° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Arrombamento de porta, furto de roupas e mensagens por Pix: as acusações contra suspeito de feminicídio no Le Parc

Defesa de Isabel Cristina Oliveira dos Santos rebateu queixa-crime do empresário Silvio Souza Silva. Ele é acusado de ter matado a ex-companheira e se matar em seguida em apartamento em Boa Viagem

Por Jorge Cosme

Print de conversa em que o suspeito estaria ameaçando atirar na ex-companheira.

A estudante de medicina Isabel Cristina Oliveira dos Santos, de 22 anos, vítima de feminicídio no domingo (22) no condomínio Le Parc, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, denunciou uma série de perseguições e ameaças que teriam sido cometidas pelo ex-companheiro Silvio Souza Silva, 48. Isabel e Silvio foram encontrados mortos no apartamento dela no Le Parc.

As denúncias contra Silvio estão na resposta apresentada em 9 de março deste ano no processo em que ele acusa Isabel de difamação, injúria e calúnia. A advogada Izabela Leite, que representava a estudante, alega nos autos que a queixa-crime apresentada pelo cantor e empresário foi uma forma de violência processual e psicológica contra a cliente.

No documento, Silvio, também conhecido pelas alcunhas de Dom Silver e Coronel Silver, é acusado de arrombar a porta do apartamento de Isabel, embarcar no mesmo voo que ela sem autorização, acessar o celular dela indevidamente e enviar mensagens no grupo dos estudantes de Medicina, ameaçar divulgar vídeos íntimos caso ela publicasse fotografia com outro homem, furtar as roupas dela e fazer ameaças contra a própria integridade como mecanismo de pressão emocional.

Segundo a advogada, Isabel registrou boletim de ocorrência contra o ex-companheiro em 27 de fevereiro deste ano por perseguição, ameaça e outros crimes de violência doméstica e familiar.

A estudante também conseguiu na Justiça o reconhecimento de união estável cumulada com pedido de alimentos para si e para a filha que teve com Silvio. A decisão fixou a pensão em R$ 25 mil por mês.

"Em resposta, o querelante [Silvio] ajuíza, em dois dias consecutivos, ação cível de indenização por danos morais com pedido de tutela de urgência e a presente queixa-crime, ambas imputando à querelada [Isabel] condutas graves e atribuindo-lhe o papel de agressora", escreve Izabela Leite na resposta à acusação.

Para ela, Silvio acionou a Justiça como forma de "pressão, controle e intimidação da ex-companheira".

A advogada anexa fotos e prints mostrando a porta do apartamento de Isabel arrombada no dia 9 de novembro de 2025.

Um print mostra uma suposta conversa entre os dois, na qual Isabel diz que ele "arrombou a casa". "A casa é minha também. Eu só esqueci a senha", responde em troca de mensagens no Instagram.

"[Silvio] contratou chaveiro para entrar no apartamento em 22/11/2025 e furtou todas as roupas e bens pessoais da ré para que ela não se mudasse do apartamento em nome dele", acrescenta a defensora.

"Eu só levei suas coisas porque eu não queria que você fosse embora", diz mensagem de WhatsApp atribuída ao suspeito do feminicídio.

Silvio também teria enviado mensagens a pessoas próximas a Isabel, como familiares e colegas de faculdade, para pressioná-la a reatar o relacionamento.

A advogada apresenta ainda prints de comprovantes de Pix em que o empresário envia mensagens com ameaças à própria vida como "mecanismo reiterado de pressão emocional para forçar reaproximação".

Em uma das mensagens por Pix, ele diz que vai se matar caso ela não diga onde está. "Se você não vier, eu vou fugir e vou aí ver vocês", ele escreve em outra transferência Pix.

Por fim, Izabela Leite apresenta prints em que o homem estaria propondo casamento religioso com a estudante quatro dias após ajuizar a ação em que a acusa de ser perseguidora obsessiva.

"Eu nunca casei na igreja e sonho com isso! Eu sonhei com você e eu entrando na igreja vestidos de noivos e [filha] segurando as alianças. Seria o final feliz mais lindo dessa vida", diz trecho de mensagem atribuída a ele.

Queixa-crime

Na queixa-crime impetrada por Silvio, ele diz que Isabel estava fazendo uma campanha "de natureza evidentemente vingativa e destrutiva", com mensagens de transferências via Pix e propagação de informações depreciativas.

Ele apresenta prints de conversas em que Isabel supostamente cobra que ele passe um veículo de luxo para o nome dela.

"A intenção caluniosa da querelada é inequívoca, buscando não apenas a destruição da reputação pessoal, mas também profissional do querelante", escreve o advogado Rafael Corrêa, que representava o cantor.

Assimetria de poder

A advogada de Isabel rebate a acusação afirmando que as mensagens encaminhadas por sua cliente foram enviadas após "a descoberta de novas traições ou durante discussões acaloradas" provocadas pelo ex-companheiro.

A defensora destaca que Isabel é jovem, sem renda própria e manteve um relacionamento afetivo com o empresário desde que ela era adolescente. Para Izabela Leite, Silvio estava "em posição de manifesta superioridade econômica e social".

"Essa assimetria estrutural de poder é o pano de fundo de toda a dinâmica relacional que gerou os fatos narrados na queixa", ela escreve no processo.

Ela, em seguida, apresenta uma série de questionamentos: "A perspectiva de gênero impõe ao julgador questionar antes de tudo: Quem detém poder econômico na relação? Quem tem acesso privilegiado ao aparato judicial Qual é o contexto emocional e relacional que antecede as mensagens apresentadas como prova?"

Na manifestação, a advogada pedia a rejeição parcial da queixa-crime, para retirar a acusação de calúnia e, alternativamente, a absolvição de Isabel. Não houve decisão da Justiça. Com relação à outra ação, de indenização por danos morais, a Justiça foi favorável ao pedindo do empresário e concedeu a tutela de urgência determinando que a mulher evitasse não mantivesse contato com o ex-companheiro e não se aproximasse dele.