pelas investigações policiais e pela imprensa nos permite observar certos comportamentos masculinos associados a valores conservadores”, destaca a socióloga.
Segundo ela, esses valores, quando difundidos de forma ampla, acabam legitimando práticas de controle e violência. “Em seu conjunto, esses valores dão legitimidade e convocam os homens a manterem as suas parceiras sob seu estrito domínio, lhes autorizando a utilizar de violência sempre que elas resistirem a isso.”
A especialista ainda chama atenção para o acúmulo histórico desse processo, apontando que “a disseminação desse ideário se fortaleceu imensamente em todo o mundo desde 2013”, o que contribui para a formação de gerações de homens influenciados por esse tipo de pensamento.
Ações
No campo institucional, o Departamento de Polícia da Mulher (DPMUL), vinculado à Polícia Civil de Pernambuco, tem intensificado tanto ações repressivas quanto preventivas. Em 2025, foram instaurados e remetidos 7.863 inquéritos policiais e cumpridos 187 mandados de prisão, além de um aumento de 50% nas prisões em flagrante por violência doméstica em comparação com o ano anterior.
O estado conta atualmente com 15 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), distribuídas em diversas regiões, sendo que unidades localizadas em cidades como Recife, Jaboatão dos Guararapes, Caruaru, Petrolina, Paulista, Cabo de Santo Agostinho e Olinda funcionam 24 horas, garantindo atendimento contínuo.
Além da repressão, o DPMUL também investe em prevenção, com 211 ações realizadas ao longo de 2025, incluindo capacitação de policiais, palestras em escolas, campanhas educativas e atividades de conscientização, além da atuação da unidade móvel que percorre diferentes regiões oferecendo serviços como registro de ocorrências e solicitação de medidas protetivas.
Mesmo com esse avanço, os dados mostram o problema da subnotificação. Em 2025, das 88 vítimas de feminicídio registradas no estado, apenas 20 haviam formalizado denúncia anterior contra seus agressores. Para Ana Portella, esse cenário está diretamente relacionado à dificuldade de reconhecimento da violência e às barreiras sociais que cercam as vítimas.
Ela explica que esse processo é frequentemente lento e confuso. “Isso não é fácil de ser percebido, porque o homem que bate é o mesmo que diz que a ama e que cuida bem da família. Também não é fácil porque a maior parte das pessoas que lhe rodeiam frequentemente minimizam o problema e dizem à mulher para ter paciência, pois ele pode melhorar.”
Outro fator determinante para a baixa formalização das denúncias é o medo de represálias. “A denúncia eleva o risco de morte para a mulher e, em geral, elas sabem disso. Muitos agressores, ao saber que foram denunciados, tornam-se mais violentos e tentam matar as mulheres.”
Esse contexto evidencia a necessidade de uma rede de proteção mais eficiente e integrada, capaz de garantir segurança imediata às vítimas. Embora as medidas protetivas sejam consideradas instrumentos fundamentais, ainda apresentam limitações importantes.
“As medidas protetivas são eficazes, mas não são infalíveis, então há homens que descumprem a medida e os mecanismos de identificação desse descumprimento ainda são incipientes.” Para a socióloga, o uso de tecnologias como tornozeleiras eletrônicas e dispositivos de alerta pode contribuir para reduzir esses casos, permitindo respostas mais rápidas por parte das autoridades.
Abordagem integrada
Ana Portella também destaca que o enfrentamento à violência não pode se restringir à atuação das delegacias, defendendo uma abordagem mais ampla e integrada entre diferentes serviços públicos.
Nesse sentido, ela defende a ampliação de sistemas de alerta, o fortalecimento de patrulhas especializadas e a integração entre segurança pública e saúde, garantindo que o atendimento ocorra de forma rápida e eficiente, independentemente do local onde a violência aconteça.
Apesar das fragilidades, a socióloga reconhece avanços importantes na rede de apoio e ressalta que muitas vidas têm sido preservadas graças às políticas públicas já implementadas. “A rede de apoio tem acertado mais do que errado. Sem ela, o panorama seria imensamente mais trágico. São muitos os casos de mulheres que foram salvas pelas medidas protetivas e pela ação dos centros de referência.”
Ainda assim, ela pontua a necessidade de aprimorar o monitoramento e corrigir falhas, especialmente no acompanhamento de ameaças, que muitas vezes antecedem os feminicídios. Além disso, defende maior participação da sociedade na proteção das vítimas, inclusive com a divulgação de informações que permitam identificar e impedir a aproximação de agressores.
“Os homens não violentos têm um papel essencial nisso, pois devem atuar como modelo e referência para os outros e, especialmente, para crianças e jovens.” Para a socióloga, um dos maiores desafios está na desconstrução de ideias equivocadas sobre relacionamentos.