Moradores protestam após anúncio de início de obra de ponte no Recife
A Prefeitura do Recife iniciou, nesta quinta-feira (12), as obras da ponte que vai ligar os bairros do Cordeiro e Casa Forte. Moradores da Comunidade de Santana alegam falta de debate com a gestão municipal e protestaram durante o evento de assinatura da ordem de serviço
A solenidade do anúncio de início das obras de uma nova ponte que vai ligar as zonas Norte e Oeste do Recife foi marcada por protesto de moradores, nesta quinta (12), dia do aniversário de 489 anos da cidade.
A ponte vai ligar os bairros do Cordeiro, na Zona Oeste, e Casa Forte, na Zona Norte, segundo a prefeitura.
Os moradores da comunidade de Santana exibiram cartazes, aproveitando a presença do prefeito João Campos (PSB), que comandou a cerimônia.
“Não é progresso se apaga comunidades (sic)”, dizia um deles. A comunidade alegou que 150 famílias serão prejudicadas pela obra.
O que dizem os moradores
O projeto prevê a desapropriação de terrenos. Os moradores dizem que não “houve debate com a prefeitura a respeito do projeto e das alternativas para a população da região”.
Nascida e criada em Santana, Rosely Bezerra, de 29 anos, afirmou que a comunidade tenta debater o projeto desde 2024, mas tem sido “ignorada”.
“Se fosse um diálogo que a gente tivesse travando há dois meses, mas não, são dois anos entrando na Justiça. Não teve uma comunicação. Assim, pessoas idosas na família que estão vivendo esse processo de ansiedade, porque a gente sabe que não é só a casa. É a forma de viver da comunidade. Na nossa comunidade, a gente brinca, os idosos circulam, cadeirantes conseguem circular e com essa vinda da ponte eu digo que não consegue”, comentou.
Ela disse que esse processo é uma “tentativa de apagamento do território” e disse que os moradores seguirão lutando.
“O território incomoda, porque é periférico. As pessoas ao nosso redor têm poder aquisitivo muito melhor e interesse em ocupar aquele espaço. A gente já sofria com especulação imobiliária e a construção da ponte só vai se intensificar. A luta continua no sentido de dizer e reafirmar a existência do nosso território. Ele pode ser apagado futuramente, mas continuamos dizendo que ele existe, desde a década de 1910. Temos registros históricos. A associação dos moradores e a comunidade Santana continua na invisibilidade”, acrescentou.
O que disse o prefeito
Questionado pelo Diario, o prefeito do Recife falou sobre como a situação está sendo tratada pela gestão.
“Estamos à disposição das famílias que quiserem dialogar. Já passamos por isso. Na Ponte do Monteiro (Zona Norte), tivemos diálogo com a comunidade, também em outras obras. Temos uma equipe social para dialogar e fazer o que é justo. Em torno de 150 casas precisarão ser desapropriadas", disse.
"Nós vamos fazer avaliação de cada casa e o pagamento. Se a família não concordar, pode recorrer, questionar, pode ser feita uma nova avaliação, pode ser discutido na justiça. Nós não vamos deixar de fazer uma obra que vai beneficiar milhões de pessoas em virtude de uma ou outra pessoa”, completou o prefeito.
A ponte
Com 380 metros de extensão e 11 metros de altura, a nova ponte ligará a Avenida Caxangá à Avenida 17 de Agosto. O prazo de conclusão dado pela prefeitura é de três anos. Segundo a gestão, a obra deve contribuir para reduzir o fluxo de veículos de corredores sobrecarregados.
O projeto prevê quatro faixas de rolamento, duas em cada sentido, além de ciclovia e calçadas acessíveis, garantindo estrutura para motoristas, pedestres e ciclistas. A construção será coordenada pela Autarquia de Urbanização do Recife (URB).
O projeto utiliza o sistema estrutural do tipo “extradorso”, que combina características de dois modelos de ponte.
A ligação vai partir do bairro do Cordeiro, pela Avenida Professor Estevão Francisco da Costa, e, ao chegar a Casa Forte, se dividirá em dois acessos: um pela Rua Dona Olegarinha e outro pela Rua Jorge Gomes de Sá, ao lado do Parque Santana.
Além disso, o projeto também prevê obras no complexo viário da III Perimetral. De acordo com a gestão, serão requalificadas 17 vias do entorno, totalizando 7,3 quilômetros de extensão, incluindo dois quilômetros que hoje não são pavimentados.
As intervenções contemplam, segundo as informações da prefeitura, drenagem, iluminação pública, calçadas acessíveis, paisagismo, urbanização, implantação de ciclofaixa de 1,2 km, recuperação da Praça Flor de Santana e modernização de 13 abrigos de ônibus.
No total, a prefeitura projeta que a obra beneficiará milhares de recifenses, reduzindo em até 57% as distâncias percorridas em alguns trajetos e em até 63% o tempo de viagem, a exemplo do deslocamento entre a Avenida Dezessete de Agosto e a Avenida San Martin.
Investimento
O conjunto de intervenções contará com financiamento da Caixa/FGTS e contrapartida municipal. A ordem de serviço foi assinada pelo prefeito João Campos. A construção da estrutura está orçada em R$ 169 milhões, enquanto as intervenções no complexo viário somam R$ 49 milhões.